Exposição questiona o significado
de “lar” a partir da migração
Em cartaz no Centro MariAntonia da USP, mostra reúne dez artistas de sete nacionalidades para refletir sobre a condição humana em situação de deslocamentos forçados e em busca de um lugar

Cartaz da exposição realizada no Centro MariAntonia da USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Pessoas em situação de migração costumam ser contabilizadas na imprensa como números sem identidade. Afastar-se dessa perspectiva numérica é um dos objetivos da exposição Casa-Território//Território-Casa, realizada pela Rede ArteRefúgio – projeto da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) -, que está em cartaz até 27 de setembro no Centro MariAntonia da USP. A entrada é grátis.
A exposição reúne obras de dez artistas de sete nacionalidades, que através delas refletem sobre as migrações forçadas, o ato de habitar e pertencer, as noções de “casa” e “lar”, a identidade pessoal e a memória coletiva. “Tentamos, numa contracorrente, abrir espaço para as pessoas se expressarem a partir da arte, mas também serem as próprias narradoras de suas histórias e interpretarem as suas próprias trajetórias”, diz a professora Ana Carolina Maciel, da Unicamp, integrante da Rede ArteRefúgio.
Coordenada pelo mestrando em Multimeios João Felipe Ferreira, da Unicamp, a curadoria foi um processo coletivo entre alunos daquela universidade e um comitê de pesquisadores externos, que se estendeu por um período de dois anos e culminou na exposição agora em cartaz no Centro MariAntonia.
O título Casa-Território//Território-Casa indica como essas duas dimensões do ato de habitar estão intimamente conectadas, como uma via de mão dupla. ”Você não consegue pensar a casa sem pensar o território e não consegue pensar o território sem pensar a casa”, justifica João Ferreira. A relação entre a dimensão pessoal da moradia e da construção de um lar, por um lado, e os processos políticos e geográficos que definem a circulação das pessoas e a fixação num território, por outro lado, é mútua, continua o mestrando, lembrando que as vivências pessoais e subjetivas dos sujeitos que vivem num determinado espaço são atravessadas por condições objetivas — como guerras e desastres naturais.
Morte na fronteiraUma das artistas presentes na exposição, Diana Akokán, natural de Cali, na Colômbia, se tornou imigrante aos 8 anos e morou em bairros periféricos de diferentes cidades dos Estados Unidos. Desde 2006, vive no Rio de Janeiro. Na mostra, sua obra é representada por trabalhos da série Fayum na Fronteira, compostos de máscaras mortuárias inspiradas em pessoas que faleceram na tentativa de cruzar a fronteira entre o México e os Estados Unidos. “Essa obra traduz como a busca pela fixação de um novo lar, pela construção de uma nova casa, às vezes é impedida por causa desses processos geopolíticos que impedem a mobilidade das pessoas, impedem que as pessoas consigam construir uma vida digna”, diz João Ferreira. As peças expostas homenageiam Júlio López López e Sirley Miranda. López, mexicano, morreu em 2022, aos 32 anos, asfixiado dentro de um caminhão com outros 52 imigrantes, em San Antonio, no Texas. Já Miranda, nascida em Minas Gerais, morreu aos 47 anos, após passar mal e sofrer uma parada cardíaca em Ciudad Juarez, no México, aguardando o momento da travessia.


Outros trabalhos na mostra que representam essa busca por um lar são de Zé Angel, artista visual cubano, radicado no Rio de Janeiro desde 2022. “As duas pinturas dele são feitas sobre mantas térmicas, aquelas que são distribuídas para migrantes em situações de ajuda humanitária”, informa Ferreira. O suporte, nesse caso, tem valor simbólico e ressignifica a manta térmica. A partir da experiência caribenha, Zé Angel explora metáforas visuais para experiências migratórias, como os fenômenos naturais extremos. Em suas obras, Angel utiliza a imagem da Nossa Senhora da Caridade, padroeira de Cuba, como símbolo dos “breves momentos de esperança” que aparecem nos movimentos migratórios.

A arte de Camila Canela, artista indígena da etnia Apanjêkra, tem um quê de realismo fantástico, ao mesmo tempo em que revela violências coloniais. Suas telas “reconstituem o sonhar como gesto político e potencialmente transformador”, como se lê no texto preparado pela curadoria e colocado ao lado das obras. Na mostra estão três de suas peças, Entre Tempos e Tempos, Tempo de Colher (2026), Pessoas Constroem Muros, Mas Eu Sou Kahhykwyú, Eu Sou Yunré (2026) e Mapas Ancestrais (2026). Sua marca é expressa na escolha de cores vibrantes — neste caso, roxo, azul e verde — e no simbolismo dos elementos inseridos.


Herbert de Paz, artista visual de El Salvador, vive no Brasil desde 2013. Sua arte está representada na mostra através da série Expatriados, que dá luz a artefatos milenares de povos ameríndios. Os objetos, que foram saqueados e traficados por colonizadores e hoje estão no mercado internacional, são a inspiração das telas Cabeça de Hun Hunahpu (2023) e Máscara Gèlède Yoruba (2023), que chamam a atenção pelo contraste entre o laranja e o verde intensos.
El Zanate y Yo Sabemos que Después de Todo Volveremos a Ser Tierra (2026), por sua vez, reflete as frustrações do artista com as questões políticas atuais de El Salvador, resultado do passado de exploração colonial, e a intenção de “uma retomada crítica do passado pré-colonização, a partir de onde é possível imaginar futuros alternativos”, de acordo com a curadoria.

Outra artista contemplada na exposição é Espejismo. Ela é paulistana, mas da primeira geração de uma família boliviana a nascer no Brasil. Seu trabalho é marcado pelas colagens manuais e ações educativas. Espejismo busca “deslocar imagens de personagens andinos, confrontando percepções estereotipadas enraizadas no imaginário colonial” – como cita o texto da curadoria -, e a partir das colagens constrói uma sensibilidade atenta às vivências dessas pessoas, como é o caso de Olho para Você e Vejo Um Pouco Mais de Mim (2023) e Mapa de Rosto (2023).
Também na exposição, a série Imóvel (2022) é composta por três impressões fotográficas em que o artista Allan Rosário, de Americana (SP), reflete sobre a “efemeridade e instabilidade do espaço doméstico” e a relação entre o corpo e uma casa em ruínas. A outra obra de Rosário na mostra é Cartografia do Corpo: Territórios Fragmentados, composta de cinco xilogravuras impressas sobre papel de arroz, que representam as mudanças na planta baixa da casa em que o artista cresceu.


“O trabalho de Oriana Pérez mostra como a textura de um tecido, como uma estampa, pode revelar algo sobre as experiências de migração, de construção, de pertencimento”, analisa o mestrando João Ferreira. Pérez, natural da Venezuela, reside em São Paulo desde 2021. Nos painéis Segundo Deslocamento – El Apure y el San Francisco se Encuentram através do Rio do Céu (2025) e Primeiro Deslocamento – Maracucha Llanera (2024), trajes tradicionais de locais em que Pérez viveu são sobrepostos a paisagens.
Tata Bernardo, pintor autodidata angolano, trabalha com cores e formas para criar mosaicos, pintados sobre a pele dos indivíduos representados. As telas presentes na exposição articulam o humano e os elementos culturais e vegetais típicos da tradição africana, negra e afrobrasileira. Três trabalhos de Bernardo estão na mostra: O Pouco que Você Tem (2023), Amigos com Benefício (2024) e Dê o Seu Melhor (2026), todos feitos em óleo sobre tela.

Entre as diferentes expressões artísticas utilizadas na exposição está o som. O trabalho da artista multimídia russa Oksana Rudko, Sussurro das Estrelas (2024), consiste numa instalação interativa composta de sete canais de áudio e sete impressões fine art correspondentes, feitas em papel fotográfico. O termo “sussurro das estrelas” se refere a um fenômeno desconhecido pelos brasileiros, mas comum na Sibéria – o som produzido pelo congelamento instantâneo do ar exalado pelas pessoas em ambientes de frio extremo -, assim denominado pelos indígenas Yakuts, que habitam aquela região gelada da Rússia. Em razão das mudanças climáticas, esse som é ouvido cada vez menos.
Para sua obra, Rudko coletou gravações do farfalhar de diferentes grãos, cujo som se assemelha ao “sussurro das estrelas”. As gravações foram feitas por pessoas de diferentes regiões da América do Sul. Na mostra, os canais de áudio e as impressões foram organizados de modo que remetem ao formato da constelação Ursa Maior, uma das mais famosas do Hemisfério Norte.
A mostra conta ainda com uma obra em vídeo de Matheus Pires, intitulada Humilitas (2021). O artista, natural de Brasília (DF), reflete sobre o simbolismo da palavra “casa” no contexto da pandemia de covid-19.

Artistas emergentes e heterogêneos
A exposição Casa-Território//Território-Casa é resultado de um longo trabalho. Em 2023, a Unicamp firmou acordo com a Agência da ONU para Refugiados (Acnur), que deu origem à Cátedra Sérgio Vieira de Mello naquela universidade, dirigida pela professora Ana Carolina Maciel. Vinculada à cátedra está a Rede ArteRefúgio, que iniciou atividades em 2024.
Os artistas foram selecionados a partir de edital. Nos dois anos entre a aprovação da Rede ArteRefúgio e a exposição, foi estabelecido um “ciclo de acompanhamento artístico”, parte do processo curatorial que envolveu alunos da Unicamp e pesquisadores externos. “Criamos ações que auxiliassem na disseminação das obras desses artistas e no desenvolvimento profissional deles, para além da exposição”, explica João Ferreira. Um exemplo são as oficinas de produção de portfólio e de precificação de obras, oferecidas nesse período. “O projeto tem foco em artistas emergentes. Alguns já estão num momento mais desenvolvido da carreira, mas a ideia era trazer artistas que estão começando ou que não tiveram tanta circulação ainda.”

O grupo de artistas é heterogêneo. Alguns se deslocaram internamente no território brasileiro, enquanto outros vieram das “grandes crises mundiais”, como diz Ana Carolina Maciel. “São pessoas com um olhar individual, que podem colaborar e agregar à nossa cena cultural, artística e social”, acrescenta a professora.
Por ter sido um processo longo, a curadoria pôde se envolver com os artistas e entender a perspectiva deles sobre diferentes temas e conceitos, não só relacionados à migração. “Tentamos encontrar, a partir dessas diferentes visões de mundo e perspectivas que esses artistas carregam, um fio condutor. A migração não é o tema central, e sim essa questão da casa, do lar, de como isso perpassa a experiência dos sujeitos que estão envolvidos em processos geográficos de habitação”, completa João Ferreira.
A exposição Casa-Território//Território-Casa fica em cartaz até o dia 27 de setembro deste ano, de terça-feira a domingo, das 10hs às 18 hs, no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 258, Vila Buarque, em São Paulo, próximo às estações Higienópolis e Santa Cecília do metrô). Entrada grátis.
* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro
** Estagiária sob supervisão de Simone Gomes

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