No coração do centro de São Paulo, a Praça da República pulsa com uma história que poucos espaços na cidade conseguem reunir. Berço dos primeiros shows transformistas, ponto de encontro e palco de resistência, a região sempre foi território da comunidade LGBT. Não por acaso, foi ali que, em 2012, surgiu o Museu da Diversidade Sexual – o primeiro da América Latina dedicado à temática.
Após um período fechado para obras logo após a pandemia de covid-19, o museu reabriu suas portas em 2024 com uma proposta ampliada. Hoje, exposições, debates, filmes, festas, passeios, cursos e oficinas compõem um cardápio diverso de atividades que vão muito além das mostras temporárias como mostra a edição do Bem Viver, programa do Brasil de Fato.
“O Museu da Diversidade Sexual existe aqui na Praça da República, que é um território que tem uma representatividade para a comunidade LGBT muito grande, histórica, como um lugar tanto de manifestação, mas principalmente de existência, de acolhimento, de festividade”, explica a diretora do espaço Emília Paiva.
O acervo do museu, segundo ela, é o ponto de partida para atividades educativas e culturais que dialogam com o território. “A gente faz atividades educativas, atividades culturais que dialogam com o território e trazem para esse território uma integração com a cultura e com a arte e com a história LGBT que a gente expõe aqui nas paredes do museu.”
Entre as atrações estão o Cine Clube com exibição de filmes seguida de debates, o Rolezinho um passeio por lugares importantes para a história da comunidade LGBT, roteiros educativos voltados ao público infantil e, por fim, o Clube do Livro, espaço de troca entre leitores e autores.
Literatura como ferramenta de (re)existência
Uma das edições do Clube do Livro recebeu o jornalista Chico Felitti, que apresentou seu livro “Rainhas da Noite”. A obra, também exposta no museu, recupera a trajetória de Andrea de Mayo, Jacqueline Welch e Cris Negão, três travestis que comandaram a vida noturna do centro paulistano entre as décadas de 1970 e 2000.
Para Felitti, a troca com o público superou as expectativas. “Eu achei o público aqui do Museu da Diversidade interessado e interessante. É raro a gente encontrar uma galera que, primeiro, leu o livro, entende muito e tem referências”, afirma. “As pessoas trouxeram referências que complementavam a história. Trouxeram muita coisa que eu não conhecia. Eu ouvi hoje histórias que eu não conhecia, que estão ligadas a um livro que eu escrevi. Então, para mim, é um grande presente.”
A técnica de farmácia Arethuza Rodrigues, que compareceu ao encontro, destaca a importância do debate para a comunidade, especialmente em um ano marcado por discussões sobre o abandono de pessoas trans por marcas e instituições.
“A minha intenção era de conversar mesmo sobre essas questões que permeiam a nossa comunidade, principalmente a comunidade trans”, diz Arethuza. “Rolou todo um debate esse ano a respeito de marcas que deixaram e tudo mais. E da gente parar para refletir mesmo, né? Será que só as marcas? Será que só foi esse ano? Será que a gente não está sendo abandonada todo dia? Onde estão essas pessoas trans? Elas não estão no meu trabalho. Elas não estão na minha faculdade, elas não estão em lugar nenhum. Cadê elas?”
Arethuza ressalta ainda a riqueza da troca proporcionada pelo clube: “A gente ler e trocar com outras pessoas. Às vezes outra pessoa vai ver uma coisa que eu não estou vendo ali. E vice-versa. Legal.”
Murilo, morador do bairro do Jaraguá, na zona norte, é um assíduo frequentador desde antes do fechamento para reforma. “Antes do museu fechar, eu já vinha nas exposições e depois, quando ele reabriu, eu voltei a frequentar”, conta. “Antes não tinha esse Rolezinho, não tinha o Cine Clube, era mais a exposição, né? E agora tem todas as atividades. Foi só aumentando conforme ele foi se expandindo. A equipe foi também aumentando. E aí eu sempre trago meus amigos também, que é cultura, né?”
Memória e resistência em tempos de violência
A existência do museu ganha contornos ainda mais significativos quando confrontada com a realidade enfrentada pela comunidade LGBT no Brasil. Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), o país registrou uma pessoa trans morta a cada 39 horas em 2025, um dado que expõe a violência estrutural que ainda marca a sociedade brasileira.
Emília Paiva reforça o papel do espaço em um cenário tão adverso. “O museu é um espaço de preservação de memória. E a partir dessa preservação, uma reflexão. A gente olha para o que a gente foi para imaginar o que a gente quer ser. O museu é esse espaço.”
Na contramão da exclusão e da violência, o Museu da Diversidade Sexual segue como um ponto de acolhimento e promoção da vida, uma celebração da existência em um país que ainda insiste em negá-la.
E tem mais…
O Bem Viver traz também a revitalização Rural na China, uma viagem até uma aldeia da etnia Hani para ver como a união entre agricultura, arte e cooperativismo está mudando o campo.
A chef Gema Sotto ensina duas receitas imperdíveis para o inverno: caldo de alho-poró e caldo de abóbora.
E o segundo episódio da série “Terreiros Urbanos em São Paulo”, conheça a trajetória de Luciana Bispo de Oyá, Ialorixá do Ilê Oba Àse Ogodo no combate ao racismo e à intolerância religiosa.
Quando e onde assistir?
No YouTube do Brasil de Fato, todo sábado às 13h, tem programa inédito. Basta clicar aqui.
Na TVT: sábado às 13h; com reprise domingo às 6h30 e terça-feira às 20h no canal 44.1 – sinal digital HD aberto na Grande São Paulo e canal 512 NET HD-ABC.
Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.
Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.
Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET.
Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET.
Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital.
Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília, no Canal 15 da NET.
TV UFMA Maranhão: quinta-feira às 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17.
Sintonize
No rádio, o programa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h às 8h, com reprise aos domingos, às 10h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. Além de ser transmitido pela Rádio Agência Brasil de Fato.
O programa conta também com uma versão especial em podcast, o Conversa Bem Viver, transmitido pelas plataformas Spotify, Google Podcasts, iTunes, Pocket Casts e Deezer.
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