‘Coleção de frustrações’: historiadora esportiva analisa como a geopolítica e o capital ditaram a Copa de 2026

Por BdF Entrevista20/07/2026 às 23:531 visualizações
EAST RUTHERFORD, NEW JERSEY - JULY 19: Players of Spain celebrate with the trophy after winning the 2026 FIFA World Cup during the FIFA World Cup 2026 Final match between Spain and Argentina at New York New Jersey Stadium on July 19, 2026 in East Rutherford, United States. Evrim Aydin / Anadolu (Photo by Evrim Aydin / Anadolu via AFP)
EAST RUTHERFORD, NEW JERSEY - JULY 19: Players of Spain celebrate with the trophy after winning the 2026 FIFA World Cup during the FIFA World Cup 2026 Final match between Spain and Argentina at New York New Jersey Stadium on July 19, 2026 in East Rutherford, United States. Evrim Aydin / Anadolu (Photo by Evrim Aydin / Anadolu via AFP)
Brasil de Fato

Título da Espanha comemorado em Gaza, vaias a Trump e Infantino: até o último jogo, a Copa do Mundo de 2026 foi marcada por questões geopolíticas. Ao BdF Entrevista, a historiadora do esporte, Aira Bonfim, analisou os impactos da espetacularização, a ascensão das bets e o fenômeno dos “filhos da diáspora” nos gramados, que rendeu debates sobre racismo.

“O fazer esportivo é político, e, num megaevento dessa magnitude, em que cada passo, cada estratégia, cada decisão, cada retirada de cartão vermelho, ela também é igualmente política e passa a ser intensamente discutida nas redes sociais”, destaca.

Para Bonfim, o atual modelo da FIFA prioriza a comercialização no lugar da experiência esportiva e do tratamento dispensado às seleções e torcedores. Ela define esta edição como uma “coleção de frustrações”.

A historiadora ressalta que a escolha dos Estados Unidos como sede principal reflete o desejo da Fifa de modernizar o espetáculo por meio de uma lógica puramente econômica, o que inclui a ampliação do número de seleções e a criação de tempos de hidratação que funcionam também como pausas comerciais.

“Aumentar a quantidade [de seleções], aumentar uma semana de evento, você nota que o intuito não é geopolítico, mas é um intuito econômico exclusivamente”, avalia.

A competição também escancarou tensões políticas, desde revistas vexatórias a jogadores africanos até a proibição de entrada do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan nos EUA. Outro ponto marcante da edição foi o aumento considerável de atletas filhos de imigrantes, especialmente em times europeus, que a pesquisadora chama de “diásporas em campo”. Segundo ela, quase metade da composição das seleções atuais possui origens migratórias ou de refúgio, desafiando discursos de pureza nacionalista da extrema direita.

“Isso fica muito nítido dentro desse contexto e de um contexto que não está desconexo com uma realidade, principalmente dessas grandes nações, desses grandes centros econômicos, como a própria Europa, onde a extrema direita tem aviltado e acendido um debate em relação a uma falsa identificação nacionalista, como se houvesse um fenótipo ou um ser nacional ideal contra comunidades imigrantes, comunidades refugiadas, sendo que essas paredes divisórias do que é ser e não ser de uma nação, hoje, elas são extremamente contraditórias. A composição dessas nações é feita por pessoas que se deslocam, seja de forma obrigatória, por uma necessidade, seja por uma escolha de vida. Então, não existe essa pureza defendida por alguns grupos políticos que, inclusive, têm ascendido ao poder”, destaca.

Sobre a escolha de jogadores em representar os países de origem de seus pais ou avós, a historiadora vê um ato político. “Com certeza, eu acho que é um momento de trazer visibilidade para essas nações. A diáspora é uma violência quando você é obrigado a sair, mas a cultura diaspórica é como você transforma a sua cultura de origem a partir do local onde você está”, argumenta.

Outro aspecto abordado na entrevista foi a onipresença das casas de apostas, as famosas bets, em propagandas na competição e na mídia que transmite os jogos. Aira Bonfim descreve a situação como um “alerta vermelho”, especialmente pelo impacto nas crianças que crescem relacionando o futebol ao jogo de azar e, recentemente, até a patrocínios ligados à prostituição, em referência ao recente acordo envolvendo o Corinthians e a Fatal Fans, plataforma de conteúdo adulto. Ela aponta que esse “envenenamento” pelo capital atinge tanto o âmbito privado quanto o público.

“Hoje, em São Paulo, se você pega um ônibus público, as cadeiras desses ônibus estão com uma divulgação de bets que estão diretamente vinculadas a um patrocínio com a Prefeitura de São Paulo. Quando você desce dentro de um terminal de ônibus, você vai ter painéis de divulgação de bet também que foram autorizados em parceria com a Prefeitura de São Paulo. Então, não é só o âmbito privado que está envenenado, mas também o âmbito público. Enquanto a gente já está discutindo que não existe nos campeonatos nacionais um futebol sem a presença de bet, eu acho que logo menos a gente vai ter prefeitura, uma ordem pública de pensar os seus patrocínios ou suas relações de recurso financeiro que vai dizer o mesmo. Ou seja, a gente tem uma atenção que deve ser mediada em qualquer aspecto da nossa sociedade, inclusive do âmbito público”, pondera.

Confira a entrevista completa no link abaixo:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Fonte
Brasil de Fato
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