
Parar de fumar é um processo complexo que pode exigir apoio especializado. A dependência da nicotina, aliada aos hábitos associados ao cigarro e ao seu uso como forma de lidar com o estresse e outras emoções, torna a cessação um desafio para muitos fumantes. Nesse contexto, o Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP oferece um serviço de telemedicina que amplia o acesso ao tratamento e ao acompanhamento de pessoas que desejam abandonar o tabagismo.
No Brasil, 9,3% da população é fumante, e cerca de 20 pessoas morrem por hora em decorrência de doenças relacionadas ao tabagismo. Segundo Telma de Cássia dos Santos Nery, médica sanitarista e do trabalho da Divisão de Pneumologia do Incor, o tabagismo é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença. “O cérebro se acostuma com aquele sistema de recompensa, de prazer. As pessoas acabam sentindo como se o tabaco, como se fumar qualquer tipo de nicotina, trouxesse alegria e ajudasse a aliviar a tristeza e a angústia”, explica.
Tratamento gratuito
Desde 1986, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito para pessoas que desejam parar de fumar. “Qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode procurar uma unidade de saúde ou um serviço especializado do SUS e informar que tem dependência de nicotina ou que deseja parar de fumar”, afirma a médica.
No Incor, o atendimento é destinado aos pacientes encaminhados ao serviço. Antes do início do tratamento, é realizada uma triagem para identificar os hábitos relacionados ao consumo de tabaco e definir a melhor estratégia terapêutica para cada paciente. Desde maio de 2021, o instituto oferece acompanhamento por telemedicina com o apoio da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). “Essa terapia em grupo começa todo mês. Na primeira quarta-feira iniciamos uma nova turma e realizamos quatro sessões, sempre às quartas-feiras”, explica Telma.
Após a avaliação inicial, o paciente pode optar pelo acompanhamento presencial, nos ambulatórios do Incor, ou pela modalidade on-line. Os grupos de telemedicina reúnem, em média, entre 10 e 15 participantes. Para garantir a participação dos pacientes, a equipe também oferece suporte para o uso das ferramentas digitais quando necessário.
Resultados positivos
Entre 2021 e 2023, pesquisadores realizaram um estudo descritivo para avaliar a eficácia da telemedicina associada à Terapia Cognitivo-Comportamental na cessação do tabagismo.
A pesquisa analisou indicadores como frequência nas quatro sessões semanais, idade, sexo, raça/cor, redução do número de cigarros fumados e interrupção do consumo de tabaco. Ao todo, foram avaliados 154 participantes. Os resultados mostraram que 5% dos pacientes reduziram em 50% o consumo de cigarros já na primeira sessão; 16% alcançaram essa redução na segunda; 18% na terceira; e 5% na quarta sessão.
Em um momento em que o cigarro e os dispositivos de nicotina voltam a ganhar visibilidade nas redes sociais e em diferentes contextos culturais, reforçar as ações de prevenção e conscientização torna-se ainda mais importante. Para Telma, ampliar o acesso à informação sobre os riscos do tabagismo continua sendo uma das principais estratégias para evitar que novas gerações desenvolvam dependência da nicotina.
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