

Segundo um levantamento do Observatório Global do Câncer, da Organização Mundial da Saúde, o câncer colorretal representa 10% de todos os tipos de câncer, com 1,9 milhão de novos casos anuais e 935 mil mortes. É o segundo tipo mais comum da doença, atrás somente do câncer de pele não melanoma. O SEER (Vigilância, Epidemiologia e Resultados Finais, em tradução livre), da American Cancer Society, aponta que quando descoberto na fase inicial, ainda restrito ao local de origem, a taxa de cura fica acima de 90%.
O câncer representa um dos maiores problemas médicos, sociais, econômicos e humanos do Brasil. Impulsionado pelo envelhecimento populacional, urbanização acelerada, obesidade, sedentarismo, tabagismo, álcool e profundas desigualdades de acesso à saúde, o câncer deve ser a primeira causa de morte entre brasileiros em 2030, segundo o Observatório de Oncologia Todos Juntos Contra o Câncer. Os índices preocupam, principalmente por não termos melhorado os índices de mortalidade pelo câncer na década.
Doenças oncológicas estão no centro da discussão política, acadêmica e científica. Novas estratégias e possibilidades de diagnóstico, prevenção e tratamento são a aposta para melhorar os índices negativos e a qualidade de vida dos doentes. Pensando nisso, pesquisadores da USP desenvolveram um microcarreador para tratamento de câncer colorretal, com tecnologia de liberação sítio-específica, capaz de potencializar a ação antitumoral e reduzir efeitos adversos dos fármacos.
A tecnologia
O projeto fez parte da tese de doutorado do doutor em Farmacologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP Cláudio Fukumori, com orientação da professora Luciana Lopes, do Departamento de Farmacologia. A inovação une nanotecnologia ao uso de fármacos quimioterápicos para melhorar o tratamento de doenças oncológicas.
O microcarreador híbrido para tratamento de câncer colorretal consiste na encapsulação de fármacos com uma capa micropolimérica resistente à acidez do estômago. Isso permite a liberação sítio-específica do fármaco, que só será liberado no intestino, no local onde está se desenvolvendo o câncer, substituindo a administração intravenosa e até mesmo a necessidade de deslocamento até um hospital para receber a medicação, que poderia ser feita individualmente via oral.
“O fato dessas bolinhas internas serem minúsculas dão a vantagem de que elas podem também potencializar a ação dos fármacos. A gente pode, talvez, no estudo futuro, tentar diminuir doses, porque como ele vai ser potencializado, podemos administrar uma dose menor de medicamento, o que diminuiria os efeitos adversos”, pontuou Fukumori. Luciana destaca que, com o crescimento das formas de diagnóstico, a possibilidade de tratar os tumores em estágios iniciais permite estratégias mais localizadas, adjuvantes e neoadjuvantes.
Próximas etapas
Os pesquisadores também enfatizam a inovação como uma plataforma, que poderia ser utilizada para tratar características específicas ou até mesmo outras doenças intestinais. “O nanocarreador lipídico, a depender da forma como ele é feito, torna possível incorporar fármacos mais hidrofílicos, mais lipofílicos… Atendendo à solubilidade desses outros fármacos, a gente pode ter aí outras coisas encapsuladas nesses nanocarreadores lipídicos. Além disso, a casca polimérica também permite a incorporação de outros fármacos. A gente antevê a possibilidade de utilizar essa plataforma para outros fármacos cujas características físico-químicas permitam a encapsulação”, explicou Luciana.
A tecnologia tem comprovações de viabilidade de uso, de incorporação e de liberação sítio-específica, mas ainda não conta com ensaios clínicos. “Não sabemos ainda se isso estaria em condições de ser usado clinicamente. Os nossos estudos são em modelos alternativos, mais de validade da plataforma do que realmente da sua eficácia. “Isso pode ajudar grupos que não tenham formas invasivas da doença, porque esses grupos vão precisar de uma quimioterapia sistêmica de qualquer forma. Mesmo que a via oral permita a absorção e a distribuição sistêmica, teríamos que avaliar a absorção e a disponibilização sistêmica. Tomamos muito cuidado para o desenvolvimento tecnológico, mas qual vai ser o uso, em quais populações isso poderia encontrar uso, aí cabe aos médicos”, enfatizou a professora.
A tecnologia não depende de produtos locais ou regulamentações exclusivas no Brasil. Considerando que o câncer colorretal é uma preocupação global, bem como outras doenças gastrointestinais, existe potencial para exportação da inovação. Luciana destaca a necessidade de investimentos e parcerias para avançar a outras fases de desenvolvimento da inovação: “O nosso financiamento é público, vem de agências de fomento públicos. Sem esse financiamento, a gente não faria nada. Somos muito gratos por ter a oportunidade de trabalhar no desenvolvimento de novos tratamentos, mas, enquanto laboratório acadêmico, a gente pode ir até um determinado momento. É maravilhoso poder demonstrar a viabilidade de uma hipótese, mas, para avançar para estudos clínicos, precisamos de parcerias.”
*Davi Milani, estagiário sob supervisão de Cinderela Caldeira


