Turismo de observação de aves: atividade atrai milhões de pessoas e impulsiona a economia local e a ciência

Por Andrey Furmankiewicz*17/07/2026 às 11:300 visualizações
A observação de aves, conhecida internacionalmente como birdwatching, tornou-se uma das atividades de grande destaque no turismo de natureza - Fotosmontagem com imagens de Dario Sanches/Wikimedia Commons e Governo do Estado de SP
A observação de aves, conhecida internacionalmente como birdwatching, tornou-se uma das atividades de grande destaque no turismo de natureza - Fotosmontagem com imagens de Dario Sanches/Wikimedia Commons e Governo do Estado de SP
Jornal da USP
🎙 Andrey Furmankiewicz* · Jornal da USP

Ação que une excursionismo com a observação da natureza tem número estimado de 100 milhões de praticantes

 Publicado: 17/07/2026 às 8:30
Por

 

Imagem do artigo

Imagem do artigo
A observação de aves, conhecida internacionalmente como birdwatching, tornou-se uma das atividades de grande destaque no turismo de natureza – Fotomontagem com imagens de Dario Sanches/Wikimedia Commons e Governo do Estado de SP

 

Imagem do artigo

 

Imagine viajar milhares de quilômetros apenas para observar aves por alguns minutos. Para muitas pessoas isso pode parecer incomum, mas essa é uma realidade para um número crescente de turistas ao redor do mundo. A observação de aves, conhecida internacionalmente como birdwatching, tornou-se uma das atividades de grande destaque no turismo de natureza. O número aproximado de praticantes mundiais pode chegar a 100 milhões de pessoas, e contribui para a valorização de áreas naturais, especialmente aquelas ricas em biodiversidade.

O turismo de observação de aves se enquadra no grande segmento de turismo de observação de fauna que compreende atividades turísticas voltadas à contemplação de animais em seus hábitats naturais, buscando proporcionar experiências de contato e aprendizado sobre a vida silvestre. Entre as diversas modalidades existentes, como observação de mamíferos marinhos, primatas e grandes animais, a observação de aves ocupa posição de destaque. Isso ocorre porque as aves estão presentes em praticamente todos os ecossistemas do planeta, apresentam enorme diversidade de espécies, são bonitas e cantam, e podem ser observadas de forma fácil, sem a necessidade de equipamentos complexos ou grandes deslocamentos.

Aves brasileiras

O Brasil possui condições privilegiadas para essa prática. Segundo dados de 2021 do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO), o País abriga 1.971 aves. Dessas, quase 300 são endêmicas, ou seja, existem somente aqui. Isso faz com que o País seja, com segurança, o segundo país com mais diversidade, abrigando por volta de 17% de todas as espécies conhecidas até o momento. Regiões como o Pantanal, a Amazônia, a Mata Atlântica, o Cerrado e áreas úmidas do Sul atraem observadores nacionais e internacionais interessados em registrar espécies raras, endêmicas ou ameaçadas de extinção. Em muitos casos, pequenas localidades passaram a receber turistas justamente em função de sua riqueza ornitológica, gerando renda e oportunidades econômicas para as comunidades locais.

Alexandre Panosso Netto, professor de Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, comenta que a atividade ficou bem conhecida em 2011 com o lançamento do filme The Big Year, que mostra uma competição entre três homens observadores de aves nos EUA. “No Brasil a atividade é promovida desde 2006 no Encontro Brasileiro de Observação de Aves, conhecido como Avistar, que ocorre anualmente e visa a promover a observação de aves na natureza, valorizando o turismo responsável e a ciência cidadã.”

Praticantes e desafios

“Geralmente o turista que pratica esse tipo de atividade tem elevado nível educacional, forte interesse por temas ambientais, nível financeiro privilegiado e disposição para investir tempo e recursos em viagens especializadas. São turistas que valorizam a experiência de aprendizado, a contemplação da natureza e a observação cuidadosa do ambiente. Diferentemente de segmentos voltados ao entretenimento de massa, o observador de aves geralmente busca grupos reduzidos, contato qualificado com guias locais e ambientes preservados. Esses serviços e atividades, desenvolvidos em grupos menores, têm preços elevados, pois, como a demanda é restrita, os custos não se diluem entre os praticantes”, ressalta o especialista.

Entretanto, o crescimento desse movimento também levanta desafios importantes. Embora a observação de aves seja frequentemente considerada uma prática de baixo impacto ambiental, ela não está isenta de riscos. “A aproximação excessiva dos ninhos, a utilização inadequada de gravações de cantos para atrair aves, o trânsito fora de trilhas autorizadas e o excesso de visitantes em áreas sensíveis podem provocar estresse aos animais e alterar seu comportamento natural. Em casos extremos, espécies vulneráveis podem abandonar áreas de reprodução ou modificar padrões de alimentação em função da presença humana.”

Por essa razão, a sustentabilidade do turismo de observação de aves depende da adoção de princípios éticos e medidas de conservação. Entre as recomendações mais importantes estão manter distância adequada dos animais, evitar interferências nos comportamentos naturais, respeitar áreas restritas, seguir orientações de guias especializados e não utilizar equipamentos sonoros de forma indiscriminada.

Benefícios para a sociedade

A gestão das áreas visitadas também desempenha papel fundamental. Unidades de conservação, parques nacionais, reservas particulares e áreas protegidas precisam estabelecer limites de visitação, monitorar impactos ambientais e promover programas de educação ambiental para turistas e operadores. “Quando bem planejado, o turismo pode se tornar um importante aliado da conservação, gerando recursos financeiros, fortalecendo a pesquisa científica e ampliando o apoio social à proteção dos ecossistemas”, explica Netto.

Além disso, o turismo de observação de aves tem demonstrado potencial para estimular a chamada ciência cidadã. Atualmente, plataformas digitais como o eBird permitem que observadores registrem suas observações e compartilhem dados com pesquisadores, contribuindo para o monitoramento da distribuição das espécies e para estudos sobre migração, reprodução e conservação da biodiversidade. Somente no eBird existem cadastrados mais de 100 milhões de avistamentos ao redor do mundo. Dessa forma, a atividade ultrapassa o simples turismo e lazer e passa a colaborar diretamente com a produção de conhecimento científico.

“A observação de aves representa um exemplo de como turismo e conservação da natureza podem caminhar juntos. Quando realizada de forma responsável, a atividade promove experiências significativas para os visitantes, gera benefícios econômicos para as comunidades e fortalece a proteção da biodiversidade”, finaliza.


Imagem do artigo
Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

Fonte
Jornal da USP
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.