
O Brasil registrou 1.568 casos de feminicídio em 2025, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. É o maior número desde que o crime passou a ser tipificado no País, em 2015. Por trás de cada um desses registros há, na maioria dos casos, filhos, irmãos, pais e outros familiares que seguem vivendo com as consequências do crime muito depois de o processo penal ser concluído. É essa parte pouco documentada da violência de gênero que a pesquisadora e assistente social Andréia do Nascimento Santos investiga em sua dissertação de mestrado, Morre quem está próxima: narrativas de famílias afetadas pelo feminicídio, defendida na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP em outubro de 2024.

Ela dedicou o estudo a mapear os efeitos do feminicídio sobre órfãos e familiares, grupo que o trabalho denomina “vítimas invisíveis”. Por meio da metodologia da história oral testemunhal, uma escuta ativa, a pesquisa reuniu relatos de três mulheres cujas trajetórias foram transformadas por casos de feminicídio. A dissertação registra como o impacto se estende por décadas, atravessando conflitos de guarda de filhos, restrições financeiras, o colapso da saúde mental e a busca por uma justiça que o Estado frequentemente nega.
Orientada pela professora Elizabete Franco Cruz, da EACH, Andreia deu centralidade às narrativas de Allana, Andressa e Regina, que perderam, respectivamente, mãe, irmã e filha para a violência de gênero. Allana narrou a perda da mãe, Celeuma, morta em 2023 após 17 anos de agressões. Andressa relatou o assassinato da irmã, a artista plástica Alessandra, trancada em um banheiro e morta em um incêndio criminoso em 2019, caso que a Justiça não enquadrou como feminicídio. Regina relembrou o feminicídio da filha, a professora Priscila, baleada em 2007, tragédia seguida pelo suicídio de sua outra filha, Lailah, que não resistiu ao trauma.
É uma pesquisa de mulheres que escutam mulheres porque outras mulheres morreram assim. Você passa a sentir aquilo, foi muito difícil de fazer!
Andréia do Nascimento Santos, sobre o processo de escuta dessas histórias.
Um dos pilares teóricos do estudo é a distinção entre os termos “femicídio” e “feminicídio”. Enquanto femicídio designa o assassinato de mulheres por sua condição de gênero, o termo feminicídio, cunhado pela feminista mexicana Marcela Lagarde, acrescenta a responsabilidade do Estado pela omissão e pela ausência de políticas de proteção. Segundo Andréia, “o feminicídio não começa com a morte da mulher. Ele vem bem antes, e não termina com o agressor preso.”
Pressentindo o crime, Celeuma, mãe de Allana, deixou fotos de hematomas e uma carta, escrita em agosto de 2022, pedindo que os filhos não ficassem sob a guarda do agressor, caso ela morresse. “Eu sabia que minha mãe ia morrer”, relatou Allana.
Os órfãos do feminicídio
O estudo estima que mais de duas mil crianças perdem suas mães todos os anos no Brasil em razão da violência de gênero. Segundo a pesquisadora, o País ainda não tem um banco de dados integrado sobre esses casos.
Sobre a situação das famílias após o crime, Andréia diz que “a mulher morre, a família tenta sobreviver, e o agressor continua. As famílias não têm chance de reconstrução, porque não recebem nenhum tipo de apoio.” Ela também descreveu casos em que “o agressor já cumpriu pena, mudou de cidade, casou, teve filhos. E a família não tem essa opção de reconstrução.”
Regina criou a comunidade Quem Ama Liberta para reunir informações sobre casos de feminicídio. Segundo Andréia, “é fácil ver um número, 1.500 pessoas. Mas ela coloca a foto de cada uma que encontra, e isso dá outro sentido.” Allana, por sua vez, dedicou nove meses à busca pelo padrasto foragido, oferecendo recompensas e mobilizando redes sociais até a prisão dele.
Andressa descreveu como “surreal” o julgamento do assassino de Alessandra. O crime não foi enquadrado como feminicídio, e o júri aceitou a tese de que não houve intenção de matar, apesar de o agressor ter trancado as vítimas em um banheiro e ateado fogo à residência. Para Andressa, “o pós-feminicídio começa quando a gente recebe a notícia, e é para sempre.”
Políticas de reparação
Andreia avalia que algumas iniciativas representam avanços importantes na reparação dos familiares, mas ainda estão longe de responder à dimensão do problema. Uma dessas iniciativas é o Auxílio Ampara, programa da cidade de São Paulo que concede até um salário mínimo a órfãos do feminicídio. Outra é a lei federal de 2023, que instituiu uma pensão especial para esses sobreviventes.
Segundo a pesquisadora, o problema é que essas políticas se concentram quase exclusivamente na compensação financeira, deixando em segundo plano a oferta de acompanhamento psicológico e assistência social continuada. O acesso aos benefícios também é limitado por entraves burocráticos, como a exigência de reconhecimento judicial do feminicídio, o que acaba excluindo famílias de vítimas cujos casos não receberam essa qualificação pela Justiça.
Para a assistente social, “a rede de proteção precisa ampliar seu olhar para toda a família, superando a lógica que frequentemente reduz a vítima ao papel de mãe. O estudo defende que as medidas de reparação contemplem o bem-estar e o desenvolvimento integral de todos os familiares afetados que permanecem como ‘vítimas invisíveis’ para o Estado e a sociedade.”
Andréia argumenta que, “se o feminicídio representa o desfecho de uma sucessão de falhas na proteção estatal, cabe ao poder público garantir um acolhimento integral, capaz de enfrentar os impactos do trauma e criar condições para que essas famílias reconstruam suas trajetórias.”
Para Andréia, preservar essas narrativas e reivindicar justiça é também uma forma de resistência ao apagamento e ao silenciamento histórico das vítimas e de seus familiares.
“Não são só um número, cada uma tem uma história importante. Acho que é fundamental a gente conhecer essas histórias, dessas mulheres e também dessas famílias”, afirma.
*Estagiária sob orientação de Silvana Salles





