Após o anúncio de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, na quarta-feira (15), pré-candidatos à Presidência da República, e autoridades políticas e industriais reagiram à medida e à
condução da crise pelo governo brasileiro.As críticas variaram entre criticar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ou colocar a culpa nas duas figuras.
Pré-candidatos à Presidência
O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) alertou sobre os impactos das tarifas na indústria, no agronegócio e nos serviços digitais. Em suas redes sociais, ele culpou a polarização na política brasileira e disse que a sobretaxa pode provocar fechamento de empresas, aumento do desemprego e endividamento de produtores.
"O que está em jogo […] é que setores inteiros podem quebrar. Não é conversa fiada. É a conta mesmo que não fecha, com 25% a mais de tarifa, que pode chegar a 37,5% somada a outras sobretaxas em análise. Indústria, agro e serviços digitais brasileiros perdem competitividade da noite para o dia. Fábrica fechada é gente na rua. Produtor endividado é cidade inteira sufocada."
Caiado também responsabilizou tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro — a quem se referiu como "o outro candidato" — pela
escalada da crise."O mais triste é que Lula não tem capacidade para dialogar e o outro candidato está preocupado com a eleição, não com o Brasil. A polarização está saindo muito cara para as famílias e para o país", prosseguiu.
Em nota à imprensa, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) condenou o tarifaço, classificando-o de medida protecionista que prejudica os interesses brasileiros e desrespeita a relação entre os países. "Vejo com preocupação os efeitos sobre a indústria brasileira, que perde competitividade no mercado americano, um dos mais importantes para os produtores nacionais."
Apesar de rechaçar a decisão de Washington, Zema também responsabilizou o governo Lula pela condução das negociações: "O governo brasileiro errou […], criando atritos desnecessários e adotando um discurso eleitoreiro. Se tivesse agido de maneira técnica e responsável, poderia ter evitado uma retaliação, que, de qualquer forma, não se justifica".
Já Renan Santos (Missão) criticou tanto o governo Lula quanto a família Bolsonaro, afirmando que ambos colocaram interesses eleitorais acima dos interesses nacionais. Em vídeo divulgado junto a nota, afirmou que o governo desperdiçou a oportunidade de utilizar as reservas brasileiras de terras raras como instrumento de negociação com os Estados Unidos.
"No fundo, ele quer que o Brasil seja taxado para posar de quem enfrenta os americanos e tentar recuperar popularidade", declarou, também acusando a família Bolsonaro de adotar uma postura de submissão ao presidente norte-americano, Donald Trump.
"Do outro lado, nós temos o Flávio Bolsonaro e a família Bolsonaro como um todo, que são uns puxa-sacos do Donald Trump. O Flávio foi aos Estados Unidos dizendo que o Trump gostava desse tipo de gesto. Eu vi o resultado desse aceno: o Trump transformou essa palhaçada em tarifa."
Como alternativa, Renan defendeu uma negociação direta com Washington, baseada em interesses econômicos e geopolíticos, com destaque para o potencial dos minerais: "Vou negociar seriamente com os Estados Unidos, colocar a questão das terras raras na mesa e buscar acordos vantajosos para o Brasil".
No Congresso Nacional, Paulo Pimenta (PT-RS), líder do governo Lula na Câmara dos Deputados, ressaltou que os esforços de Flávio e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro foram os responsáveis pela taxação. Em nota à imprensa, Pimenta avaliou o tarifaço como um "ataque à soberania nacional" e comentou que a crise comercial serve para tirar o foco das investigações do Banco Master e das ligações da família Bolsonaro com o empresário Daniel Vorcaro.
"Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro se aliaram aos Estados Unidos com dois objetivos muito claros: prejudicar o Brasil e tentar colocar o nosso país de joelhos diante dos interesses americanos", resumiu. "Querem interferir na nossa soberania, questionando políticas nacionais, atacando o Pix, pressionando sobre temas como etanol, transição energética e até sobre as relações comerciais que o Brasil mantém com outros países."
"Há um esforço evidente para mudar a pauta. As denúncias envolvendo Daniel Vorcaro, as revelações sobre o esquema conhecido como 'BolsoMaster', as ligações políticas e financeiras e os conflitos internos na direita estão desgastando" a pré-candidatura de Flávio.
O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), pontuou que "nós não estamos em conflito com os Estados Unidos. É o governo do Trump que tem problema conosco". Ele avaliou que as tarifas representam uma "agressão completamente fortuita e gratuita" e afetam principalmente a economia paulista, estado que mais exporta para o país norte-americano.
Durante visita a cidades no interior de São Paulo, Haddad mencionou a alta desaprovação do republicano no próprio país e falou que a decisão não se justifica comercialmente, já que os Estados Unidos mantêm superávit na balança comercial há 15 anos.
"O Brasil precisa estar unido para dar uma resposta a essa agressão."
Também pelas redes sociais,
o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que o secretário de Estado dos
EUA,
Marco Rubio, confirmou a responsabilidade do governo Lula pela medida. "Lula tenta transformar as tarifas impostas pelos Estados Unidos em uma arma eleitoral, mas a estratégia não deu certo."
A posição foi a mesma do líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), que divulgou uma nota dizendo que o governo Lula "colhe o que plantou". "Enquanto transformava a política externa em instrumento de militância ideológica, ignorava as negociações com os Estados Unidos. O resultado veio em forma de tarifas", escreveu. Marinho, que também coordena a campanha de Flávio Bolsonaro, terminou com apoio ao senador.
Em nota, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) manifestou repúdio ao novo tarifaço, reforçando que a decisão compromete a indústria brasileira e a soberania energética do país.
"A medida […] fere acordos comerciais, desestabiliza cadeias produtivas e ameaça milhares de empregos, especialmente na indústria e no setor de energia", afirmou a coordenadora-geral da FUP, Cibele Vieira.
“Apoiamos postura firme do governo brasileiro, e a reafirmação da soberania de cada país. A defesa da indústria nacional, dos empregos de qualidade, da agregação de valor às riquezas produzidas no país e da diversificação das relações comerciais deve orientar a resposta brasileira a medidas dessa natureza."
Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), manteve um tom crítico ao
governo brasileiro, afirmando que o Brasil deveria ter se esforçado mais nos contatos diplomáticos com o governo Trump.
"Em vez de nós termos um bom relacionamento com os Estados Unidos, buscando oportunidades para gerar mais empregos e desenvolver as empresas brasileiras, a gente faz questão de ficar com picuinhas políticas que atrapalham as relações comerciais."
"Acho que precisamos acertar é o tom político, para que haja boa vontade entre as partes para chegarmos a um bom termo, seja nessa negociação, seja em outras futuras."
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