Xi Jinping pede que IA não crie ‘nova injustiça histórica’ e anuncia iniciativas para o Sul Global

Por Mauro Ramos17/07/2026 às 12:180 visualizações
Presidente chinês Xi Jinping discursa na cerimônia de abertura da Conferência Mundial de IA de 2026 e da Reunião de Alto Nível sobre Governança Global de IA em Xangai. 17 de julho de 2026.
Presidente chinês Xi Jinping discursa na cerimônia de abertura da Conferência Mundial de IA de 2026 e da Reunião de Alto Nível sobre Governança Global de IA em Xangai. 17 de julho de 2026.
Brasil de Fato

O presidente chinês, Xi Jinping, defendeu nesta sexta-feira (17) uma “ampla cooperação internacional” para que os países do Sul Global fortaleçam suas capacidades em inteligência artificial, para “fechar a brecha digital e a de IA”, promover o desenvolvimento sustentável e “evitar causar nova injustiça histórica”. O discurso abriu a Conferência Mundial de Inteligência Artificial deste ano, e a Reunião de Alto Nível sobre Governança Global da IA, em Xangai.

A conferência, realizada anualmente desde 2018, reuniu neste ano o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev; os primeiros-ministros do Camboja, Hun Manet, e da Tailândia, Anutin Charnvirakul; e o secretário-geral da ONU, António Guterres. A abertura também marcou a assinatura do acordo de criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, proposta pela China na edição do ano passado.

Capacitação, centros regionais e alertas de desastres

Xi anunciou que, “para apoiar ainda mais o desenvolvimento global da IA e promover a capacitação global em IA”, nos próximos cinco anos, a China vai oferecer 5 mil vagas em programas de formação e seminários sobre IA a países em desenvolvimento. Ele também anunciou que o país vai construir centros internacionais de cooperação em aplicações de IA com a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático), a Liga Árabe, a União Africana, a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), a OCX (Organização de Cooperação de Xangai) e o Brics.

A terceira medida é a extensão a 30 países do MAZU, sistema de alertas antecipados de desastres baseado em inteligência artificial. A sigla em inglês significa Alerta Universal para Múltiplos Riscos sem Lacunas, mas o nome, em mandarim, é também o da deusa dos mares que protege pescadores e marinheiros. Versões da ferramenta foram doadas ao Djibuti e à Mongólia durante a conferência do ano passado.

“A China acredita que todos os países devem adotar uma abordagem centrada no povo e desenvolver a IA para o positivo e para o bem. Devemos assegurar que a IA seja um motor importante da prosperidade compartilhada e da segurança comum. Devemos unir esforços para construir um sistema justo e equitativo para a governança global da IA”, disse Xi sobre a abordagem chinesa sobre a IA.

Desafios diante do aumento da desigualdade

O presidente chinês disse que é preciso “unir forças para construir um sistema justo e razoável de governança global da IA”, e questionou “Como podemos tornar realidade uma IA para todos quando a desigualdade continua aumentando?”.

Em função disso, Xi apresentou quatro observações. A primeira é o aproveitamento de “oportunidades históricas raramente vistas para incentivar o código aberto, a abertura, a colaboração e o compartilhamento”.

Em segundo lugar, o mandatário chinês defendeu a necessidade de “fortalecer nossa consciência sobre os riscos e garantir que a IA seja segura e controlável”. A IA deve ser “uma ferramenta confiável para a humanidade”, com leis, monitoramento tecnológico e sistemas de alerta e resposta que a mantenham “sempre sob controle humano”. No mesmo ponto, Xi condenou a generalização do conceito de segurança nacional no campo da IA e à sobreposição da “segurança de um país à dos demais”.

Essa é uma crítica que a China faz de forma frequente aos Estados Unidos. Em outubro do ano passado, em meio à guerra comercial entre os dois países, o Ministério do Comércio da China afirmou em comunicado que, “por um longo tempo, os Estados Unidos têm estendido excessivamente o conceito de segurança nacional, abusando do controle de exportação, tomando ações discriminatórias contra a China e impondo medidas de jurisdição extraterritorial unilateral em vários produtos, incluindo equipamentos e chips de semicondutores”.

A terceira observação defende que o desenvolvimento da IA não corroa a diversidade das civilizações e que os valores da tecnologia sejam moldados “com os valores comuns da humanidade”. A quarta pede a prática do “verdadeiro multilateralismo”, com reconhecimento do papel da ONU e a construção, o quanto antes, de um quadro de governança global baseado em consenso.

Xi lembrou que 2026 marca o início do 15º Plano Quinquenal e afirmou que as indústrias centrais da economia inteligente do país já valem ao menos 1 trilhão de yuans (cerca de R$ 780 bilhões).

A Conferência de IA na China

Na edição de 2025 da conferência, o primeiro-ministro Li Qiang propôs a criação da organização mundial de cooperação fundada nesta sexta-feira (17). No mesmo discurso, o premiê defendeu a superação de “gargalos” como “a falta de chips de computação de ponta” e as restrições à troca entre empresas e talentos, em referência às mesmas barreiras criticadas agora por Xi.

Li Qiang também criticou o individualismo tecnológico ao defender a construção coletiva do conhecimento sobre IA. “As inovações individuais são como faíscas dispersas, que podem facilmente se apagar, enquanto a sabedoria coletiva pode inflamar umas às outras e incendiar a pradaria”, disse o premiê, em alusão ao provérbio chinês reinterpretado por Mao Zedong em 1930 na carta “Uma faísca pode incendiar toda a pradaria”.

Fonte
Brasil de Fato
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