
Nas nossas cidades, o que há de comum entre o trânsito caótico, a poluição que cobre os céus e contamina o ar, a violência que ceifa vidas nos becos e vielas das periferias e as ruas, avenidas e bairros arborizados das classes mais favorecidas da população; ou entre o lixo que se espalha entupindo bueiros e provocando inundações periódicas em tempos chuvosos e o processo de favelização, nunca tão visível como nos tempos atuais? A resposta está na urbanização, na concentração de um grande número de pessoas que trocaram as zonas rurais pelas urbanas, apesar de o espaço rural, no tocante à área territorial, ser bem mais amplo do que o espaço urbano.
Em meados da década de 1800, a população mundial era, em sua grande maioria, rural, apenas cerca de 3% vivia em áreas urbanas. De lá para cá, no entanto, o mundo sofreu grandes transformações. Atualmente, dados da Organização das Nações Unidas (ONU) informam que cerca de 54% da população mundial vive na zona urbana, mas as projeções da entidade dão conta de que tal porcentagem aumente em 2050, saltando para 66%, o que corresponde a quase 2,5 milhões de pessoas deslocando-se para essas áreas. No Brasil, o panorama não foi nem um pouco diferente.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou-se um grande aumento da população brasileira entre os anos de 1940 e 2010: o número de brasileiros passou de 70,2 milhões para 209,3 milhões, com a população urbana subindo de 44% para os atuais 85%, um processo que se acelerou sobretudo nos anos 1950, impulsionado pelo grande êxodo rural e pela industrialização, a qual foi decisiva para essa migração do campo para a cidade. O governo de Juscelino Kubitschek, ao atrair indústrias multinacionais, estimulou a formação do mercado interno, ao mesmo tempo em que a modernização do campo em algumas regiões, como a Sudeste, expulsou os trabalhadores rurais, que passaram a se dirigir aos centros urbanos em busca de empregos, uma vez que muitas das tarefas que faziam no campo foram para a responsabilidade das máquinas. Esse processo também se deve muito à construção de Brasília, que mudou o mapa urbano e atraiu milhares de nordestinos para o interior do País. Com isso, de agrário, o Brasil passou a ser urbano, com todas as consequências que essa condição implica, para o bem e para o mal.
De modo geral, os urbanistas chamam a atenção para o fato de que, no Brasil, o crescimento urbano não foi acompanhado no mesmo ritmo por infraestruturas e serviços capazes de atender a esse contingente. Some-se a isso um outro fator: o desenvolvimento nem sempre priorizou o que deveria ser o foco do planejamento urbano, quer seja, o uso e a ocupação do território urbano de forma eficiente e sustentável. Uma das consequências desse processo é a chamada favelização. Aproximadamente 900 milhões de pessoas que foram para as cidades vivem hoje em favelas no mundo todo, inseridas num cenário de miséria, fome e problemas de saúde.
Cidades: locais de confluência de saberes e fazeres

Em seu livro Uma História da Urbanização em Perspectiva Global (Edusp), Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, rastreia a evolução da urbanização das cidades em 6 mil anos de história, da pólis grega às metrópoles do século 19, sem esquecer o papel do Brasil e sua inserção nesse processo. A obra, como a autora observa no prefácio, destina-se aos interessados em história global e cultura material, na perspectiva da história conectada, mas sobretudo aos interessados em história da urbanização.
Combina análises de cultura material, história global e assimetrias historiográficas, construindo uma narrativa que entrelaça diferentes tempos e espaços, encarando a urbanização como fenômeno global e não apenas europeu. Logo na introdução, ela escreve que “o século 21 promete ser o século das cidades e pesquisas indicam que o clube das megalópoles cada vez mais é terceiro-mundista”. Beatriz afirma ainda que altos índices demográficos não são sinônimo de progresso, muito pelo contrário.
Coerente com a proposta de levar o leitor a refletir sobre as raízes das desigualdades urbanas e os desafios geopolíticos ambientais e sociais que se apresentam hoje, a autora começa por definir o que é cidade, para isso valendo-se da citação de diversos estudiosos que se debruçaram sobre a mesma questão, como o historiador francês Fernand Braudel, que considerava as cidades como os motores da história e do capitalismo, e o arqueólogo australiano Gordon Childe, pioneiro no estudo da urbanização, a quem é creditada a criação do termo Revolução Urbana, que define a grande transformação de aldeias agrícolas, baseadas em parentesco, para sociedades urbanas complexas marcadas pelo surgimento do Estado, estratificação social e excedentes de produção.
“A teoria de Gordon Childe tem sido confrontada há muitos anos à luz de novas descobertas arqueológicas”, escreve Beatriz, contextualizando sua informação a partir da citação de estudiosos de ontem e de hoje, que contestaram as premissas do arqueólogo australiano. “A desigualdade não é um fado, assim como as estruturas de poder centralizadas e hierarquizadas. Estamos diante de um cenário muito mais rico no qual a cidade poderia ser o locus da concentração intelectual, da confluência de saberes e fazeres, da revolução científica e das artes no sentido da emancipação e não da escravidão em que nos metemos quando decidimos criar animais e plantas.”
Gerado a partir da experiência pedagógica da autora no campo disciplinar da história e urbanização e do urbanismo, no curso de graduação e pós-graduação na FAU/USP, o livro é dividido em duas partes. A primeira delas se inicia justamente com a definição de cidade, conforme abordado acima. Em A Invenção da Política e dos Espaços Públicos, retorna à antiguidade helênica para traçar os princípios do conceito de urbanização e, diretamente ligado a este, do surgimento da democracia, uma vez que parte do princípio de que “a invenção da democracia foi acompanhada pela invenção de certos espaços para exercício da política e da cidadania”. Em Mundialização: Urbanização em Rede, ela trata da problemática da helenização e da romanização nos termos da história da urbanização, recorrendo aos estudos de Nestor Goulart Reis Filho, pioneiro na fundação do campo disciplinar da História da Urbanização e do Urbanismo no Brasil. Essa primeira parte do livro se encerra com o título Por Uma Revisão dos Conceitos de Idade Média e Renascimento, no qual Beatriz se volta para o Oriente, o Oriente Médio e suas interfaces com a Europa medieval.

Sob o título A Mobilização Ibérica como Laboratório do Mundo tem início a segunda parte da obra. Uma das hipóteses aqui levantadas é a de que a mobilização ibérica foi a primeira experiência de globalização cultural, “envolvendo de fato as quatro partes do mundo e, como tal, laboratório de encontros, trocas e hibridismos em escala planetária”. Já o capítulo seguinte traz o Brasil como foco principal. Em Por Uma Arqueologia da Paisagem Cultural “Brasileira” Plural, Beatriz escreve, logo no início: “A historiografia sobre o processo de urbanização no Brasil e no período colonial pautou-se, em geral, pelo estudo das vilas e das cidades em detrimento dos demais núcleos de povoamento que pontuavam territórios, cumprindo diferentes papéis. Lugares, arraiais, capelas, freguesias, julgados, bairros rurais, aldeias indígenas, aldeamentos missioneiros, pousos, registros, passagens, barreiras, fazendas, sítios, currais e fortalezas ficaram obscurecidos em meio à rarefeita rede de vilas e cidades”.

Finalmente, fecha o livro um epílogo – O Longo Século XIX à Luz da História Global -, escrito sob a inspiração do fotógrafo Stepan Norair Chahinian e do historiador e marxista britânico Eric Hobsbawm, autor de A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Impérios. O texto trata basicamente de cidades do século 19, que “parecem todas iguais e esse ideal foi perseguido e objeto de grandes negócios disfarçados de afirmação identitária. Mas se as cidades se tornaram estereotipadas segundo padrões ocidentais, não o eram até então. As cidades pré-industriais tinham profundas marcas vernaculares e acentos regionais, híbridos e plurais pari passu aos encontros e trocas culturais que mobilizaram”. Beatriz conclui: “A despeito de diferenças políticas, religiosas e culturais, o mundo é mais misturado do que parece à primeira vista; eis a mensagem aqui implícita”.
Um acréscimo que não pode deixar de ser mencionado é a seção Iconografia e Cartografia, que traz um rico acervo visual: mapas, pinturas, gravuras e objetos da cultura visuais escolhidos, segundo ela, “por sua capacidade de representar a geopolítica global em tempos recuados”. Adiante, escreve: “Cada mapa, pintura, gravura, objeto da cultura material deriva de processos que envolvem indivíduos, técnicas e instrumentos, códigos e convenções de representação, trazendo ali amalgamados vários textos. É justamente essa intertextualidade que deve ser descoberta no processo interpretativo […] Esses documentos visuais nos remetem também a instituições e processos de formação e difusão do conhecimento”. As figuras aqui retratadas, além de devidamente identificadas, foram contextualizadas pela autora e mereceram, cada qual, um tratamento individualizado, segundo a época em que foram produzidas. Todas representam visões da época, recortes que remetem às várias facetas de um mundo urbanizado e foram selecionadas por sua capacidade de representar a geopolítica global em tempos antigos.




