Brasil registra recorde de transplantes após pandemia, mesmo com velhos problemas

Por Joyce Pezzato*16/07/2026 às 12:300 visualizações
Mesmo com o recorde de transplantes, cerca de 45% das famílias ainda recusam a doação de órgãos - Foto: wavebreakmedia_micro/Magnific
Mesmo com o recorde de transplantes, cerca de 45% das famílias ainda recusam a doação de órgãos - Foto: wavebreakmedia_micro/Magnific
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🎙 Joyce Pezzato* · Jornal da USP

Especialistas apontam que, apesar dos investimentos públicos e avanços tecnológicos, a recusa familiar e a falta de estrutura ainda limitam o acesso aos procedimentos

 Publicado: 16/07/2026 às 9:30
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Mesmo com o recorde de transplantes, cerca de 45% das famílias ainda recusam a doação de órgãos –
Mesmo com o recorde de transplantes, cerca de 45% das famílias ainda recusam a doação de órgãos – — wavebreakmedia_micro/Magnific
Mesmo com o recorde de transplantes, cerca de 45% das famílias ainda recusam a doação de órgãos – Foto: wavebreakmedia_micro/Magnific
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O Brasil alcançou, em 2025, o marco histórico na saúde pública ao realizar mais de 31 mil transplantes, o maior número já registrado no País. Entre os procedimentos, o transplante de córnea liderou as estatísticas, com mais de 17 mil cirurgias realizadas. Os números refletem a recuperação do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) após os impactos provocados pela pandemia de covid-19 e os investimentos realizados nos últimos anos para ampliar a captação de órgãos, fortalecer as equipes e aprimorar a logística de distribuição em todo o território nacional. Apesar do avanço, velhos problemas ainda atrapalham. 

Segundo o professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e líder do Núcleo de Pesquisa em Fisiopatologia Ocular, Eduardo Melani Rocha, a pandemia provocou uma interrupção quase completa dos transplantes de córnea no País. “Nos anos da pandemia, principalmente em 2020, o número de doações, e consequentemente de transplantes de córnea, foi reduzido a quase zero. Havia o desconhecimento inicial sobre a possibilidade de transmissão da covid-19 para pacientes receptores e também para as equipes de saúde.”

O pesquisador explica que a retomada ocorreu de forma gradual e exigiu um grande esforço conjunto das equipes médicas e dos gestores públicos. “A recuperação foi lenta, gerando um enorme esforço das equipes e do governo para suprir a demanda reprimida. A fila também aumentou por causa do período parado. Houve demanda reprimida, aumento natural da demanda e um esforço para responder a esses problemas, o que acabou resultando nesse bom desempenho observado em 2025.”

Além da reorganização do sistema, o avanço tecnológico também contribuiu para ampliar o número de procedimentos. De acordo com Rocha, novas técnicas cirúrgicas permitiram tornar o transplante mais seguro e menos invasivo. “A tecnologia que permite fazer um transplante apenas da camada da córnea que está doente abreviou o tempo de cirurgia e também a recuperação pós-operatória. Isso encorajou médicos e pacientes a recorrerem a essa forma de tratamento para recuperar a visão.”

Marcelo Bonvento –
Marcelo Bonvento – — LinkedIn
Marcelo Bonvento – Foto: LinkedIn

Na avaliação do médico intensivista e coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO), complexo do Hospital das Clínicas da FMRP (HCFMRP-USP), Marcelo Bonvento, o desempenho histórico registrado em 2025 também é resultado da capacidade de resposta do sistema público brasileiro. “O sistema brasileiro de transplantes é extremamente ativo. Ele conta com profissionais e equipes que trabalham 24 horas por dia, garantindo assistência e apoio logístico para que os transplantes aconteçam.”

Segundo Bonvento, ainda durante a pandemia o Sistema Nacional de Transplantes optou por manter os programas em funcionamento, diferentemente do que ocorreu em diversos países. “A recomendação foi que os transplantes fossem minimizados, mas não interrompidos. Essa estratégia foi fundamental para que o sistema pudesse se recuperar rapidamente e alcançar os resultados que vemos hoje.”

Dificuldades

Apesar do recorde, especialistas alertam que o sistema ainda enfrenta obstáculos importantes. Entre eles estão a elevada recusa familiar à doação de órgãos e tecidos e as desigualdades na oferta de bancos de olhos entre as diferentes regiões brasileiras.

Mesmo com os avanços, a recusa familiar ainda representa o principal desafio para ampliar o número de transplantes no País. Segundo Bonvento, cerca de 45% das famílias recusam a doação de órgãos. “Essa ainda é a nossa maior limitação. Precisamos sensibilizar a população, discutir o tema e mostrar o impacto que um transplante pode ter na vida de quem está esperando.”

O especialista destaca que o Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo e reforça que conversar sobre doação ainda em vida é fundamental. “A chance de uma pessoa precisar de um transplante é cinco vezes maior do que a possibilidade de se tornar um doador. Por isso, é importante conversar com a família e deixar claro esse desejo. No momento da decisão é ela quem poderá autorizar a doação”, explica Bonvento.

Eduardo Melani Rocha –
Eduardo Melani Rocha – — FMRP-USP
Eduardo Melani Rocha – Foto: FMRP-USP

Segundo Rocha, grandes centros urbanos ainda não possuem estrutura suficiente para realizar a captação de córneas. Além disso, o curto intervalo entre o óbito e a retirada do tecido torna essencial que a decisão da família seja rápida. “Uma pessoa, seja criança, adulta ou idosa, independentemente da causa da morte, pode doar as córneas e recuperar a visão de pelo menos duas outras pessoas. Mas essa decisão precisa acontecer em menos de 12 horas.”

Para reduzir as filas de espera, Rocha defende investimentos em três frentes principais: ampliar o funcionamento dos bancos de olhos, melhorar a logística de transporte de córneas entre diferentes regiões e fortalecer as equipes responsáveis pela captação. “É importante capacitar e incentivar essas equipes para que haja menos rotatividade profissional e mais valorização dessa atividade.”

*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


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