A Parada LGBTQIA + de Belo Horizonte foi realizada neste domingo (19), no centro da capital mineira. Diante da manifestação, o Brasil de Fato MG conversou com Soraya Menezes, uma das responsáveis pela organização da primeira parada da cidade, realizada em 1997.
A 27ª edição ocorreu com o tema “Democracia: nosso voto, nossas vidas”, celebrando também os 25 anos do Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual e Identidade de Gênero de Minas Gerais (Cellos-MG). Além de falar sobre a manifestação, Menezes também abordou a luta por direitos LGBTI+ no Brasil, conquistas legais já obtidas, e também sobre os modos de resistência da população.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG – Quando você olha para essa manifestação em 1997, em que você foi uma das precursoras do movimento aqui na cidade, quais eram os principais objetivos daquele ato naquele momento e o que mais mudou? E também o que permanece igual em relação a essa manifestação?
Soraya Menezes – Uma das primeiras coisas é visibilizar nossa existência. Porque quem não existe não pode reivindicar nada. O movimento não tinha visibilidade. Então, pensamos em colocar nas ruas os nossos corpos e dizer que nós estamos aqui e queremos políticas públicas para a nossa comunidade. Um dos objetivos foi mostrar que a comunidade existia naquela época, porque era uma invisibilidade. Na época, eram os “entendidos”, não tinha essa diversidade de identidades e de diversidades. Mas, enfim, conseguimos colocar na rua. A primeira foi muito tímida, claro, porque até mesmo porque gays e lésbicas não acreditavam que isso poderia acontecer em Belo Horizonte. Muitos me falavam: “Soraya, isso é coisa do Rio, de São Paulo, aqui não pega”. Quer dizer, pegou tanto que a nossa é a terceira maior parada do Brasil, e muito politizada.
E ela já vem com esse viés, de debater a questão tanto da diversidade quanto de classe e de raça, porque nós somos corpos individualizados e estamos em todos os lugares. Nós somos empregadas domésticas, estamos no hospital, estamos em todos os lugares. E a parada queria debater isso: enquanto classe trabalhadora, a diversidade também existia. Até mesmo os sindicatos não tinham esse debate da existência dos LGBTs dentro dos seus locais de trabalho, porque se discutia simplesmente a classe trabalhadora e o salário, mas nessa classe trabalhadora existia um corpo. Que iam para além do trabalho com os seus sofrimentos pela opressão em questão da sua sexualidade. E esse debate tinha que vir pautado na sociedade também.
Então, a parada conseguiu visibilizar isso, porque hoje nós temos várias conquistas graças a vários corpos que se colocaram nessa luta nas ruas. Hoje, quando eu vejo a parada com mais de 300.000 pessoas, eu devo confessar que fico muito emocionada, porque é uma parte de mim que diz: “olha, cumpriu-se”. Várias conquistas que nós tivemos e que nós temos foram porque nós fomos às ruas, falamos que nós existíamos e nós reivindicamos os nossos direitos.
Como ativista lésbica, como você avalia a visibilidade das mulheres lésbicas dentro do movimento LGBT de maneira geral, ao longo desses 27 anos? A gente tem avanços o suficiente ou ainda tem pautas que permanecem invisibilizadas?
Ainda tem pautas que permanecem invisibilizadas. Mas eu acho que teve avanço, claro, porque nós estamos em progresso. Se a gente regredisse, quer dizer que a gente não está andando. Mas tivemos alguns progressos. Enquanto mulheres, nós tivemos um retrocesso muito enorme, haja vista os feminicídios que estão acontecendo. A gente abre o jornal e vê quantas mulheres estão tendo seus direitos violentados e sendo assassinadas de uma forma cruel, e a gente não pode banalizar essas violências. Enquanto mulheres, e mulheres lésbicas, e quando somos negras, ainda há uma opressão muito enorme.
Ainda no movimento gay tem que se discutir a questão do machismo e as outras questões. Assim como no movimento negro tem que discutir a questão da homofobia, no movimento homossexual tem que se discutir a questão do racismo. São setores oprimidos que precisam se unir contra toda forma de opressão, porque só assim a gente vai vencer. Não é legal um setor oprimido oprimir um outro setor oprimido; quem ganha com isso são os capitalistas, são aqueles que detêm o poder e aqueles que nos negam vários direitos que a gente está há anos reivindicando, e que agora estão até ameaçando retirar o que nós já conquistamos. Então, temos que unificar essas lutas.
Este ano, o tema da parada LGBT é “Democracia: nosso voto, nossas vidas”. E esse tema, inclusive, foi escolhido a partir de uma consulta que o Cellos fez à população. Queria que contasse a importância de falarmos de democracia e de pautarmos a parada a partir da democracia quando estamos falando dos direitos das pessoas LGBT.
Eu acho que foi de suma importância. Eu acompanhei a votação e estava torcendo para que fosse esse o tema, porque dá uma abertura para o diálogo. Nós estamos em ano de eleição e sabemos muito bem que temos que saber votar naqueles que serão nossos aliados, naqueles que vão junto com a gente, e não naqueles que pegam uma bandeira LGBT na época de eleição, mas chegam lá e votam contra todos os nossos direitos, inclusive direitos trabalhistas.
Então, o debate central é: nós não vamos votar em um candidato apenas por ele ser gay, não vamos votar em uma candidata apenas por ela ser lésbica ou transexual, mas em quem tem um compromisso com a pauta da luta da classe trabalhadora. Uma pauta que vá ao encontro dos nossos anseios, porque a gente não é só lésbica, a gente não é só gay, a gente não é só trans; a gente tem uma vida de trabalho e uma vida para além disso.
Este tema é muito importante porque ele faz um diálogo. Uma outra coisa que notamos muito bem é como as pessoas ainda não concebem a ideia das diversidades no espaço de poder. Por exemplo, uma mulher trans no espaço de poder com igualdade de voto e de voz; ainda não se concebe isso. Haja vista o quanto a Erika Hilton é atacada, o quanto a Duda Salabert é atacada, e a Juhlia Santos também. E a gente não pode esquecer das lésbicas: a Bella, a primeira vereadora lésbica assumida em Belo Horizonte, o quanto ela não foi ameaçada; a Moara, bissexual, lá em Contagem. Nós temos os nossos corpos e temos que ir ao encontro das nossas lutas.
Esse debate é importante porque, muitas vezes, a pessoa está sofrendo opressão na sociedade e está votando naquele que vai oprimir, naquele que vai negar esses direitos. Aí a gente vai falar: “olha, nós vamos votar para aqueles, para aquelas, todes e todas que vão lutar por nós”. Porque nós merecemos. Nós queremos todos os nossos direitos, e esse tema debate isso de forma excelente.
Frequentemente, temos visto um aumento de pautas antitrans no próprio Legislativo, que pessoas do campo da extrema direita estão tentando aprovar. Dentro do próprio movimento LGBT existe ainda uma dificuldade muito grande de lidar com a pauta das pessoas trans, e elas acabam estando na linha de frente quando a gente fala de democracia. Se a gente quer defender a democracia, a gente precisa defender as pessoas trans. Pode comentar sobre isso?
Eu acho que as mulheres trans estão sendo atacadas; inclusive, não querem nem deixar que elas se candidatem. Isso demonstra o medo do avanço do poder e da retórica que vem carregada, principalmente, com essas mulheres trans. Haja vista que a Erika Hilton puxou a luta contra a escala 6×1. Então, ela trouxe essa e muitas outras pautas importantes em relação aos trabalhadores, não se limitando apenas à pauta LGBT, assim como a Duda e a Juhlia.
As mulheres LGBTQIA+ que estão lá pegam pautas mais amplas que, com certeza, vão nos beneficiar. Por exemplo, a Bella pauta a questão da moradia. Quantos e quantos LGBTs estão agora em situação de rua? Então, temos que abraçar essas pautas. E, claro, tem que se saber o lugar de fala. Essas parlamentares se colocam no seu lugar de fala, enquanto LGBTQIA+ assumidas, e, ao mesmo tempo, lutam por moradia, lutam contra essas questões da mineração que também vão afetar a nossa comunidade, porque nós não somos seres de outro mundo em que nada nos afeta. A empregabilidade e o meio ambiente nos afetam.
Vemos que essas pautas estão muito em voga. Há um crescente número de mulheres trans na política. Por quê? Porque têm credibilidade. Ao mesmo tempo em que essa sociedade se mostra homofóbica, eles elegem essas mulheres porque confiam no trabalho delas. Há uma dualidade de sentimentos: eles confiam na capacidade delas de trabalhar, senão não seriam eleitas. Temos agora vários espaços no Brasil sendo ocupados por mulheres trans, mulheres lésbicas e homens gays assumidos. Sem contar que há um apelo muito grande pedindo para a Erika ser candidata a presidente, e isso não é pouca coisa.
Falando ainda sobre a diversidade dentro da própria sigla, como você vê a presença das gerações mais novas com a luta e com a parada LGBT? Você acha que essas pessoas estão acessando mais esses processos de mobilização social? Você acredita que ainda falta um pouco para conseguirmos abarcar todas as gerações juntas lutando pela mesma pauta?
Devo dizer para você que eu sou de uma geração que lutou e conquistou muitas coisas. Nós lutamos muito, e várias dessas conquistas foram graças também à geração que me antecedeu, que fundou, por exemplo, o primeiro grupo do “Somos”, o jornal “Lampião da Esquina”, entre outros. Tivemos muitas conquistas. Aqui em Minas Gerais, nós temos a Lei 14.170. Nós conseguimos o reconhecimento da união estável, que agora se transformou em casamento realizado no cartório. Não foi uma luta apenas legislativa, mas no Judiciário, e nós conseguimos. Temos a questão do registro do nome para as mulheres trans e os homens trans.
Eu vejo que essa nova geração tem a missão de manter o que nós já conquistamos. Porque há uma onda tentando retirar todos os nossos direitos. Uma tarefa muito grande dessa geração é lutar para que nada seja perdido. Vira e mexe há uma ameaça de retirada dos nossos direitos, como quando tentam impedir as mulheres trans de se candidatarem, o que é um absurdo. Esta geração tem que ter um compromisso de manter o que conquistamos, e daqui para a frente conquistar mais, mas principalmente não deixar que retirem nada.
De uns tempos para cá, tivemos um retrocesso. Há uma banalização quando uma mulher trans é assassinada em plena luz do dia, nós não podemos achar isso normal. Quando uma mulher lésbica sofre um estupro corretivo. Quando um homem gay é assassinado de maneira cruel. Eu vejo isso com muita preocupação no coração: a quantidade de mulheres trans sendo assassinadas. A sociedade tem que se indignar, tem que correr atrás e fazer um movimento muito grande. Ao mesmo tempo em que avançamos, estamos andando para trás em alguns aspectos.
A tarefa dessa nova geração é entender isso. Se eles estão beijando, se estão na rua de mãos dadas… Para beijar, a gente nunca pediu autorização. Há vários séculos que existe a homossexualidade e nós não pedimos permissão para beijar ou ir para a cama. A gente lutou pelos nossos direitos enquanto cidadãos, pagadores de impostos que queremos o que é nosso. Mas eles têm que ver que existiu uma luta para que essa liberdade se tornasse real, e ela ainda é uma “liberdade entre aspas”, porque ainda há muito preconceito e violência. A luta de agora é manter o que já conquistamos.
Quais são os seus espaços de sociabilidade favoritos hoje aqui em Belo Horizonte? Por que é importante continuarmos tendo esses espaços?
Eu sempre tive a visão de que os nossos espaços têm que ser onde nós decidirmos estar. À medida que você vai “guetizando”… Eu sou da época da Rua da Lama. A gente ia para a Rua da Lama, ficava onde se sentia à vontade, mas era como se dissessem: “vocês vão ficar aqui”, num isolamento social.
Os espaços nos quais eu me sinto confortável são qualquer lugar em que eu esteja com a minha companheira, e onde eu seja respeitada enquanto lésbica, enquanto mulher casada, e na minha sexualidade. Eu nunca gostei dessa questão de: “eu vou para uma boate para poder beijar, eu vou para um lugar específico para ficar”. É por isso que temos a Lei 14.170 aqui em Minas Gerais, que nos garante isso. É uma dualidade você precisar de uma lei para se sentir à vontade para beijar, mas infelizmente ainda precisamos, pois vivemos numa sociedade machista e homofóbica.
Se você estiver sentada num restaurante beijando a sua companheira e algum garçom te chamar a atenção, você pode acionar a polícia e fazer um boletim de ocorrência. O estabelecimento pode ser fechado ou pagar uma multa de 5 a 50 mil reais.
E poucas pessoas sabem dessa lei. Antes, quando uma mulher ia para um motel com outra mulher, ou um homem com outro homem, o local cobrava o dobro. Hoje isso não é permitido; temos uma lei que nos garante. Se houver alguma promoção como “casal pode vir na praça de rodízio”, agora pode ser um homem com outro homem ou uma mulher com outra mulher, o que antes não podia. E se vocês forem barrados, podem acionar a polícia, fazer um boletim de ocorrência e processar o estabelecimento.
Nós podemos ter a nossa afetividade em todos os lugares que quisermos, seja no shopping ou na rua. E se tentarem nos coagir a não fazer isso, temos uma lei que nos garante, a 14.170. Quem não conhecia, pode começar a utilizá-la.
Para finalizar a nossa conversa, deixe uma mensagem para quem vai participar pela primeira vez nas ruas, neste domingo, da parada LGBT de Belo Horizonte.
A parada tem uma potência muito grande, uma potência de visibilidade. É mais do que uma festa. Também é uma festa, porque o nosso movimento é festeiro e nós gostamos, mas estamos ali principalmente para reivindicar.
No dia 18, a concentração será a partir das 12 horas para a Segunda Marcha das Mulheridades, que envolverá mulheres trans, mulheres lésbicas, enfim, todas as mulheridades. Também teremos o Festival Fuzuê, na Serraria Souza Pinto. Os ingressos já estão disponíveis no Instagram e nas redes sociais do Cellos, e vai ser um evento maravilhoso e forte. E no dia 19, teremos a nossa belíssima parada, que vai sair reivindicando, com um tom político, mas sem deixar de ser festiva. Eu acho que é nesse espírito.
