Por que o turismo também projeta o poder de países na Antártica? Pesquisadora explica (VÍDEOS)

17/07/2026 às 15:110 visualizações
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
Dados da IAATO apontam que, no período de 2024–2025, os turistas com nacionalidade dos EUA lideram o ranking, com 41%, seguidos pela China, com 10%. O Brasil, país que possui, no âmbito governamental, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar), aparece na oitava posição de visitantes, com 2%.
Nesse sentido, Nathália Magalhães Macedo, pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), em entrevista à Sputnik Brasil, contextualiza os impactos políticos dessa movimentação na zona antártica.

"Isolado, o turismo não garante direitos territoriais, mas pode contribuir para justificar a expansão de investimentos em embarcações de abastecimento, estrutura portuária, a busca por rotas marítimas alternativas regulares e o desenvolvimento de aeronaves e aeródromos. Todos esses elementos acabam compondo cadeias logísticas que podem, no futuro, adquirir uma importância ainda maior", disse.

Para assistir a este vídeo, por favor ative o JavaScript e use um navegador que suporte recursos do HTML5

A pesquisadora, que publicou seu estudo "O preço do turismo: entre presença, influência e poder na Antártica" no Boletim Geocorrente do NAC/EGN, não descarta que a presença desses turistas possa ser usada por governos de seus respectivos países para influenciar a opinião pública sobre a questão de ocupação territorial.

"Se a presença de um país for desproporcionalmente maior do que a dos outros no continente, isso pode movimentar a opinião pública para uma eventual contestação e revisão do tratado. [Nesse cenário] pode ter apoio da população para poder fazer alguma coisa. Mas isso depende muito do cenário geopolítico e de outras variáveis", comenta.

Imagem do artigo
Ciência e sociedade
'Primeiro caso': cientistas dão alarme sobre descoberta chocante na Antártica

Sistema do Tratado Antártico não permite soberania

O Tratado da Antártica tem como prerrogativa manter a localidade neutra, ou seja, não pertencente a um determinado Estado, e por isso impede reivindicações territoriais formais, para que a área seja preservada e dedicada à pesquisa por meio de programas antárticos governamentais e ao uso pacífico, como explica Nathália.

"Teoricamente, a Antártica pode ser considerada como recurso de uso comum, mas não excludente. O que significa dizer que é impossível impedir que as pessoas usufruam do continente, desde que para fins pacíficos e científicos. Só que [a movimentação do turismo] acaba priorizando ganhos privados que vão impor ali custos coletivos, tanto ambientais quanto institucionais", destaca.

Para assistir a este vídeo, por favor ative o JavaScript e use um navegador que suporte recursos do HTML5

Outro ponto levantado pela especialista é que, conforme se amplia a presença humana no local que deveria ser mais preservado, o futuro da Antártica tende a ser palco de disputas geopolíticas.

"O turismo não parece, mas vai normalizando cada vez mais essa presença humana enquanto fonte de legitimidade política e, obviamente, a questão da influência em eventual cenário de revisão ou contestação do próprio Tratado da Antártica. Então, tende a fortalecer as condições, tanto políticas quanto estratégicas, para influenciar uma negociação que venha a ocorrer", observa.

Imagem do artigo
Notícias do Brasil
Presença do Brasil na Antártica é crucial para diplomacia da ciência, nota analista

Dinâmica de turismo intenso afeta o meio ambiente

Com o avanço da presença humana, que envolve diversos vetores como estrutura física e movimentações constantes administradas por operadoras do ramo turístico, Nathália frisa que esse tipo de atividade pode causar impactos ambientais severos para o ecossistema polar.

"O que mais preocupa em relação à Antártica são essas mudanças ambientais, que são um produto de processos cumulativos. Muito se fala sobre o declínio precipitado do gelo marinho desde 2016, mas esse evento é excepcional em relação à própria variabilidade natural dos últimos três séculos. Isso já é um indício muito forte de uma mudança para um regime menos estável", conclui.

Para assistir a este vídeo, por favor ative o JavaScript e use um navegador que suporte recursos do HTML5

Cada vez mais têm sido recorrentes no cenário internacional disputas que envolvem fluxos estratégicos, como acontece no estreito de Ormuz, por exemplo. Logo, novas rotas são prospectadas por países e, dessa forma, surge a necessidade de se explorar novos territórios. Com as mudanças climáticas que impactam lugares extremos como o Ártico e a Antártica, esses territórios tornam-se ativos geopolíticos cobiçados.
Imagem do artigo
Imagem do artigo
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!

Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.

Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).

Fonte
Sputnik Brasil
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.