Poluição e crimes ambientais ameaçam córregos e rios do Distrito Federal

Por Victor Silva20/07/2026 às 20:011 visualizações
Rio Melchior é um dos mais afetados da capital
Rio Melchior é um dos mais afetados da capital
Brasil de Fato

Diversos cursos d’água do Distrito Federal têm sofrido com problemas de poluição. Entre os corpos hídricos com os maiores índices de contaminação por esgoto, assoreamento ou resíduos urbanos, estão o córrego Riacho Fundo, o córrego Vicente Pires, o Ribeirão Sobradinho e o Rio Melchior. Trechos dos rios Descoberto e São Bartolomeu também sofrem com degradação ambiental, bem como diversos afluentes que deságuam no Lago Paranoá, segundo o Fórum de Defesa das Águas, do Clima e do Meio Ambiente do DF.

O motivo da degradação está relacionado ao modelo de ocupação do território do DF adotado nas últimas décadas. O avanço da urbanização sobre áreas de nascentes e zonas de recarga hídrica impede a capacidade natural do solo de armazenar e filtrar a água. Casos de erosão devido à retirada de vegetação nativa também são frequentes, além de descartes irregulares de esgoto ocasionados pela falta de planejamento urbanístico.

Fatores como o aquecimento global, considerado o maior problema ambiental do planeta, também agravam o cenário. “Mudanças climáticas geram chuvas mais intensas e concentradas, o que aumenta o escoamento superficial, transportando grandes quantidades de terra, lixo e poluentes para os cursos d’água. O resultado é o assoreamento dos córregos, a degradação dos ecossistemas aquáticos e a redução da qualidade da água”, afirma Guilherme Jaganu, coordenador do Fórum.

“Em unidades de conservação e regiões com vegetação nativa do Cerrado preservada, a água mantém boas condições. Por outro lado, cursos d’água em áreas urbanizadas sofrem impactos negativos decorrentes da expansão urbana, da remoção da vegetação ciliar e do lançamento de esgoto e outros poluentes”, afirma a bióloga Polyanna Campelo.

Entre as bacias hidrográficas do DF mais prejudicadas, está a de São Bartolomeu, formada pelo Rio Pipiripau, Ribeirão Sobradinho, Ribeirão Taboca, Ribeirão Santo Antônio da Papuda, Ribeirão Cachoeirinha, Ribeirão Santana, Ribeirão Maria Pereira e Rio Saia Velha. Com 200 km de extensão, o rio é responsável pela drenagem de cerca de 46% do território da capital. A bacia se estende pelas regiões administrativas de Planaltina, Paranoá, São Sebastião e Santa Maria.

“Casos como o do Rio Melchior e Ribeirão Sobradinho evidenciam situações de alta carga poluidora e baixa capacidade de recuperação natural. Estudos indicam que, em boa parte do território, os corpos hídricos apresentam qualidade entre regular e boa, especialmente em áreas menos urbanizadas. No entanto, há trechos críticos, sobretudo em regiões com maior densidade urbana, onde a pressão antrópica compromete significativamente a qualidade da água”, afirma a diretoria do Comitê de Bacias do Paranaíba (CBH) em entrevista ao Brasil de Fato DF.

Soluções baseadas na natureza e nos povos tradicionais

Para recuperar os córregos e rios do DF, Jaganu argumenta que é preciso combater a erosão, reduzir a poluição, restaurar a vegetação das margens, proteger as nascentes e evitar ocupações nas áreas próximas aos cursos d’água.

“É necessário ampliar recursos em soluções baseadas na natureza, como jardins de chuva, reflorestamento urbano, recuperação de áreas degradadas, criação de parques lineares, pavimentos permeáveis e ampliação da cobertura vegetal”, acrescenta o coordenador do Fórum de Defesa das Águas.

Além do investimento público, o ambientalista ressalta a importância da participação popular no combate à degradação da natureza. “É fundamental denunciar lançamentos irregulares de esgoto, desmatamentos, aterros em áreas de preservação permanente, ocupações ilegais em nascentes e outras atividades que coloquem os cursos d’água em risco”, finaliza.

Já Campelo chama a atenção para a importância dos povos tradicionais na manutenção das águas. “O papel dos povos indígenas, quilombolas e outras populações também deve ser reconhecido, pois historicamente mantêm práticas de uso sustentável do território. Estudos indicam que áreas manejadas por essas comunidades apresentam maior conservação da vegetação nativa, contribuindo para a proteção das nascentes e a manutenção do ciclo hidrológico”, argumenta.

“A simples remoção de lixo ou o desassoreamento de trechos específicos não são suficientes. É necessário ampliar o saneamento básico, controlar novas ocupações, restaurar matas ciliares, reduzir processos erosivos e integrar políticas de recursos hídricos, habitação, planejamento urbano e conservação ambiental”, finaliza a bióloga.

Moradores do Recanto cobram explicações

Na última semana, um vídeo publicado pela página de notícias Salvador Recanto denunciou um caso de poluição em um trecho do Córrego Monjolo, localizado no Parque Distrital do Recanto das Emas. Nas filmagens, é possível ver a água do riacho totalmente coberta por uma espuma branca. Segundo o perfil, a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa) informou na quinta-feira (26) que abriu investigação.

Nos comentários da postagem, moradores alegam que o problema seria causado pelo despejo ilegal de esgoto de chácaras próximas ao córrego. Alguns também afirmam que canos de esgoto estouram com frequência nas proximidades e a sujeira acaba escoando para o fluxo d’água.

Caso Melchior

Um dos episódios de poluição mais conhecidos da capital é o do Rio Melchior. Formado a partir da confluência do Ribeirão Taguatinga com o Córrego do Valo e o Córrego Gatumé, entre Ceilândia e Samambaia, o curso d’água recebe mais de 1.500 milhões de litros de esgoto diariamente, segundo o Fórum de Defesa das Águas.

Pertencente à bacia hidrográfica do Descoberto, o curso d’água é responsável por grande parte do abastecimento hídrico do Distrito Federal. O Rio Melchior está na Classe 4 estabelecida pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), considerada a pior categoria de qualidade de água prevista pela legislação ambiental brasileira.

Nos últimos anos, o rio foi alvo de depósito de rejeitos contaminantes de indústrias de embutidos, o que motivou a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), em 2023, para investigar as causas da degradação ambiental.

“O documento da CPI do Melquior mostra que o rio recebe uma sobrecarga de poluentes muito além do que ele suporta. Somente de esgoto, ele recebe três vezes mais que a sua capacidade de vazão. Ele também recebe os efluentes de chorume que vêm do aterro sanitário de Brasília. Além disso, o rio ainda é contaminado por resíduos industriais de empresas abatedoras de aves e suínos, fora o lixo residencial. É um rio bastante assoreado e precisa que suas margens sejam recuperadas”, explica Newton Vieira, representante do Movimento Salve o Rio Melchior.

O relatório final da CPI, divulgado em dezembro de 2025, reconheceu falhas na fiscalização e detalha indícios de crimes ambientais, além de cobrar o indiciamento de empresas privadas e órgãos do Governo do Distrito Federal (GDF). O Ministério Público do DF (MPDF) abriu uma nova frente de investigação sobre o Melchior em junho deste ano, conforme publicado pelo Brasil de Fato DF.

Recuperação

Em maio deste ano, o GDF convocou um chamamento público para execução do Projeto de Recomposição da Vegetação Nativa na Bacia do Rio Melchior. O valor do investimento será de R$ 8 milhões. Segundo o edital, as organizações da sociedade civil (OSCs) interessadas terão prazo de 50 dias corridos, após a publicação no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF), para apresentação das propostas. A iniciativa é coordenada pela Secretaria do Meio Ambiente do Distrito Federal (Sema-DF).

O projeto prevê o plantio, a manutenção e o monitoramento de aproximadamente 100 hectares de áreas de preservação permanente (APPs), nascentes e áreas estratégicas de recarga hídrica ao longo de 48 meses. As ações serão realizadas em áreas prioritárias do Rio Melchior, Ribeirão Taguatinga e dos córregos Cortado, Taguatinga e Gatumé.

Lançamentos irregulares

Segundo o monitoramento da Adasa, foram identificados 67 locais de lançamentos ilegais de esgoto com alto potencial de impacto ambiental em 2025. Nas 554 visitas técnicas distribuídas em 220 pontos estratégicos realizadas no período, foi revelado que a situação é mais crítica no período de seca, no qual 87% das amostras apresentaram irregularidades.

A contaminante mais constatada na pesquisa foi a bactéria Escherichia coli, presente em 41 amostras. A presença do microorganismo é associada à contaminação por fezes humanas ou de animais. A pesquisa também identificou concentrações de fósforo total superiores a 0,03 mg/L em 40 amostras analisadas. A presença elevada do composto pode indicar contaminação por esgoto, fertilizantes e resíduos urbanos, segundo especialistas.

Um segundo levantamento feito pela Adasa na mesma época chamou a atenção para o Aterro Sanitário de Brasília (ASB), criado em 2018 para substituir o antigo Lixão da Estrutural. Segundo o documento, um dos problemas centrais no ASB envolvia a tubulação de chorume, líquido altamente poluente que exige manejo cuidadoso para evitar a contaminação do solo e de lençóis freáticos. Mesmo que o relatório indique que essa pendência em específico foi regularizada, ela permanece sob monitoramento.

Outro dado preocupante é referente à Unidade de Recebimento de Entulhos (URE), localizada no Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA), próximo à Estrutural. O estudo apontou a necessidade de recomposição da cobertura vegetal na área. Essa falha também é classificada pelo órgão regulador como uma inconformidade de alto impacto, já que a ausência de vegetação adequada nessas inclinações afeta a estabilidade das áreas de descarte e eleva o risco de erosão.

O relatório também informa que, em 2025, a Adasa aplicou três multas por descumprimentos de normas ambientais no valor total de R$ 175.563. A reportagem entrou em contato com a Adasa mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.


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Fonte
Brasil de Fato
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