Tomografia em fósseis revela besouros que viveram no Brasil há 113 milhões de anos​​

16/07/2026 às 11:000 visualizações
Imagens de fóssil de besouro com corpo e asas marrons sobre rocha em tom amarelado e da reconstrução do inseto por microtomografia computadorizada, em cinza
Imagens de fóssil de besouro com corpo e asas marrons sobre rocha em tom amarelado e da reconstrução do inseto por microtomografia computadorizada, em cinza
Jornal da USP

Tomografia em fósseis revela besouros que viveram no Brasil há 113 milhões de anos​

Estudo descreve uma nova família de besouros no Ceará e registra, pela primeira vez, um dos grupos mais antigos da evolução da espécie

Texto: Mila Massuda*

Arte: Heloisa Falaschi**

 Publicado: 16/07/2026 às 8:00
Vista dorsal de fóssil do besouro Cratocupes scabrosus após tratamento com álcool para realçar detalhes da superfície (à esquerda) e reconstrução tridimensional da região ventral obtida por microtomografia computadorizada (à direita) - Imagem: Divulgação INCol
Vista dorsal de fóssil do besouro Cratocupes scabrosus após tratamento com álcool para realçar detalhes da superfície (à esquerda) e reconstrução tridimensional da região ventral obtida por microtomografia computadorizada (à direita) - Imagem: Divulgação INCol
Vista dorsal de fóssil do besouro Cratocupes scabrosus após tratamento com álcool para realçar detalhes da superfície (à esquerda) e reconstrução tridimensional da região ventral obtida por microtomografia computadorizada (à direita) - Imagem: Divulgação INCol

Pesquisadores do Brasil e da Alemanha identificaram uma nova linhagem de besouros que viveu há cerca de 113 milhões de anos na região que hoje corresponde ao Nordeste brasileiro, a partir de fósseis encontrados na Formação Crato, no Ceará. Os fósseis analisados pertencem à coleção do Museu de Zoologia (MZ) da USP, incorporados recentemente ao acervo, e a técnica de microtomografia computadorizada permitiu reconstruir tridimensionalmente a linhagem, revelando detalhes de anatomia não visualizados por métodos tradicionais.

A descrição completa dos fósseis é feita em um artigo da revista científica Systematic Entomology. Logo nas primeiras análises do material, a equipe percebeu que aqueles espécimes mereciam um estudo mais detalhado. “A primeira coisa que chamou a atenção foi a qualidade da preservação, que possibilitou identificar imediatamente que esses fósseis se tratavam de besouros do grupo dos Archostemata. Fósseis desse grupo eram inéditos na América do Sul”, explica Gabriel Biffi, pesquisador do MZ, um dos autores do estudo.

Localizada na Bacia do Araripe, a Formação Crato é reconhecida internacionalmente pela qualidade de preservação de seus fósseis. Os depósitos calcários da região registram organismos que viveram durante o Cretáceo Inferior e frequentemente conservam detalhes anatômicos raramente encontrados em outros sítios fossilíferos. Por isso, a formação é considerada uma das mais importantes para compreender a biodiversidade que existia em Gondwana, o antigo supercontinente que reunia a América do Sul, a África, a Antártida, a Austrália e a Índia há mais de 100 milhões de anos.

Embora a superfície dorsal (superior) dos espécimes estivesse visível há anos, grande parte da anatomia permanecia preservada e escondida no interior da rocha. Como muitas das características diagnósticas utilizadas para identificar e comparar os besouros estão localizadas na região ventral (inferior) do corpo, os pesquisadores recorreram à microtomografia computadorizada para realizar uma espécie de “escavação digital” dos fósseis. Ainda pouco explorada no estudo de insetos fósseis preservados em rochas, como os encontrados na Formação Crato, essa abordagem permitiu reconstruir tridimensionalmente os espécimes e acessar estruturas anatômicas inacessíveis por métodos tradicionais, incluindo partes das pernas, do tórax e das peças bucais, características essenciais para compreender suas relações evolutivas.

As informações obtidas permitiram posicionar os espécimes entre os Archostemata, um grupo hoje raro, mas que foi muito mais diverso no passado. As análises indicam que essa linhagem teve origem há mais de 300 milhões de anos, entre o final do Carbonífero e o início do Permiano, muito antes do surgimento dos dinossauros. Atualmente, os Archostemata reúnem menos de 50 espécies vivas em todo o mundo. O estudo descreve três espécies de Archostemata e registra, pela primeira vez, representantes desse grupo na Formação Crato. Entre elas está a Cratocupes scabrosus, uma espécie tão distinta das demais que levou os pesquisadores a propor uma nova família extinta, denominada Cratocupedidae.

Nova família extinta

“No início, achávamos que esse fóssil representava um gênero novo de uma família chamada Cupedidae, que possui representantes vivos e fósseis. Começamos a mudar de ideia quando fizemos a microtomografia e vimos suas estruturas ventrais, que diferiam das dos Cupedidae. Além disso, as características não se encaixavam em nenhuma família já conhecida de Coleoptera. O estudo filogenético confirmou que se tratava de uma nova família”, explica Biffi. De acordo com os pesquisadores, o nome Cratocupes combina uma referência à Formação Crato com “Cupes”, um gênero próximo pertencente à família Cupedidae. Já o epíteto específico scabrosus deriva de uma palavra latina que significa “áspero”, em alusão às pequenas protuberâncias que recobrem a superfície do corpo do besouro e lhe conferem um aspecto rugoso.

Os resultados do estudo ajudam a preencher uma importante lacuna geográfica no registro fóssil desses insetos. Embora os Archostemata sejam conhecidos em diversos depósitos fossilíferos da Europa, Ásia e América do Norte, os registros para Gondwana são escassos. Os fósseis da Formação Crato mostram que essas linhagens também habitavam os ecossistemas tropicais do Cretáceo sul-americano.

Segundo Biffi, a descoberta demonstra que os Archostemata já estavam amplamente distribuídos pelo planeta antes da separação dos supercontinentes. “Esses são os primeiros registros de membros de Archostemata na parte ocidental de Gondwana, comprovando que o grupo já estava amplamente distribuído pelo mundo antes da separação dos supercontinentes. A descoberta deles ajuda a entender como era a biota na região do Crato há cerca de 113 milhões de anos.” A pesquisa também reforça a importância das coleções biológicas e paleontológicas para a produção de novos conhecimentos científicos. Os exemplares analisados, preservados há anos em acervos brasileiros, ganharam novas interpretações graças à aplicação de tecnologias capazes de acessar estruturas invisíveis externamente.

Reconstrução tridimensional de Cratocupes scabrosus obtida por microtomografia computadorizada, técnica que permitiu visualizar estruturas da região ventral do besouro que permaneciam ocultas no interior do fóssil - Imagem: Divulgação INCol
Reconstrução tridimensional de Cratocupes scabrosus obtida por microtomografia computadorizada, técnica que permitiu visualizar estruturas da região ventral do besouro que permaneciam ocultas no interior do fóssil - Imagem: Divulgação INCol
Reconstrução tridimensional de Cratocupes scabrosus obtida por microtomografia computadorizada, técnica que permitiu visualizar estruturas da região ventral do besouro que permaneciam ocultas no interior do fóssil - Imagem: Divulgação INCol

“Essas tecnologias não são necessariamente novas. O uso que fazemos delas é o que torna as pesquisas inovadoras”, destaca Biffi. O pesquisador ressalta ainda que esta foi a primeira vez que a abordagem foi aplicada a besouros da Formação Crato, o que mostrou um nível de detalhe raramente observado em fósseis de insetos. Com o crescente acesso a essas ferramentas no Brasil, ele acredita que será possível abrir uma nova fase no estudo de fósseis de insetos, permitindo observar e reconstruir em três dimensões estruturas que antes permaneciam inacessíveis.

O trabalho foi desenvolvido por Gabriel Biffi, pesquisador do MZ, do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e integrante do INCol, o Instituto Nacional de Coleoptera. A pesquisa contou ainda com a colaboração de Anderson Lepeco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e de Rolf Beutel, da Friedrich-Schiller-Universität Jena e do Senckenberg Forschungsinstitut und Naturmuseum, na Alemanha.

*Bolsista de Apoio à Difusão do Conhecimento do CNPq junto ao INCol. Adaptado para o Jornal da USP

**Estagiária sob orientação de Simone Gomes


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