Quais brasileiros são as principais vítimas de acidentes com cobras?
Análise nacional considerou mais de 329 mil acidentes ofídicos, traçando um perfil das vítimas; desfechos negativos são associados a atrasos no atendimento

Resultados de estudo podem contribuir para a identificação de áreas e populações de maior risco, embasando estratégias de prevenção, acesso e alocação de recursos – Foto: Renato Augusto Martins/Wikipedia
Homens concentram mais de 77% dos acidentes com jararacas, cascavéis, corais e surucucus registrados no Brasil entre 2010 e 2022. O perfil de maior risco também inclui adultos, pardos, moradores de áreas rurais e pessoas com menor escolaridade. É o que mostra um estudo realizado em parceria entre o Ministério da Saúde, a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo (SES-SP), a USP, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e o Instituto Butantan e publicado nesta sexta (17) na Revista do SUS (RESS). As conclusões podem orientar ações de prevenção, educação e a alocação de recursos em saúde.
A equipe examinou mais de 329 mil registros feitos ao longo de 13 anos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), plataforma do Sistema Único de Saúde (SUS) que reúne informações sobre doenças de notificação compulsória. A partir desse conjunto, compilou e analisou dados sobre as vítimas – como idade, raça e escolaridade -, sobre as espécies envolvidas, a distribuição geográfica dos casos e fatores relacionados ao atendimento e aos desfechos, incluindo óbitos.
A maioria dos acidentes ocorreu com homens (77,8%), pardos (58,4%), entre 20 e 59 anos (76,3%), com menor escolaridade (48%) e residentes de áreas rurais (63,9%). “O perfil das vítimas sugere que os acidentes com cobras estão associados à exposição ocupacional e a desigualdades sociais”, afirma Gisele Dias de Freitas, pesquisadora da SES-SP e autora do estudo. A investigação também evidenciou desigualdades regionais, com maior concentração de casos e maior mortalidade no Norte e no Centro-Oeste. Além disso, os registros variaram ao longo do ano, com aumento nos meses mais chuvosos.
Os acidentes com jararacas, cascavéis, corais e surucucus resultaram em 1.514 óbitos, sendo a maioria (74,2%) associada às jararacas, e a maior taxa de letalidade anual, às cascavéis (0,1%). Para Freitas, o atraso no atendimento está entre os principais fatores por trás dessas mortes. “Em regiões remotas, as grandes distâncias, a dependência de transporte fluvial ou terrestre e a limitada disponibilidade de serviços especializados dificultam o acesso rápido à soroterapia”, afirma. A autora ressalta ainda a influência de fatores culturais e comportamentais, como a busca inicial por tratamentos caseiros ou tradicionais e, em alguns casos, a subestimação da gravidade do acidente.
Mais de 65% das vítimas picadas por jararacas, cascavéis e corais receberam atendimento em até três horas – dentro do intervalo recomendado de até seis horas para reduzir o risco de complicações. Nos casos envolvendo surucucus, o porcentual foi menor: apenas 44,1% foram atendidas no tempo ideal, enquanto 35,4% receberam assistência entre três e 12 horas. “Coincidentemente, esses acidentes ocorrem em regiões mais remotas e de difícil acesso aos serviços de saúde”, ressalta a pesquisadora.
O Brasil ocupa o terceiro lugar mundial em número de acidentes com cobras, ao lado do Vietnã e atrás apenas da Índia e do Sri Lanka. Desde 2019, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou a estratégia global contra o ofidismo, o País segue em busca do objetivo estabelecido pela entidade de reduzir em 50% as mortes e incapacidades causadas por eles até 2030.
Segundo Freitas, é possível avançar significativamente nesse objetivo, sobretudo por conta da rede de vigilância consolidada, do sistema público com soros antivenenos gratuitos e do sistema de notificações que cobre o território nacional. Ainda assim, os desafios permanecem. “O principal é garantir que o paciente receba atendimento e soroterapia adequados no menor tempo possível, especialmente em áreas rurais e remotas”, afirma. A autora argumenta que, para isso, o investimento em acesso, educação e pesquisas deve ser contínuo, reforçando que a equipe segue avançando na produção de conhecimentos sobre o tema. “O objetivo é produzir evidências que apoiem a tomada de decisão dos gestores e contribuam para políticas públicas mais eficientes, especialmente para as populações mais vulneráveis e expostas ao risco”, conclui.
Mais informações: e-mail gisele.freitas@usp.br, com Gisele Freitas
*Da Agência Bori de Notícias. Adaptado para o Jornal da USP
** Estagiária sob orientação de Simone Gomes

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