Não é comum que o presidente dos Estados Unidos solicite às principais redes de televisão que suspendam a programação no horário nobre para transmitir uma mensagem do Salão Oval da Casa Branca.
Quando isso ocorre, é uma ocasião solene, seja para informar à nação de que o presidente decidiu declarar guerra, seja para tentar tranquilizar a população enquanto o país enfrenta uma tragédia nacional. Habitualmente, milhões de pessoas sintonizam para ouvir as palavras tranquilizadoras do chefe do Executivo, que explica uma crise nacional e apresenta uma resposta sensata e ponderada.
Certamente não foi esse o caso na noite de quinta-feira, 16 de julho, quando o presidente Trump falou ao país disparando uma sequência interminável de declarações falsas, acusações infundadas e teorias da conspiração recicladas para justificar sua insistente alegação de que realmente venceu a eleição de 2020 e de que o Estado Profundo (Deep State, em inglês) havia escondido a verdade dele e do país até que ele descobrisse recentemente suas maquinações.
Em certo nível, seu discurso desconexo da nação foi uma diatribe xenófoba contra a República Popular da China, na qual alegou que o país havia interferido nas eleições de 2020. Ele também desferiu mais um ataque infundado contra imigrantes (entendidos como latinoamericanos), sustentando que dezenas de milhares de não cidadãos haviam votado ilegalmente em eleições recentes.
No entanto, seu discurso inflamado parece ter tido outros objetivos. Trump lamentou recentemente que, se os Democratas conquistarem o controle da Câmara dos Representantes nas eleições legislativas de 3 de novembro, iniciarão uma terceira tentativa de impeachment contra o presidente.
Assim, nos últimos meses, Trump pressionou os Republicanos a alterar os limites dos distritos eleitorais para favorecer seu partido em disputas acirradas. Ele apoiou candidatos de extrema-direita contra alguns republicanos críticos de suas políticas nas eleições primárias do Partido Republicano, eliminando a possibilidade de que seus oponentes internos enfrentassem seus rivais democratas em novembro.

Estado de Emergência, ameaça aos correios e agentes do ICE: o plano de Trump para as eleições
Agora, ele faz de tudo para preparar o terreno para interferir na próxima disputa eleitoral. Observadores políticos temem que ele planeje confiscar urnas eletrônicas em distritos eleitorais contestados, alegando fraude eleitoral, ou declarar um “Estado de Emergência” para manipular os resultados das eleições. Ele ameaçou obrigar o Serviço Postal dos EUA a recusar o envio de cédulas de votação por correio (uma prática comum em muitos estados), a menos que governadores democratas entreguem as listas de eleitores para que o Departamento de Justiça possa, supostamente, excluir pessoas cadastradas ilegalmente para votar.
Além disso, apesar da legislação federal que proíbe tal prática, ele parece disposto a enviar unidades da Guarda Nacional — controladas por estados dominados por republicanos — ou agentes federais do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) a distritos onde seus candidatos correm o risco de perder para os democratas, como forma de intimidar os eleitores e impedi-los de irem às urnas.
Em vez de um discurso ponderado para conquistar a confiança do país em relação às suas alegações de insegurança eleitoral, as falas paranoicas de Trump apenas sugerem que ele pretende fazer tudo o que estiver ao seu alcance para roubar as eleições de novembro. Culpar a China, culpar os imigrantes, culpar os democratas: é um discurso conhecido. Inevitavelmente, Trump culpa os outros por aquilo que ele mesmo pretende fazer.
No entanto, exceto por sua base leal — que, como o seguiria até o precipício —, ninguém acredita em sua mais recente leva de mentiras. Duas das três principais redes de televisão recusaram-se a transmitir o discurso. Canais de TV a cabo exibem trechos, mas passam a maior parte do tempo desmentindo suas declarações incorretas e mentiras deslavadas. Embora a Fox News tenha transmitido o discurso completo de 25 minutos, seus comentaristas — geralmente prontos para apoiar cada palavra proferida pelo presidente — recusaram-se, posteriormente, a confirmar a veracidade de suas alegações. No dia seguinte, não deram cobertura ao discurso.
Ao final de sua diatribe, Trump conclamou os republicanos a apoiar o projeto “Lei para Salvar a América” (Save America Act, em inglês), que deveria ter sido chamada de “Lei para Salvar Trump”, pois foi concebida para privar milhões de eleitores de seu direito ao voto — a maioria dos quais democratas ou independentes, inclinados a votar contra os candidatos apoiados pelo presidente.
Embora líderes republicanos no Senado tenham alertado Trump repetidamente de que não possuem votos suficientes para transformar o projeto em lei, ele — como um buldogue teimoso agarrado às calças de um carteiro que tenta entregar correspondência — recusa-se a desistir.

O presidente está em pânico, e tem motivos para isso
Há motivos para Trump estar em pânico, disposto a fazer qualquer coisa — legal ou não — para arrancar uma vitória eleitoral dez dias após o segundo turno das eleições brasileiras. Sua taxa de aprovação está em seu nível mais baixo de todos os tempos: 36% dos entrevistados aprovam e 59% desaprovam sua gestão, um percentual semelhante ao da oposição à guerra no Irã. Sua decisão de retomar os ataques ao Irã provocou uma nova alta nos preços dos combustíveis, elevando ainda mais a inflação e minando sua popularidade.
Especialistas em eleições distinguem dois fenômenos que Trump misturou em um só durante seu festival de mentiras de quase meia hora. O primeiro é apontar um esforço de governos estrangeiros hostis aos Estados Unidos para influenciar os resultados eleitorais; o segundo é falar em uma invasão (hacking) de centenas de sistemas eleitorais para alterar votos ou modificar os resultados reais.
Embora existam tentativas documentadas de potências estrangeiras de influenciar o comportamento de voto dos cidadãos americanos por meio da disseminação de notícias falsas e de campanhas de desinformação nas redes sociais, não há absolutamente nenhuma evidência de que um único voto computado nas eleições de 2020, 2022 ou 2024 tenha sido alterado por quem quer que fosse, seja estrangeiro ou nacional.
Por outro lado, há evidências convincentes de que a Rússia favoreceu Trump nas eleições de 2016 por meio de uma ampla operação destinada a disseminar informações falsas que beneficiariam o atual presidente.
O apelo público de Trump para que a Rússia hackeasse documentos do Partido Democrata resultou na divulgação de informações internas do partido, revelando que sua liderança utilizou a estrutura partidária para favorecer Hillary Clinton em detrimento de Bernie Sanders, o que levou à renúncia da deputada Debbie Wasserman Schultz, chefe do Comitê Nacional do Partido Democrata. O Departamento de Justiça também apresentou acusações contra uma operação clandestina sediada em Moscou, envolvida em tentativas de influenciar o resultado da eleição.
No entanto, após a vitória de Trump em 2016, sua administração não encontrou provas de que um único voto tivesse sido transferido de um candidato para outro. Quando Trump perdeu as eleições de 2020, sua campanha sofreu derrotas em 61 recursos judiciais nos quais alegava que os resultados haviam sido manipulados em seu desfavor. Agora, ele afirma que seus inimigos no “Estado Profundo” — supostamente democratas contrários a Trump — ocultaram essas informações dele durante os primeiros quatro anos de seu governo.

Mentiras sobre o sistema de votação dos EUA
A interferência estrangeira nas eleições não é novidade nos Estados Unidos. Como documentei no livro Apesar de vocês: a oposição à ditadura militar nos Estados Unidos, que seria relançado este ano pela Editora da UNESP, o governo americano agiu da mesma forma nas eleições para governador no Brasil em 1962, gastando cerca de 5 milhões de dólares (o equivalente a 30 milhões de dólares hoje) para apoiar opositores do governo de João Goulart, com resultados variados. Sem dúvida, diferentes administrações dos EUA fizeram o mesmo ao redor do mundo, por meio da CIA ou de organizações de fachada.
No entanto, Trump insistiu que a República Popular da China “comprou, roubou ou obteve por meio de hackeamento” dados de eleitores de 18 estados, sem explicar o que fariam com essas informações.
A imprecisão dessa acusação esconde o fato de que qualquer pessoa — cidadão americano ou não — pode comprar listas de eleitores na maioria dos estados; trata-se de uma prática comum entre candidatos que buscam alcançar o eleitorado por meio de correspondência ou de contato porta a porta. Qualquer um pode obter facilmente nome, endereço, filiação partidária e, em alguns casos, até mesmo saber se a pessoa votou ou não (embora não em quem votou), pois, normalmente, o eleitor comparece à seção eleitoral, apresenta um documento de identidade, assina um registro de eleitores, recebe uma cédula de papel ou vota eletronicamente e, então, vota em uma cabine reservada. Devido à transparência do processo eleitoral, esses registros de eleitores são documentos públicos que qualquer pessoa pode consultar ao dirigir-se ao órgão governamental local responsável pelas eleições.
Após retornar de uma estadia de seis anos no Brasil, entre o final da década de 1970 e o início da de 1980, eu morei na Califórnia, onde concorri a uma vaga na Câmara dos Representantes pelo Peace and Freedom Party (Partido da Paz e Liberdade), um partido independente de esquerda fundado em meio às agitações políticas do final dos anos 1960. Cheguei a obter 5% dos votos em 1982. No entanto, em um sistema eleitoral dominado por dois partidos e sem representação proporcional, meus resultados foram, na melhor das hipóteses, bastante simbólicos.
Ainda assim, minha campanha eleitoral adquiriu dados de eleitores do meu distrito — que abrangia Hollywood — e entrou em contato com eleitores democratas para verificar se estariam dispostos a dar um voto de protesto à Peace and Freedom Party, em apoio ao nosso programa social-democrata. Imagino que os chineses poderiam tentar fazer o mesmo, mas não tenho certeza de quão eficazes seriam seus esforços.
Em seu discurso, Trump alegou que mais de 278 mil não cidadãos (leia-se: latinos sem documentação) votaram em eleições recentes, sem apresentar qualquer prova. Organizações respeitadas que monitoram a segurança eleitoral relatam repetidamente que praticamente não há fraudes cometidas por pessoas inelegíveis para votar.
Mais uma vez, minhas próprias experiências na Califórnia confirmam esses estudos rigorosos. Em alguns estados, é necessário obter um número mínimo de assinaturas de membros do seu partido para se tornar elegível como candidato. Como o Peace and Freedom Party era uma organização política minúscula e pouco expressiva, com membros espalhados pelo distrito, era muito mais eficiente ficar na frente de um supermercado, perguntando às pessoas se gostariam de se filiar ao partido e de assinar uma petição de candidatura, já que qualquer eleitor tinha o direito de cadastrar novos membros. Dessa forma, conseguimos obter as assinaturas necessárias.
Ocasionalmente, descobríamos que uma pessoa simpática e bem-intencionada, mas que não era cidadã americana e não compreendia bem as regras eleitorais, queria preencher a ficha de inscrição. Ao percebermos isso, cancelávamos a assinatura e rasgávamos o cartão de filiação. Duvido que qualquer uma das pessoas que afiliamos acidentalmente tenha chegado a votar. Se isso aconteceu, foi com um número ínfimo de pessoas, como apontaram especialistas em suas pesquisas.
Então, o que Trump está tramando? É fácil demais concluir que ele está simplesmente perdendo a sanidade mental. Mas a situação é mais nefasta do que isso. Trump tem um medo enorme de perder as eleições de novembro e de que a Câmara dos Representantes — e talvez o Senado — assumam o poder legislativo para iniciar investigações sérias sobre como ele conseguiu realizar transações financeiras questionáveis no valor de 2,2 bilhões de dólares logo no primeiro ano de seu novo mandato. Ele teme que o Congresso force a divulgação de mais documentos relacionados ao caso Epstein. Entra em pânico só de pensar que seus negócios escusos com aliados do Oriente Médio possam vir à tona.
Por isso, ele está preparando sua base de apoio — incluindo as 1,5 mil pessoas que invadiram o Capitólio e que ele posteriormente perdoou, bem como as milícias nacionalistas brancas que lhe são leais — para atuarem como tropas de choque em defesa de quaisquer medidas autoritárias que ele tente implementar para manter o controle do Congresso. Trump detesta a ideia de ser um perdedor e fará tudo o que estiver ao seu alcance para evitar esse destino.
