
O dicionário Michaelis Online define “namoro” como uma “relação amorosa, geralmente estável, entre duas pessoas”, mas, na nova mostra do Cinema da USP Paulo Emílio (Cinusp), nenhuma relação romântica se limita a um par. Em Três é Demais, são apresentados 14 longas e um curta-metragem que tratam da poligamia. “Nosso interesse não era apresentar filmes sobre traição, mas explorar a maneira como os relacionamentos podem se construir a partir de três pessoas”, conta Francesco Felix, um dos curadores da mostra, que fica em cartaz até 2 de agosto nas salas do Cinusp no Centro Cultural Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária, e no Centro MariAntonia, na Vila Buarque, em São Paulo. A programação completa está disponível no site do Cinusp. A entrada é grátis.
Segundo Felix, a ideia estava “guardada na gaveta há tempos”. Os curadores decidiram exibi-la agora porque, diante do curto tempo disponível – apenas duas semanas, quando normalmente as mostras do Cinusp têm quatro semanas de duração –, viram a oportunidade de fazer uma brincadeira e apresentar três filmes por dia, em vez de dois, como sempre ocorre. Desta vez, além das tradicionais sessões das 16 horas e das 19 horas, há também a sessão das 21 horas – com exceção dos finais de semana e dos dias 23 e 29 de julho.
Filmes não faltaram. “O ser humano sempre gostou muito de histórias de romance. Qualquer relação a dois está sujeita a encontrar um terceiro elemento que vai mudar a dinâmica do relacionamento”, diz Felix, justificando a grande quantidade de peças sobre o tema. Apesar de a maioria dos filmes retratar uma moça e dois homens, as mulheres ganham destaque na exibição. “Quando se trata de um mulher e dois homens, tem muita discussão sobre a masculinidade dos caras e sobre como a mulher está determinando isso. Quando é o oposto, duas mulheres e um homem, a feminilidade fica em evidência”, destaca o curador.
Para Felix, o tema do relacionamento a três é abordado há muito tempo no cinema. “A mostra tem filmes antigos e outros mais recentes. Por isso, conseguimos ver como o cinema e, por consequência, como a sociedade lidava com os triângulos amorosos”, diz o curador. “Antes, esses triângulos eram escandalosos, dramáticos, proibidos. Hoje, é mais sobre liberdade, fluidez das coisas.”

Ménage à trois
Uma das peças exibidas na mostra é o filme francês A Mãe e a Puta (1973), dirigido por Jean Eustache. Nele, Alexandre é um jovem intelectual que vive uma vida ociosa de debates políticos entre amigos. Cabe à sua namorada, Marie, com quem vive um relacionamento aberto, sustentá-lo. Enquanto isso, encontra em Veronika a aventura do sexo casual. Em cerca de três horas e meia, a narrativa desenvolve o relacionamento entre os três que, em determinado momento, decidem fazer um ménage à trois – expressão que significa “família de três” e se refere a uma relação afetiva e sexual entre três pessoas. “Cada um dos protagonistas é bem dono de sua própria história, de seus próprios sentimentos. A namorada, por exemplo, como ela lida com a presença dessa amante?”, comenta o curador. O nome da peça é baseado em estereótipos machistas usados para descrever dois “tipos de mulheres”, expressos nas duas personagens. “A mostra tem muitos filmes produzidos na França. Acredito que seja uma dinâmica bem dos franceses, a dos ménages, mas todas as produções são diferentes entre si e abordam os trisais de maneiras diversas”, acrescenta Felix.

Outro filme presente na mostra, Já Não Ouço a Guitarra (1991), de Philippe Garrel, adota um tom mais melancólico. Baseado no relacionamento do diretor com a cantora e atriz alemã Nico, ele conta a história de Gerrard, que é abandonado por sua amada. Entre idas e vindas, ele encontra estabilidade ao lado de outra mulher, mas seu antigo amor ainda não acabou. “Nesse caso, a triangulação se traduz como falta de compromisso. É sobre um sentimento muito verdadeiro entre duas pessoas, que nunca consegue se concretizar.”
Ciúme à Italiana (1970), de Ettore Scola, por outro lado, trata do assunto de forma cômica. Numa pizzaria, o casal Oreste e Adelaide conhece o cozinheiro Nello, que prepara para os dois uma pizza em forma de coração. Esse gesto faz a garota se apaixonar pelo cozinheiro e, apesar do ciúme inicial do namorado, com o tempo os três desenvolvem um relacionamento juntos. A obra também trata do cenário político italiano da época, marcado por intensa agitação social e crescimento do Partido Comunista. A relação entre os personagens é fortalecida em manifestações políticas. “Adelaide é interpretada por Mônica Vitti, uma grande atriz italiana”, ressalta Felix.

Anna Karina, símbolo da Nouvelle Vague – movimento cinematográfico francês das décadas de 1950 e 1960 que queria romper com o cinema comercial através de filmagens em locações reais e com iluminação natural –, é outra estrela presente na mostra. Em Uma Mulher é Uma Mulher (1961), de Jean-Luc Godard, ela interpreta uma dançarina de cabaré que descobre que seu namorado não quer ter um bebê. Ela é encorajada por ele a procurar um de seus amigos, a fim de realizar o desejo de ser mãe. Quando esse amigo diz sim, todos os relacionamentos se complicam.
Sócios no Amor (1933), de Ernst Lubitsch, e Rivais (2024), de Lucas Guadagnino, tratam de histórias em que dois amigos se apaixonam pela mesma mulher e, ao mesmo tempo, desenvolvem uma relação entre si. No primeiro, dois amigos artistas conhecem Gilda numa viagem de trem. A menina não consegue escolher entre os dois e o trio resolve viver um amigável relacionamento platônico. Já no segundo, a tenista aposentada Tashi usa sua sensualidade e a rivalidade de seu marido com seu ex-namorado para melhorar a performance atlética de seu companheiro.

A nova mostra do Cinusp conta também com um filme brasileiro, Sangue Mineiro (1929), do diretor Humberto Mauro. Depois de perder seu pai, Carmem – a protagonista da obra – é criada ao lado de Neuza pelo capitalista Juliano Sampaio. Numa noite de São João ela vê o homem que ama com sua irmã de criação e deseja se suicidar. O Cinusp exibe uma cópia nova da peça em parceria com a Cinemateca Brasileira, com 7 minutos inéditos e qualidade melhor que a original.
Serão exibidos também O Amor é Mais Frio que a Morte (1969), de Rainer Fassbinder – que será apresentado com o curta O Noivo, a Comediante e o Cafetão, de Jean-Marie Straub -, o soviético Conhecendo o Grande e Vasto Mundo (1978), de Kira Muratova, e o mexicano E a sua Mãe Também (2001), de Alfonso Cuarón.
A mostra Três é Demais, do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), está em cartaz até o dia 2 de agosto nas salas do Cinusp instaladas no Centro Cultural Camargo Guarnieri (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, em São Paulo) e no Centro MariAntonia (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, em São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. A programação completa da mostra e mais informações estão disponíveis no site do Cinusp.
* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro





