Tratado de amizade: 25 anos após assinatura, Rússia e China estão mais próximas do que nunca

16/07/2026 às 19:150 visualizações
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
Em 16 de julho de 2001, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em seu primeiro mandato, recebia o então líder da China, Jiang Zemin, em Moscou para a assinatura do Tratado de Amizade Sino-Russo. Um quarto de século depois, o acordo apenas se fortaleceu.
Para além do bilateralismo, Moscou e Pequim participam de grupos multilaterais, como o BRICS e a Organização para Cooperação de Xangai (OCX), dos quais são pilares que dão robustez às discussões dos fóruns diante da comunidade internacional.
Se hoje é normal ver os líderes de Moscou e Pequim conversando e alinhando o melhor caminho para suas respectivas nações por meio de parcerias, por muito tempo pareceu um cenário improvável. Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Diego Pautasso, doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que a relação sino-russa passou por um grande distanciamento no final do século XX.
Autor dos livros "A China e a Nova Roda da Seda" e "Quem tem medo da China?", Pautasso destaca que China e a então União Soviética alimentaram uma grande rivalidade durante 1960, incluindo um conflito fronteiriço em 1969, na região da Manchúria.

"Cerca de 80% do exército soviético estava na fronteira com a China, e não na assim chamada Cortina de Ferro [na Alemanha Oriental]."

Quase três décadas depois, ao longo dos anos 1990, Rússia e China enfrentavam momentos economicamente difíceis. Moscou lidava com a dissolução da União Soviética, enquanto Pequim tentava contornar um forte cerco dos Estados Unidos, tanto nas questões relacionadas a Taiwan quanto nos empecilhos para ingressar em grupos como a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Foi durante a chancelaria de Yevgeny Primakov (1996–1998), baseada na multipolaridade, que Moscou e Pequim voltaram a ter contato. Foi essa abertura de caminho no fim da década de 1990 que levou à assinatura do Tratado de Amizade Sino-Russo em 2001.

"Pode-se dizer que o tratado de amizade de 2001, que agora completa 25 anos, representa, sem sombra de dúvidas, um marco da aproximação e, claro, […] inequivocamente, pode ser considerado uma linha de corte no sentido do aprofundamento das relações entre Moscou e Pequim e que se desdobram em várias frentes", explicou Pautasso.

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União sino-russa sempre foi uma preocupação ocidental

Pautasso conta que há uma preocupação do Ocidente com a formação de "uma grande massa eurasiana" que ficasse distante politicamente dos principais países do Norte Global, como Estados Unidos e Reino Unido. A expansão da União Soviética na segunda metade do século XX, por exemplo, foi a principal pauta dessas potências, culminando na Guerra Fria e na criação de grupos como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

"Quando há a ruptura sino-soviética no início dos anos 1960 e depois a aproximação dos EUA com a China nos anos 1970, é justamente uma tentativa de evitar que [a grande massa eurasiana] se conforme. Ou seja, a tentativa era atrair a China para a esfera ocidental, a tentativa era restaurar um regime capitalista alinhado aos interesses ocidentais e, sobretudo, ao de Washington."

Essa estratégia anglo-saxã, no entanto, se perdeu neste milênio, com a Casa Branca cada vez empurrando mais Moscou e Pequim um em direção ao outro.
O especialista explica que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética e, posteriormente, a Rússia, tornaram-se dependentes da venda de energia (gás e outros hidrocarbonetos) para a Europa, assim como o continente precisava desse fornecimento, estabelecendo uma interdependência.
Após o início da operação militar especial russa na Ucrânia, uma abrupta ruptura se criou entre Moscou e, sobretudo, União Europeia, capitaneada pelos Estados Unidos de Joe Biden. O gás que antes ia para a Europa passou a abastecer a China, enquanto o Velho Continente precisou lidar com o aumento da inflação com a disparada da energia no país.

"Quanto mais os Estados Unidos se esforçam para isolar Moscou, mais Pequim funcionava justamente como válvula de escape e como um parceiro capaz de criar mecanismos alternativos a Washington, seja ele do ponto de vista comercial, de investimento, de compensação monetária e assim por diante."

Um dos principais efeitos da parceria sino-russa para o mercado internacional tem sido a desdolarização das trocas comerciais. Para o especialista, o dólar já cumpriu um papel fundamental no mercado global. No entanto, ao ser usado como arma pelos Estados Unidos, perde valor.
Nesse sentido, Pequim e Moscou mostraram ser possível substituir a moeda americana, abriu-se um novo caminho de possibilidades para a economia mundial.

"Desenvolvem-se outros instrumentos financeiros que vão no sentido de facilitar o comércio. Ou seja, o desenvolvimento de uma espécie de Pix do BRICS, que gera uma digitalização das transações, com uma série de mecanismos de segurança e articulação entre os bancos centrais."

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