Por Leonardo Ângelo da Silva*
Meu ponto de partida é um incômodo que, como sudestino, tenho também visto em terras paraibanas. A partir dele, surge a reflexão: modernidade e industrialização não chegam neutras. Elas carregam cor, apagam memórias e reforçam a velha narrativa da “democracia racial”. O resultado? Um freio nas políticas de reparação, que seguem emperradas enquanto há no senso comum uma insistência em pintar o país como racialmente igualitário.
Estou há mais de sete meses em João Pessoa, sou mineiro de nascimento e criado no interior do Rio de Janeiro. Na Paraíba, muitos pensam que sou carioca, mas reafirmo minha cultura mineira e sotaque fluminense. Aqui, o que mais me chama atenção é a diversidade nas ruas, praias e nas manifestações culturais, com afro-indígenas, indígenas (Potiguara e Tabajara) e galegos presentes (menos nos espaços elitizados). O fenótipo afro-indígena, incomum na minha região de origem, gerou estranhamento e levou a mudanças no plano de curso de minha disciplina na pós-graduação (UFPB), o que foi solucionado com a inclusão da questão indígena na ditadura empresarial-militar. Nos encontros da disciplina e com pesquisadoras convidadas, conheci a história da Fábrica de Rio Tinto, inevitavelmente vi um paralelo com a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
A Fábrica de Tecidos Rio Tinto começou a operar em 1924, enquanto a CSN foi inaugurada em 1946, 22 anos depois. Em ambos os casos, a mão de obra de construção e operação era majoritariamente regional (majoritariamente mineiros, no caso da CSN), embora alguns dos implementadores e administradores de alto escalão fossem estrangeiros. Além disso, ambas figuravam como as maiores empresas de seus segmentos à época e simbolizavam o progresso e o avanço tanto para a localidade quanto para o país.
A Fábrica de Rio Tinto contou com uma vila operária inspirada em padrões europeus, enquanto a vila operária de Volta Redonda (RJ), sede da CSN, se inspirava em modelos de bairros americanos. Nos dois casos, cinema e clubes associativos foram criados para o lazer dos trabalhadores, associados ao trabalho disciplinado que pregava, ora a refundação da civilização brasileira, ora a formação (correta?) da classe trabalhadora.
De maneira geral, o discurso oficial das fábricas trazia um ideal de integração, pensado no âmbito da localidade, mas que se pretendia refletir no nacional. Era um pacto pelo progresso que fazia questão de esquecer ou negligenciar o passado escravista, negro e indígena. Esse discurso reforçava a ideia de integração do povo: com a migração dos trabalhadores rurais para as vilas operárias, o ideal de desenvolvimento tornava-se motor do mito da democracia racial, que em tese igualava a todos pelo trabalho e, por meio dele, à cidadania. A democracia racial surgiu como ideia nos anos 1930 e se consolidou como conceito nas décadas seguintes, chegando a ser utilizada por intelectuais e defendida como verdade durante a ditadura (1964–1985).
No entanto, foi nesse mesmo período que intelectuais negros, como Abdias do Nascimento, denunciavam essa narrativa como mito, já que os dados estatísticos no Brasil sempre revelaram grandes disparidades entre brancos e não brancos. Os primeiros, em sua maioria, estavam fora das piores condições de moradia, trabalho, violência e outras dimensões sociais.

Pesquisas recentes confirmam o que Abdias já denunciava. A Fábrica de Rio Tinto, construída em terras indígenas, foi vista na época como símbolo de disciplina e progresso, mas hoje aparece nas pesquisas como espaço de tortura, negação de direitos e expropriação de territórios indígenas. Na CSN, a situação não era muito diferente: a divisão racial do trabalho empurrava os trabalhadores negros para os piores postos, sem possibilidade de ascensão.
Em 1987, o Ministério do Trabalho reconheceu uma doença ocupacional que atingia principalmente negros, a leucopenia, capaz de causar aplasia da medula e levar à morte. Os negros não eram os mais atingidos por fatores genéticos, mas sim pela divisão racial do trabalho. Se a fábrica funcionava desde 1946 e apenas em 1987 houve esse reconhecimento, quantos trabalhadores morreram sem indenização e em nome do progresso? Essa foi justamente a denúncia feita pelo jornal Maioria Falante em sua capa de 1991.

As pesquisas nos mostram que racismo e discriminação racial não são crias da escravidão brasileira apenas, foram recriados e transformados ao longo de nossa história. Mesmo a classe trabalhadora que se via incluída na cidadania via trabalho, teve de lidar com o racismo e a discriminação étnico-racial na estrutura de fábricas e instituições, o que evidencia o mito da democracia racial brasileira. Coisa que a missão da Unesco (em 1950) já havia notado, mas isso é papo para outro dia.
O que gostaria de reforçar aqui é o papel dos cientistas sociais, em especial as historiadoras e historiadores (pois sou um deles), nas pesquisas que evidenciam essas disparidades de tratamento, ou seja, que evidenciam o racismo à brasileira, pois reparações e políticas públicas são feitas com base nessas pesquisas. Posso citar dois exemplos: 1) o Supremo Tribunal Federal (STF), quando fez o reconhecimento de terras e direitos constitucionais para quilombolas (anos 2000), citou as pesquisas de Hebe Mattos (Universidade Federal de Juiz de Fora), João José Reis (Universidade Federal da Bahia) e Flávio Gomes (Universidade Federal do Rio de Janeiro); 2) a leucopenia, citada acima, foi doença estudada por pesquisa demandada pelo Ministério Público (sobre empresas que colaboraram com a ditadura) ao Centro de Antropologia e Arquivologia Forense da Universidade de São Paulo (CAAF-Unifesp) e que em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), realizou a pesquisa com base em indícios levantados por outros historiadores na CSN, pude fazer parte disso. Hoje, o Ministério Público do Trabalho estuda formas de reparação dos atingidos!
O mito da democracia racial é um problema real quando se trata das políticas públicas de reparação histórica aos povos e minorias atingidos por nosso racismo estrutural, pois ainda embala o senso comum e é utilizado por grupos políticos, principalmente de extrema direita. Sendo assim, diante das evidências históricas e das pesquisas que desconstroem esse mito, é urgente combinar memória e história como parte da ação de reparação. O STF ao citar historiadores como Hebe Mattos, João José Reis e Flávio Gomes mostra que o conhecimento produzido nas universidades não é apenas registro do passado, mas ferramenta de luta no presente. Cabe a nós, cientistas sociais em formação e já formados (como a antropóloga Maria Carolina Araujo Santos da Silva), assumirmos o compromisso de agregar forças na luta pela reparação — seja na defesa de cotas raciais e sociais, na titulação de terras quilombolas e indígenas, na busca por indenizações trabalhistas para vítimas de doenças ocupacionais, ou na formulação de políticas públicas que enfrentem desigualdades históricas.
Caso contrário, como disse Ana Gabriela Lacombe Torquato Carvalho (minha ex-aluna da pós) sobre interseccionalidade, vamos continuar apenas revelando quais grupos tiveram menos segurança estrutural na vida, ou seja, vamos ficar analisando a “olimpíada da opressão”. Podemos transformar as histórias de opressão e resistência em reparação, pois a história, quando mobilizada, é capaz de abrir caminhos para justiça e é nossa responsabilidade garantir que ela cumpra esse papel!
Por memória, verdade, justiça e REPARAÇÃO!
Para saber mais
BEDÊ, W. A. Volta Redonda na Era Vargas (1941–1964). Volta Redonda: SMC/ PMVR, 2004.
DA SILVA, Leonardo Ângelo da. Uma Cidade em Preto e Branco: Relações Raciais, Trabalho e Desenvolvimentismo em Volta Redonda (1946–1988). Curitiba: Appris, 2022. v. p. 223-253
PALITOT, Estêvão Martins. Os Potiguara de Monte-Mór e a cidade de Rio Tinto: a mobilização indígena como reescrita da história. Alfa: Revista de Linguística, São José do Rio Preto, v. 62, n. 3, p. 191-215, 2018.
SILVA, Maria Carolina Araujo Santos da. A correnteza das memórias: a construção da memória pós Companhia de Tecidos Rio Tinto. 2024. 79 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Antropologia) — Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Aplicadas e Educação, Rio Tinto, 2024. Orientação: Ruth Henrique da Silva.
*Leonardo Ângelo da Silva é doutor (2019) e mestre (2010) em História Social pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Atualmente é pós-doutorando em História na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) com financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq). Tem como mote de suas pesquisas temas como relações raciais, processos de industrialização e urbanização, formação político-partidária, classe trabalhadora e suas dinâmicas, além de direitos humanos e memória da ditadura militar brasileira. Integra redes e grupos de pesquisa como a Rede de HistoriadorXs NegrXs, GEMTRAPA/UFRRJ, GEDESF/UFF, GEPEHTO/UFPB e a equipe de projetos do Clube Palmares (Volta Redonda/RJ).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
