O carbono como oportunidade

20/07/2026 às 20:320 visualizações
perfil_dest_Marcos-Buckeridge
perfil_dest_Marcos-Buckeridge
Jornal da USP

Por Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP

 Publicado: 20/07/2026 às 17:32

Imagem do artigo

Nos dois artigos anteriores procurei mostrar que o carbono não é um vilão. Ele constitui a matéria-prima da vida e circula continuamente pelos organismos e pelos ecossistemas desde o surgimento da biosfera. O verdadeiro desafio contemporâneo não é eliminar o carbono, mas administrar melhor seus fluxos entre a atmosfera, a biosfera, os oceanos e a sociedade. É justamente dessa mudança de perspectiva que nasce uma das discussões mais importantes da economia do século 21: a bioeconomia.

Durante muito tempo, a discussão sobre mudanças climáticas esteve associada principalmente à ideia de redução de emissões. O problema parecia relativamente simples: reduzir a quantidade de gases de efeito estufa lançados na atmosfera. Hoje, porém, o cenário é muito mais complexo. A crise climática deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a envolver energia, indústria, agricultura, infraestrutura, tecnologia, geopolítica e desenvolvimento econômico. Em outras palavras, estamos diante de uma profunda reorganização das relações entre a sociedade, a natureza e os sistemas produtivos.

É nesse contexto que tecnologias de captura, uso e armazenamento de carbono — conhecidas pelas siglas CCS e CCUS — têm ganhado importância crescente no debate internacional. De forma simplificada, CCS significa Carbon Capture and Storage, isto é, captura e armazenamento de carbono, enquanto CCUS inclui também a utilização industrial do carbono capturado em combustíveis, materiais e processos químicos. Embora essas tecnologias sejam frequentemente associadas à indústria do petróleo e gás, seu significado pode variar enormemente conforme a trajetória energética e econômica de cada país.

Nesse quesito, o Brasil ocupa uma posição singular. Poucos países do mundo combinam simultaneamente uma matriz energética relativamente limpa, grande capacidade de produção de biomassa, experiência histórica em bioenergia, forte setor agroindustrial, elevada biodiversidade e potencial geológico para armazenamento de carbono.

Isso significa que o debate brasileiro sobre CCS e CCUS não deveria se limitar a reproduzir modelos europeus ou norte-americanos. Nos Estados Unidos e em parte da Europa, a captura de carbono surgiu principalmente como mecanismo de mitigação para setores de combustíveis fósseis já estabelecidos. Em muitos casos, trata-se de adaptar infraestruturas intensivas em carbono para reduzir parcialmente suas emissões. No Brasil, porém, é possível construir uma trajetória diferente, articulando bioenergia, biomassa, agricultura, bioeconomia e sistemas renováveis.

Talvez a ideia mais importante nesse contexto seja o BECCSBioenergy with Carbon Capture and Storage. O conceito é relativamente simples, mas suas implicações são profundas. As plantas removem dióxido de carbono da atmosfera durante a fotossíntese. Essa biomassa pode, então, ser utilizada para produzir energia, etanol, biogás, bioeletricidade ou biocombustíveis. Se o CO₂ liberado nesses processos for capturado e armazenado com segurança em reservatórios geológicos profundos, o sistema pode gerar emissões líquidas negativas. Ou seja, em vez de apenas reduzir as emissões futuras, passamos a remover carbono da atmosfera.

Isso é particularmente relevante porque alguns setores industriais enfrentam enormes dificuldades para se descarbonizar por completo. São os chamados setores de difícil abatimento: cimento, siderurgia, indústria química, aviação e parte do transporte pesado. Em muitos desses casos, a eletrificação direta ainda enfrenta limitações técnicas, econômicas ou estruturais significativas. Por isso, as tecnologias de captura de carbono podem desempenhar um papel relevante na transição energética.

Mas é importante evitar simplificações. CCS e CCUS não são soluções mágicas. Existem desafios relevantes associados a essas tecnologias. Os custos ainda permanecem elevados; há necessidade de infraestrutura complexa para captura, transporte e armazenamento; o monitoramento geológico precisa ser contínuo e rigoroso; e ainda existem incertezas regulatórias e questões relacionadas à aceitação social. Além disso, há um debate internacional crescente sobre o risco de certas estratégias de CCS prolongarem excessivamente a dependência da economia fóssil.

Essa talvez seja, hoje, a principal questão política associada ao tema. A pergunta não deveria ser simplesmente se CCS pode ou não ser utilizado. A questão mais importante é outra: em quais setores, contextos e trajetórias de desenvolvimento essas tecnologias fazem sentido do ponto de vista climático, econômico e social?

No caso brasileiro, acredito que a resposta passa necessariamente pela integração entre bioenergia, agricultura, inovação tecnológica e bioeconomia. O Brasil acumulou, ao longo de décadas, uma enorme experiência em etanol, cogeração, biomassa e sistemas agroenergéticos. Poucos países possuem uma base produtiva e científica tão favorável ao desenvolvimento de rotas de BECCS em larga escala. Isso cria oportunidades não apenas ambientais, mas também industriais, tecnológicas e econômicas.

A transição climática global está produzindo algo próximo de uma nova economia do carbono. Mercados de carbono, rastreabilidade ambiental, certificação de emissões, tecnologias de remoção e cadeias industriais de baixo carbono deverão ganhar importância crescente nas próximas décadas. Quem dominar essas tecnologias terá vantagens competitivas relevantes.

Nesse cenário, o Brasil poderia assumir uma posição estratégica internacional. Mas isso depende das escolhas feitas agora. Será necessário construir marcos regulatórios consistentes, ampliar os investimentos em pesquisa, fortalecer os mecanismos de financiamento e integrar universidades, centros de pesquisa, o setor produtivo e as políticas públicas.

A agenda é profundamente interdisciplinar. Ela envolve engenharia, biologia, geologia, química, ciência de materiais, inteligência artificial, modelagem computacional, monitoramento ambiental e governança. Ou seja, não estamos falando apenas da instalação de equipamentos industriais. Estamos discutindo a reorganização de uma parte importante da infraestrutura produtiva e energética do século 21.

Existe ainda outra dimensão relevante. O debate sobre CCS e CCUS é frequentemente tratado apenas como uma discussão tecnológica. Mas ele também envolve uma questão mais ampla: qual modelo de desenvolvimento queremos construir?

O Brasil possui uma oportunidade rara de articular natureza, bioeconomia, ciência e inovação tecnológica em uma trajetória própria de descarbonização. Isso é particularmente importante porque poucos países possuem simultaneamente grande capacidade agrícola, disponibilidade de biomassa, biodiversidade tropical, potencial de energia renovável e escala territorial. Mais do que isso, o Brasil investiu em ciência nessas áreas nas últimas 4 a 5 décadas, o que não é absolutamente irrelevante, já que qualquer ação de desenvolvimento tecnológico depende cada vez menos da ciência produzida em outros países.

Se houver planejamento estratégico, o país poderá transformar a transição climática em um vetor de desenvolvimento.

A bioeconomia constitui uma das chaves centrais desse processo. Durante muito tempo, o desenvolvimento industrial baseou-se principalmente na extração e no uso intensivo de combustíveis fósseis. A bioeconomia propõe outra lógica: utilizar sistemas biológicos, biomassa, biodiversidade e processos renováveis para produzir energia, materiais, produtos químicos e alimentos.

Nesse contexto, CCS e CCUS podem funcionar como tecnologias complementares a uma economia de baixo carbono baseada em recursos biológicos. O ponto central é que o carbono deixa de ser visto apenas como um resíduo e passa a ser tratado como um elemento estratégico da reorganização industrial.

Isso não significa imaginar transições simples ou rápidas. O mundo continuará dependente de sistemas industriais intensivos em carbono fóssil por um período relativamente longo. A questão é como acelerar a transição, reduzindo as emissões e criando alternativas tecnológicas viáveis.

Talvez a maior contribuição brasileira para o debate climático global não esteja apenas na preservação das florestas — embora isso seja absolutamente fundamental — mas também na capacidade de integrar bioenergia, agricultura tropical, ciência e inovação em novos sistemas produtivos de baixo carbono.

A crise climática deixou de ser apenas um problema ambiental. Ela se tornou uma questão metabólica da relação entre sociedade, energia, indústria e natureza.

Tecnologias de captura e uso de carbono certamente não resolverão esse problema sozinhas. Mas podem ser parte importante das soluções, desde que inseridas em estratégias mais amplas de transição ecológica, de desenvolvimento sustentável e de redução efetiva das emissões globais.

No caso brasileiro, a maior oportunidade está justamente na possibilidade de construir uma trajetória própria e, em grande parte, independente. Uma trajetória baseada no carbono como uma oportunidade e não como um vilão.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

Imagem do artigo
Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

Fonte
Jornal da USP
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.