É (n)o pagode. Lelelelele! Mas o que a USP tem a ver com isso?

17/07/2026 às 18:360 visualizações
Karina de Sousa Trindade - Foto: Arquivo pessoal
Karina de Sousa Trindade - Foto: Arquivo pessoal
Jornal da USP

Por Karina de Sousa Trindade, mestranda na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

 Publicado: 17/07/2026 às 15:36
Karina de Sousa Trindade –
Karina de Sousa Trindade – — Arquivo pessoal
Karina de Sousa Trindade – Foto: Arquivo pessoal

 

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Todas as pagodeiras e pagodeiros que cresceram nos anos 1990 reconhecem de cara (e de longe) o trecho “É no pagode. Lelelelele”. A frase, refrão da música homônima do grupo Art Popular, lançada no início dos anos 2000, se tornou um dos bordões mais conhecidos dessa vertente do samba. Mas o que pouca gente sabe é que, para que o pagode romântico chegasse a tanta gente Brasil afora, e atravessasse a década de 1990, alcançando o século 21, foi preciso que uma instituição pública assumisse uma responsabilidade que o mercado radiofônico privado não quis assumir: dar espaço ao samba.

Sim, a Universidade de São Paulo.

Parte decisiva da trajetória do pagode romântico passa pela Rádio USP e pelo trabalho persistente de Moisés da Rocha, um entusiasta da cultura popular que abriu espaço para o samba muito antes de ele se tornar um produto lucrativo para a indústria cultural. Moisés da Rocha chegou à Rádio USP em 1978 para ocupar a vaga de programador da emissora. Pouco tempo depois, sua voz grave e marcante o levaria a assumir a apresentação de O Samba Pede Passagem, programa dedicado exclusivamente ao samba na programação da rádio universitária. Hoje isso pode parecer uma informação banal, mas naquele momento da história o samba enfrentava forte preconceito dentro e fora dos meios de comunicação. Nas rádios FMs, que consolidavam um novo perfil musical, o gênero era raramente tocado. A televisão também oferecia pouco espaço para ele. A Rádio USP foi a primeira emissora FM do Brasil a ter um programa dedicado exclusivamente ao samba, tornando-se um importante espaço de valorização e difusão do gênero.

Durante a década de 1980, na gestão do então diretor da Rádio USP, o professor Luiz Fernando Santoro, do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA), o programa passou por mudanças que aumentaram seu alcance. O tempo de duração foi ampliado e novas experiências passaram a integrar a programação, incluindo apresentações ao vivo com plateia no Anfiteatro Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária. Esses encontros reuniam músicos, compositores e ouvintes, transformando o espaço universitário em um ponto de encontro entre a academia e a cultura popular. Nem sempre, porém, essa iniciativa foi recebida sem resistência. O programa enfrentou duras críticas e falta de apoio de diversos setores da USP, que consideravam um erro dedicar espaço ao samba em uma rádio vinculada a uma universidade de renome. Apesar dessas tensões, O Samba Pede Passagem permaneceu (e ainda permanece) no ar e se consolidou como um dos programas mais emblemáticos da emissora, chegando inclusive a receber importantes premiações, como distinções da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Mas o impacto do programa não se restringiu ao ambiente universitário. Ele também desempenhou um papel fundamental na circulação de novas sonoridades do samba naquele momento. Foi justamente por meio do trabalho de Moisés da Rocha que muitos ouvintes tiveram contato com as gravações de um grupo carioca que começava a transformar o gênero e se tornaria um divisor de águas para a história contemporânea do samba: o Fundo de Quintal. Moisés da Rocha costumava frequentar um bar no bairro do Bexiga chamado Itapuã. Foi em uma dessas noites que um amigo, Nelson Mecha Branca, comentou sobre um disco recém-chegado ao mercado pela gravadora RGE que estava despertando curiosidade, além de desconfiança, entre os profissionais da música. O álbum, vindo da filial carioca da gravadora, apresentava uma sonoridade considerada diferente do samba tradicional, com instrumentos pouco usuais para o gênero. Intrigado, Moisés pediu que o amigo levasse o disco até ele.

Tratava-se do LP Samba é no Fundo de Quintal – Vol. 1, lançado em 1980. Sem sequer ouvir o álbum antes, o radialista decidiu levá-lo diretamente para o estúdio da Rádio USP. Ao colocar a primeira faixa no ar, percebeu que havia algo especial ali. Uma música levou à outra e, ao final da sequência, decidiu que o disco passaria a fazer parte da programação regular da atração. É a partir da mediação de Moisés da Rocha em O Samba Pede Passagem, que o Fundo de Quintal começou a ganhar visibilidade não só entre os ouvintes da rádio, mas também nacionalmente, ampliando a circulação de uma nova estética musical que logo transformaria o samba.

Nascido debaixo da tamarineira no bloco Cacique de Ramos, no subúrbio do Rio de Janeiro, o Fundo de Quintal consolidou um novo formato de roda de samba, com instrumentos como o tantã, o repique de mão e o banjo (adaptado ao braço do cavaquinho, além de ter 4 cordas e afinação em “ré-sol-si-ré”) passaram a compor uma outra sonoridade, criando aquilo que Nei Lopes, em seu livro Sambeabá, define como “um novo jeito de fazer samba”.

Essa sonoridade começou a ecoar entre jovens das periferias paulistanas. Muitos adolescentes que não se interessavam em tocar samba, por entender o gênero como uma tradição vinculada aos seus mais velhos, sem a cara da juventude, passaram a se interessar pelo ritmo no momento em que ouviram as músicas do Fundo de Quintal na Rádio USP. Para essa juventude negra e periférica que crescia nos anos 1980, o programa de Moisés da Rocha tornou-se uma referência fundamental. Em articulação com a cultura dos bairros onde essa moçada vivia, atrelado às tradições musicais presentes em suas famílias, O Samba Pede Passagem funcionou como uma verdadeira biblioteca. Foi ali que esses jovens ouviram os grandes mestres do samba, aprenderam repertórios e descobriram a nova forma de tocar o samba.

Ou seja, Moisés da Rocha e o programa O Samba Pede Passagem atuaram como uma escola para os “meninos” que, anos depois, já na década seguinte, formariam grupos que se tornaram grandes expoentes do chamado pagode romântico, como Exaltasamba, Katinguelê, Soweto e Negritude Jr. E, de forma talvez inesperada, uma rádio universitária pública teve papel importante nesse processo. Ao abrir espaço para o samba em um momento em que o mercado radiofônico o desprezava, a Rádio USP, na figura importantíssima de Moisés da Rocha, ajudou a manter viva e em circulação uma tradição musical profundamente ligada à história da população negra no Brasil.

Essa história também ajuda a lembrar algo fundamental: a importância das universidades públicas para além da produção de conhecimento acadêmico, mas também para preservar, valorizar e difundir expressões culturais que muitas vezes não encontram espaço nas lógicas de mercado. Em contextos marcados por disputas simbólicas e por pressões do mercado cultural, instituições públicas desempenham um papel decisivo ao garantir visibilidade a manifestações artísticas populares e marginalizadas.

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