Pesquisa revela os desafios gerados pela desinformação no trabalho de profissionais de saúde

20/07/2026 às 13:500 visualizações
Os profissionais de saúde da Atenção Primária a Saúde relatam o desafio recorrente de corrigir mensagens falsas que chegam por aplicativos de mensagens e mídias sociais, muitas vezes encaminhadas “por alguém de confiança” (um parente, um vizinho, um líder comunitário).
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Os profissionais de saúde da Atenção Primária a Saúde relatam o desafio recorrente de corrigir mensagens falsas que chegam por aplicativos de mensagens e mídias sociais, muitas vezes encaminhadas “por alguém de confiança” (um parente, um vizinho, um líder comunitário). Imagem gerada por IA/ChatGPT
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil

A desinformação em saúde não é apenas “ruído” digital. Ela se traduz em atrasos de diagnóstico, abandono de tratamento e conflitos dentro das famílias. Além de decisões clínicas mais difíceis no dia a dia porque chega ao atendimento já “pronta”, embalada em linguagem emocional e em formatos fáceis de compartilhar.

Na porta de entrada dos sistemas de saúde, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS), essa onda ganha um efeito amplificador. Aquilo que circula em grupos de WhatsApp e mídias sociais aparece, poucas horas depois, no balcão da unidade, na visita domiciliar ou na sala de vacinação.

É justamente na APS que o vínculo entre profissionais e comunidade tende a ser mais estável. Agentes Comunitários de Saúde (ACS), enfermeiros e médicos de família não lidam apenas com sintomas e exames, lidam com confiança. E confiança é um insumo essencial para qualquer política pública em saúde.

Quando a informação falsa se espalha, ela não só confunde, ela reorganiza prioridades, desestrutura rotinas e fragiliza a autoridade técnica de quem orienta a população.

Um estudo comparado com países de língua portuguesa e espanhola, incluindo Angola, Argentina, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Espanha, Guiné-Bissau, México, Moçambique, Peru, Portugal e São Tomé e Príncipe, descreve como a desinformação desafia simultaneamente a gestão do conhecimento e a confiança nas autoridades sanitárias.

Ao olhar para diferentes contextos sociopolíticos e níveis de acesso digital, a análise ajuda a entender por que, em certos lugares, a desinformação “cola” com mais facilidade e como ela reconfigura o trabalho das equipes de saúde.

Onde a ciência encontra o território

Participamos do projeto Estudos Comparados sobre a Desinformação em Saúde, coordenado pelo Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde da Universidade de Brasília (ECoS/UnB), uma rede nacional e internacional, e fomos investigar a comunicação na Atenção Primária. Entre as instituições brasileiras que participam do projeto as universidades do Estado do Rio de Janeiro e as federais de Goiás, Paraíba e do Vale do São Francisco.

Em grandes hospitais, a circulação de informação costuma estar mediada por protocolos, equipes numerosas e estruturas formais de comunicação. Na Atenção Primária, a lógica é outra. A infraestrutura cognitiva do sistema de saúde se organiza perto da vida cotidiana. A orientação, educação em saúde e validação de informações deveriam ocorrer de forma contínua, personalizada e ancorada na realidade local.

Na prática, porém, nosso estudo indica fragilidades importantes. Uma delas é a exposição diária dos profissionais no território. Os profissionais de saúde da Atenção Primária relatam o desafio recorrente de corrigir mensagens falsas que chegam por aplicativos de mensagens e mídias sociais, muitas vezes encaminhadas “por alguém de confiança” (um parente, um vizinho, um líder comunitário).

Quando a informação falsa vem carregada de medo ou indignação, a correção factual, sozinha, costuma ser insuficiente. É preciso escuta, habilidade de conversa e tempo, recursos mais escassos em serviços sobrecarregados.

Outra fragilidade é o déficit de literacia (letramento) informacional e digital. Muitos profissionais usam intensamente a internet para se atualizar, mas relatam insegurança ao avaliar a confiabilidade de fontes na web.

Isso é relevante porque desinformação não se reconhece apenas pelo “conteúdo” (o que é dito), mas também pela forma de circulação (quem publica, como é compartilhado, quais sinais de credibilidade são simulados).

Em outras palavras, não basta ter acesso à informação, é necessário ter repertório para julgar a qualidade do que se lê, vê e escuta.

Por que a vacinação vira alvo preferencial

Um achado que atravessa países e cenários é o epicentro vacinal, em que imunizantes surgem como os principais tema da desinformação, alimentando hesitação vacinal por meio de narrativas de medo, suspeita e desconfiança institucional.

Há razões estruturais para isso. Vacinas são intervenções coletivas (dependem de adesão ampla), envolvem crianças (o que mobiliza emoções fortes), são aplicadas em campanhas de massa (visíveis e politizadas) e, frequentemente, exigem confiança em instituições científicas e governamentais.

Quando uma corrente diz que “a vacina faz mal”, “não foi testada”, “tem interesses ocultos” ou “causa efeitos graves”, não precisa provar nada com rigor. Basta introduzir dúvida suficiente para adiar a decisão.

Esse adiamento, em escala populacional, reduz coberturas vacinais e reabre espaço para doenças já controladas. Esse cenário provoca impacto direto sobre a segurança do paciente e a capacidade de resposta do sistema.

Risco de desinformação e literacia em saúde

Para além de relatos, a pesquisa buscou mapear um “Risco de Desinformação” (R) ao cruzar dados de circulação de notícias com níveis de literacia em saúde. A ideia é simples, mas poderosa. A probabilidade de dano não depende apenas do volume de conteúdo enganoso, e sim da capacidade de pessoas e instituições reconhecerem, filtrarem e responderem a esse conteúdo.

No recorte apresentado, aparecem países com alto risco, como a Argentina (R=0,92), onde a polarização e a desconfiança institucional intensificam a vulnerabilidade informacional. A Colômbia também surge com alto risco (R=0,74), com necessidade de estratégias mais direcionadas a populações vulneráveis. Portugal aparece com risco médio (R=0,54) e apesar de literacia moderada, há carência de foco em competências digitais específicas para saúde.

O Brasil figura como risco médio (R=0,52), mas com um detalhe crítico que são os baixos níveis de literacia na população. Com isso, tendem a transferir para o agente de saúde o papel de “tradutor” permanente do conhecimento científico.

Ler esses números como ranking seria pouco produtivo uma vez que o valor analítico está em mostrar que a vulnerabilidade é multifatorial e envolve contexto político, confiança nas instituições, desigualdade educacional, características do ecossistema digital e qualidade da comunicação pública.

O indicador funciona como um termômetro para orientar prioridades onde reforçar formação profissional, investir em comunicação oficial, intensificar monitoramento e onde aproximar ciência e comunidade.

Elo frágil: a experiência do usuário nos sites oficiais

Um resultado particularmente revelador do estudo é que, em muitos casos, os próprios sites oficiais do Ministério da Saúde falham em oferecer resposta rápida e utilizável quando a população procura orientação.

Problemas de navegabilidade, atualização irregular e falta de clareza tornam essas plataformas pouco atraentes no momento em que o usuário precisa de uma resposta simples e imediata.

O efeito é quase paradoxal. Quanto mais confuso e lento é o canal oficial, maior a chance de a pessoa voltar para onde a resposta “parece” mais acessível, as redes sociais e os aplicativos de mensagens. Justamente onde a desinformação circula com mais velocidade.

Esse ponto tem implicações práticas. Enfrentar a desinformação não é apenas publicar notas técnicas ou desmentidos. É desenhar caminhos de acesso à informação confiável que sejam tão fáceis de usar quanto as mensagens enganosas.

Se a notícia falsa chega em um áudio curto, o contraponto oficial precisa existir em formato compatível com o cotidiano em linguagem clara, respostas diretas, materiais compartilháveis, orientação por etapas e atualização rápida.

O que os profissionais fazem quando recebem uma fake news

No Brasil, dados coletados evidenciam comportamentos variados entre profissionais diante de conteúdos falsos. Uma parcela significativa relata ações proativas. Mais de 30% afirmam que, ao receberem uma informação falsa, apagam o conteúdo e alertam quem o compartilhou, numa tentativa de interromper a cadeia de encaminhamentos.

A maioria (51,2%) diz verificar previamente se o site que publicou a notícia é fonte confiável antes de agir, o que indica a busca por critérios de validação. E sinaliza uma demanda por instrumentos mais objetivos, rápidos e padronizados para checagem. Há ainda uma fração menor (aproximadamente 9,9%) que adota postura passiva e apenas ignora a mensagem, sem apagar ou repassar.

Essas respostas não devem ser lidas como “certas” ou “erradas” isoladamente. Elas refletem condições concretas de trabalho em relação ao tempo disponível, clareza de protocolos, formação para avaliação crítica de fontes e, sobretudo, suporte institucional.

Sem diretrizes claras, o enfrentamento vira uma tarefa individual e, no limite, desigual, acaba dependendo do repertório e da disposição de cada profissional.

O estudo converge para uma conclusão central: desinformação não se enfrenta apenas com correção factual.

A disputa é também por confiança, por tempo de atenção e por capacidade institucional de responder com agilidade. Nesse contexto, fortalecer competências profissionais torna-se tão importante quanto aprimorar canais oficiais de comunicação.


Esta pesquisa recebeu apoio financeiro da Faperj, CNPq e a publicação deste artigo contou com apoio da Capes.

Imagem do artigo

Mercedes de Oliveira Neto recebe financiamento da FAPERJ e UERJ.

Ana Valéria Machado Mendonça recebe financiamento do CNPq/Brasil.

Mary Hellem Fonseca Pimentel e Natália Fernandes de Andrade não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

Fonte
The Conversation Brasil
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