
As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos contra empresas e pessoas supostamente ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) podem trazer mais prejuízos do que benefícios ao enfrentamento do crime organizado no Brasil. Após classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais, o governo norte-americano anunciou sanções contra duas empresas e três pessoas por suposta ligação com a facção criminosa.

Medida tem motivação geopolítica
Para Bruno Paes Manso, jornalista e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, as medidas vão além do combate ao tráfico de drogas. Segundo ele, as sanções têm caráter político e geopolítico, ao utilizar a criminalização das facções como instrumento para ampliar a influência dos Estados Unidos na América Latina e pressionar a soberania dos países da região.
Na avaliação do pesquisador, o principal problema relacionado às drogas nos Estados Unidos é o consumo de fentanil, o que reforça a ideia de que a decisão está mais ligada a interesses estratégicos do que ao enfrentamento do narcotráfico.
Impacto nas investigações brasileiras
Além da questão diplomática, Bruno Paes Manso afirma que as sanções tiveram impacto negativo sobre investigações conduzidas no Brasil. Segundo ele, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, informou que a divulgação antecipada das medidas alertou os investigados, permitindo que alguns deles fugissem antes do cumprimento de mandados de prisão, comprometendo operações da corporação.
“Essa troca de informação existe e é necessária, faz parte da inteligência. Mas você não precisa de uma medida política como a tomada pelos Estados Unidos, que permite a eles, sobretudo, interferir na soberania brasileira”.
Inteligência financeira é o principal caminho
O pesquisador destaca que o Brasil tem avançado no combate às organizações criminosas por meio do fortalecimento da inteligência financeira e da integração entre os órgãos de investigação. O uso de ferramentas para rastrear recursos e identificar movimentações patrimoniais suspeitas tem ampliado a capacidade do Estado de combater o financiamento das facções.
Segundo Bruno Paes Manso, o principal desafio é acompanhar a transformação do crime organizado, que deixou de atuar exclusivamente no tráfico de drogas e passou a diversificar suas fontes de receita em diferentes atividades ilícitas. Para ele, o enfrentamento efetivo dessas organizações depende do fortalecimento da inteligência, do rastreamento financeiro e da cooperação entre as instituições brasileiras, preservando a autonomia do País na condução das políticas de segurança pública.
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