Pré-COP na Alemanha demonstra a dificuldade de ações concretas para a transição agroalimentar

Por Andrey Furmankiewicz*20/07/2026 às 12:160 visualizações
Dois agricultores abaixados mexendo em uma plantação que tem irrigadores lançando água nas plantas
Dois agricultores abaixados mexendo em uma plantação que tem irrigadores lançando água nas plantas
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil / Jornal da USP
🎙 Andrey Furmankiewicz* · Jornal da USP

Reunião que antecedeu a COP31 mostrou falta de consenso, de financiamento e de decisões concretas nas questões climáticas

 Publicado: 20/07/2026 às 9:16
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De acordo com a professora, a principal divergência está no foco do debate: países do Sul Global defendem uma abordagem mais voltada à produção agrícola, enquanto países desenvolvidos propõem uma visão mais ampla, que considere todo o sistema agroalimentar -Montagem com fotos de – Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
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Em junho de 2026 ocorreu em Bonn, na Alemanha, a reunião que antecedeu e preparou as negociações da Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU, a COP31, que acontecerá na Turquia no mês de novembro. Em 2025, como presidente da COP30, o Brasil criou a chamada Agenda de Ação, que tem como objetivo mobilizar ações de diferentes atores para a mitigação e adaptação climática a partir de seis eixos estratégicos. Fernanda Marrocos, doutora em Saúde Global e Sustentabilidade pela Faculdade de Saúde Pública da USP e que esteve na pré-conferência em Bonn, comenta sobre este encontro e o balanço entre os desdobramentos da COP30 e as expectativas para a COP31.

Agenda de Ação

A especialista explica como as ferramentas da Agenda de Ação, os Planos para Acelerar Soluções (PAS) foram concebidos para criar coerência entre metas e acordos, visando à implementação mais acelerada de ações concretas. “Os Planos para Acelerar Soluções nada mais são que instrumentos colaborativos e multissetoriais, que funcionam como ferramentas para tirar compromissos climáticos do papel. No Eixo de Transformação da Agricultura e dos Sistemas Alimentares da Agenda de Ação da COP30, destacam-se dois planos.” O PAS para a convergência e a coerência das políticas públicas de ação climática e transformação dos sistemas alimentares, chamado de PAS COACT, proposto pelo Ministério do Desenvolvimento Social, que visa a promover maior coerência entre políticas de sistemas alimentares e clima, suprindo lacunas de instrumentos, metodologias e capacidades institucionais que conectem a formulação de políticas à implementação nos territórios. E o PAS Juntos para a Expansão da Agroecologia e de Agroflorestas Resilientes e Restaurativas, chamado de PAS Terra, proposto pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, voltado à expansão da agroecologia e dos sistemas agroflorestais, com foco em práticas produtivas mais resilientes, restaurativas e adaptadas às mudanças climáticas.

“Na prática, esses planos podem contribuir para integrar políticas hoje fragmentadas, mobilizar financiamento, fortalecer capacidades locais e ampliar experiências bem-sucedidas. Seu impacto, porém, dependerá da definição de metas claras, responsabilidades, recursos e mecanismos de monitoramento”, ressalta Fernanda.

Sistemas agroalimentares

O sistema agroalimentar, que abrange todas as atividades, desde a produção na terra até o processamento, distribuição, consumo e descarte de alimentos, ganhou visibilidade na COP30, mas ainda há dificuldades para que essa visibilidade se traduza em compromissos políticos mais concretos. “Em Bonn, a agenda dos sistemas agroalimentares avançou pouco. O Grupo de Trabalho de Sharm El-Sheikh sobre Agricultura e Segurança Alimentar, principal espaço de negociação sobre o tema na Convenção do Clima cujo mandato termina na COP31, evidenciou a escassez de financiamento, assistência técnica, tecnologia e capacidade institucional. Mesmo assim, os países não chegaram a um consenso sobre os relatórios dos workshops realizados nos dois últimos anos.”

De acordo com a professora, a principal divergência está no foco do debate: países do Sul Global defendem uma abordagem mais voltada à produção agrícola, enquanto países desenvolvidos propõem uma visão mais ampla, que considere todo o sistema agroalimentar. A decisão foi adiada para a reunião em Antalya, onde também será discutido o futuro do grupo.

Apesar disso, houve avanços fora das negociações formais. A experiência na Mesa da COP mostrou que as próprias conferências podem incorporar critérios de alimentação saudável, compra local, redução do desperdício e transparência. Também ganharam destaque o PAS COACT e o PAS Terra, citados anteriormente, e a Iniciativa Nexo Turquesa, que deverá ser lançada na COP31, a qual propõe aproximar sistemas alimentares, gestão da água e adaptação climática. “O desafio, em todos esses casos, é transformar iniciativas promissoras em políticas, financiamento e ações concretas que alcancem os agricultores e os territórios mais vulnerabilizados”, completa.

Considerações finais

Segundo Fernanda, “Bonn mostrou uma falta de consenso, de financiamento e de decisões concretas. Agora o desafio é chegar à COP31 com maior articulação política e avançar em um Mapa do Caminho para a Transição Justa e Sustentável do Sistema Agroalimentar, nos moldes do que já se discute para a transição energética. Sem isso, não haverá ação climática capaz de proteger o planeta, a saúde e o direito humano à alimentação adequada”.

*Andrey Furmankiewicz, estagiário sob a supervisão de Cinderela Caldeira


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