Uma mão humana segura um bloco branco de isopor retangular. Sobre o bloco estão posicionados cinco insetos grandes, de cor marrom, semelhantes a barbeiros. Os insetos têm corpo achatado, pernas longas e finas e antenas compridas. Estão organizados em duas fileiras, como em uma exposição ou coleção para observação. O fundo da imagem é escuro e desfocado, o que destaca o contraste entre os insetos e o bloco branco. A fotografia foca nos insetos e na mão que os sustenta.
Global studies redefine the treatment of heart failure caused by Chagas disease
Studies evaluate modern therapies for Chagas cardiomyopathy, a condition affecting millions of people that has traditionally been excluded from major clinical trials
Publicado: 16/07/2026 às 9:42
By: Editorial Staff*
Art by: Livia Bortoletto**
The World Health Organization estimates that approximately 8 million people worldwide, primarily in Latin America, are infected with Trypanosoma cruzi, the parasite that causes Chagas disease – Photo: Cecília Bastos / USP Imagens
Chagas disease, caused by the protozoan Trypanosoma cruzi and historically transmitted by the triatomine bug (commonly known as the kissing bug), continues to affect millions of people worldwide. Classified by the World Health Organization (WHO) as a neglected tropical disease because of the limited investment it receives in research, its most serious manifestation is cardiac involvement: between 30% and 40% of infected individuals develop severe heart conditions over the course of their lives, including heart failure, arrhythmias, and an increased risk of sudden cardiac death.
To address the longstanding lack of disease-specific scientific evidence for these patients, the Heart Institute (InCor) of the Hospital das Clínicas (HC) at USP’s Medical School (FM) participated in two landmark clinical studies with global impact. Published in leading scientific journals — the Journal of the American Medical Association (JAMA) and the Journal of the American College of Cardiology (JACC) — the studies evaluated the efficacy of a modern medication (sacubitril/valsartan) specifically in patients with Chagas cardiomyopathy. Until now, treatment guidelines for heart failure had been based on studies that included very few patients with Chagas disease.
Published in JAMA, the Parachute-HF study was an international effort involving 922 patients enrolled at 83 research centers across Brazil, Argentina, Colombia, and Mexico. Its objective was to compare the newer therapy (sacubitril/valsartan) with the conventional treatment (enalapril) used in Brazil’s public healthcare system.
The study showed that both medications were safe and performed similarly in preventing major clinical events, such as death or emergency hospitalization. However, the newer therapy offered one important advantage: it produced a substantially greater reduction in blood levels of NT-proBNP.
Participants were randomized to receive either sacubitril/valsartan or enalapril, in addition to guideline-directed standard therapy. The study was globally coordinated by the Brazilian Clinical Research Institute (BCRI), part of the Tribe MD group.
The results demonstrated no statistically significant difference between the two treatments in clinical outcomes such as cardiovascular death and first hospitalization for heart failure. However, patients treated with sacubitril/valsartan experienced a significantly greater reduction in NT-proBNP levels after 12 weeks of treatment.
“The study found that patients receiving sacubitril/valsartan experienced a significantly greater reduction in NT-proBNP levels after 12 weeks of treatment, with a median decrease of 30.6%, compared with only 5.5% in the enalapril group. This finding favored sacubitril/valsartan in the study’s hierarchical composite endpoint”, said Renato D. Lopes, the study’s lead physician-investigator at Tribe MD.
What does this mean in practice?
NT-proBNP serves as a biomarker of cardiac stress. The lower its concentration, the less strain the heart muscle is under. In the group receiving the newer therapy, NT-proBNP levels decreased by 30.6%, compared with only 5.5% among patients receiving conventional treatment.
“The significance of this study extends beyond the field of cardiology”, emphasized Felix José Alvarez Ramires, Head of the InCor Cardiomyopathy Group and one of the study’s national coordinators. For the researchers, placing Chagas disease at the center of one of the world’s largest research initiatives represents a historic achievement in ensuring greater representation for Latin American health priorities.
“Despite the severity of this condition, patients with Chagas cardiomyopathy have historically been underrepresented in major heart failure clinical trials. Most therapeutic guidelines have been developed on the basis of studies that included virtually none of these patients”, noted Edimar Bocchi, a member of the study’s Executive Committee.
Answer-HF Study: 100% Brazilian science conducted within Brazil's Public Health System
The second study, named Answer-HF, was entirely conceived, designed, and conducted at InCor. It represents the culmination of seven years of work by a team of Brazilian scientists who overcame, among other challenges, the difficulties posed by the covid-19 pandemic while closely monitoring 190 patients over a six-month period.
Published in JACC and presented at the American Heart Association conference (USA), the study also directly compared the two therapies. As in the international study, sacubitril/valsartan stood out by reducing cardiac stress, as reflected by lower NT-proBNP levels, demonstrating that it is a safe and effective treatment option.
Led by Fabio Fernandes and coordinated by Felix Ramires, Answer-HF represents a landmark achievement. It is the world’s first double-blind clinical trial specifically designed to evaluate contemporary neurohormonal therapy in patients with Chagas cardiomyopathy.
More than simply comparing two medications, these two studies demonstrate that Brazilian medicine and Brazil’s Unified Health System (SUS) possess the capacity to produce world-class scientific research addressing health challenges that have often been overlooked elsewhere. They also reinforce InCor’s position as an international reference center for cardiovascular research and research on neglected diseases.
*Written with information provided by the InCor Press Office
**Intern under the supervision of Simone Gomes
English version: Nexus Traduções, edited by Denis Pacheco
Política de uso A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TVUSP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.
A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 8 milhões de pessoas em todo o mundo, principalmente na América Latina, estejam infectadas com o Trypanosoma Cruzi, o parasita causador da doença de Chagas. – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Texto: Redação*
DESTAQUE: 20170518_02_chagas
LEGENDA: A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 8 milhões de pessoas em todo o mundo, principalmente na América Latina, estejam infectadas com o Trypanosoma Cruzi, o parasita causador da doença de Chagas. – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
DESCRIÇÃO: Uma mão humana segura um bloco branco de isopor retangular. Sobre o bloco estão posicionados cinco insetos grandes, de cor marrom, semelhantes a barbeiros. Os insetos têm corpo achatado, pernas longas e finas e antenas compridas. Estão organizados em duas fileiras, como em uma exposição ou coleção para observação. O fundo da imagem é escuro e desfocado, o que destaca o contraste entre os insetos e o bloco branco. A fotografia foca nos insetos e na mão que os sustenta.
A Doença de Chagas, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e transmitida historicamente pelo inseto barbeiro, ainda afeta milhões de pessoas no mundo. Classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma “doença negligenciada” por receber poucos investimentos em pesquisa, ela tem na região do coração a sua face mais grave: entre 30 e 40% dos infectados desenvolvem problemas cardíacos graves ao longo da vida, como insuficiência cardíaca (o “coração grande” ou cansado), arritmias e risco de morte súbita.
Para mudar esse cenário histórico de falta de dados científicos específicos para esses pacientes, o Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) participou de dois estudos clínicos inéditos de impacto global. Publicadas em importantes revistas científicas — o Journal of the American Medical Association (Jama) e o Journal of the American College of Cardiology (Jaac) —, as pesquisas avaliaram a eficácia de um medicamento moderno (o sacubitril/valsartana) especificamente no coração de quem tem Chagas. Até hoje, as diretrizes de tratamento para insuficiência cardíaca eram baseadas em estudos que quase não incluíam pacientes com Chagas.
Publicado no JAMA, o estudo Parachute-HF foi um esforço internacional que acompanhou 922 pacientes em 83 centros de pesquisa no Brasil, Argentina, Colômbia e México. O objetivo foi comparar o medicamento mais moderno (sacubitril/valsartana) com o tratamento tradicional (enalapril) usado na rede pública.
A pesquisa mostrou que ambos os remédios se mostraram seguros e muito parecidos na prevenção de eventos graves, como mortes ou internações de urgência. No entanto, o medicamento mais novo trouxe uma vantagem importante: ele reduziu drasticamente os níveis de uma substância no sangue chamada NT-proBNP.
Os participantes foram randomizados para receber sacubitril/valsartana ou enalapril, além do tratamento padrão recomendado pelas diretrizes internacionais. O estudo foi coordenado globalmente pelo Brazilian Clinical Research Institute (BCRI), do grupo Tribe MD.
Os resultados demonstraram que não houve diferença estatisticamente significativa entre os dois medicamentos em desfechos clínicos como morte cardiovascular e primeira hospitalização por insuficiência cardíaca. Entretanto, os pacientes tratados com sacubitril/valsartana apresentaram redução significativamente maior nos níveis de NT-proBNP após 12 semanas de tratamento.
“O estudo identificou que os pacientes que utilizaram sacubitril/valsartana apresentaram uma redução significativamente maior nos níveis de NT-proBNP após 12 semanas de tratamento, com queda mediana de 30,6%, contra apenas 5,5% no grupo que recebeu enalapril. Esse resultado favoreceu o sacubitril/valsartana no desfecho hierárquico composto do estudo”, afirma Renato D. Lopes, médico-pesquisador líder do estudo pela Tribe MD.
O que isso significa na prática?
Esse composto funciona como um “termômetro” do estresse do coração. Quanto mais baixo o nível, menos o músculo cardíaco está sofrendo. No grupo que tomou o remédio moderno, a queda dessa substância foi de 30,6%, contra apenas 5,5% no grupo do tratamento tradicional.
“O significado desse estudo ultrapassa os limites da cardiologia”, destaca Felix José Alvarez Ramires, chefe do Grupo de Miocardiopatias do InCor e um dos coordenadores da pesquisa no País. Para os cientistas, colocar a Doença de Chagas no centro do maior mapa de pesquisa do mundo é uma vitória histórica de representatividade para a saúde da América Latina.
“Apesar dessa gravidade, até hoje os pacientes com cardiomiopatia chagásica foram sistematicamente sub-representados nos grandes ensaios clínicos de insuficiência cardíaca. A maioria das diretrizes terapêuticas foi construída com base em estudos que praticamente não incluíram esse perfil de paciente”, destaca o Edimar Bocchi, integrante do comitê executivo do estudo.
Estudo Answer-HF: Ciência 100% brasileira e feita no SUS
O segundo estudo, batizado de Answer-HF, foi totalmente idealizado, planejado e executado dentro do InCor. Foram sete anos de dedicação de uma equipe de cientistas brasileiros, que enfrentaram inclusive os desafios da pandemia para acompanhar de perto 190 pacientes ao longo de seis meses.
Publicado no jornal JACC e apresentado no congresso da American Heart Association (EUA), o estudo também comparou as duas medicações diretamente. Assim como no estudo internacional, o remédio mais moderno se destacou por aliviar o estresse do músculo cardíaco (reduzindo o tal “termômetro” químico no sangue), mostrando-se uma alternativa segura e eficaz.
Liderado por Fabio Fernandes e coordenado por Felix Ramires, o Answer-HF é um marco: trata-se do primeiro teste clínico do mundo feito de forma “duplo-cega” (onde nem médicos e nem pacientes sabiam qual remédio estava sendo tomado, garantindo a máxima precisão dos resultados) focado em testar a proteção hormonal moderna para o coração chagásico.
Mais do que uma disputa entre dois comprimidos, os dois estudos mostram que a medicina brasileira e o ecossistema do SUS são capazes de produzir ciência de ponta para responder a problemas que o resto do mundo costuma ignorar. E o InCor reforça o papel da instituição como referência internacional em pesquisa cardiovascular e em doenças negligenciadas.
*Da Assessoria de Imprensa do InCor, adaptado para o Jornal da USP