Copa do Mundo de 2026: o errado não pode dar certo sempre…

20/07/2026 às 20:100 visualizações
Hugo Tourinho Filho - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Hugo Tourinho Filho - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Foto: CeciliaBastos_Ribeiro / Jornal da USP

Por Hugo Tourinho Filho, professor e diretor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP

 Publicado: 20/07/2026 às 17:10
Hugo Tourinho Filho –
Hugo Tourinho Filho – — Cecília Bastos/USP Imagens
Hugo Tourinho Filho – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

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Estou escrevendo este artigo antes de acontecer a final da Copa do Mundo de 2026 entre Espanha e Argentina e, para fazer algumas reflexões sobre este evento esportivo, preciso voltar um pouco no tempo para relembrar a final olímpica de futebol masculino que ocorreu no Japão em 2021, no meio de uma guerra contra uma epidemia provocada pelo coronavírus.

A final foi entre Espanha e Brasil, e neste dia nosso país conquistou pela segunda vez uma medalha de ouro no futebol masculino – a primeira foi nas Olimpíadas realizada no Rio de Janeiro em 2016.

Um time que nunca ficou fora de uma Copa do Mundo e o único pentacampeão do mundo, estranhamente, só conseguiu sua primeira medalha de ouro na Olimpíada realizada em 2016, lembrando que seu primeiro título em Copas do Mundo foi em 1958.

Retornando agora para a final da Copa de 2026, vem a pergunta: o que aconteceu entre 2021 e 2026 com as equipes do Brasil e da Espanha? Nós fomos desclassificados nas oitavas de final – um dos piores resultados do time brasileiro em copas do mundo – e completamos 24 anos sem um título neste evento. Já a Espanha está na final da maior Copa do Mundo de todos os tempos, com 48 seleções inscritas.

A equipe espanhola tem como base o time olímpico que perdeu para o Brasil no Japão, incluindo o seu treinador, e não seria nenhum exagero dizer que eles cresceram jogando juntos como  jogam hoje – o estilo Tic-Tac. Com relação ao time brasileiro, apenas três jogadores da geração que conquistou o bicampeonato olímpico em Tóquio (2021) foram convocados pelo técnico Carlo Ancelotti para defender a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026. Embora apenas três tenham vindo da edição de 2021, o grupo da Copa de 2026 contou também com outros quatro jogadores que conquistaram a primeira medalha de ouro do Brasil nos Jogos do Rio 2016, incluindo Neymar.

Como explicar tanta diferença de rendimento num espaço de tempo relativamente curto entre as duas seleções que disputaram a medalha olímpica em 2021?

A análise do rendimento de esportes que são caracterizados por habilidades motoras abertas é mais complexa do que a análise de esportes que se caracterizam por habilidades motoras fechadas. Esportes individuais como a natação e o atletismo são esportes de habilidades motoras fechadas, ou seja, ocorrem em um ambiente estável e previsível. O atleta tem o controle total sobre o início da ação e as condições ao redor não mudam enquanto o movimento é realizado. O objetivo é a execução ideal e repetitiva de um padrão motor técnico.

Já nos esportes de habilidades motoras abertas, como o futebol, os ambientes de disputa são imprevisíveis e em constante mudança. O atleta não controla o ambiente; ele deve reagir a estímulos externos (adversários, colegas, bola, clima) e tomar decisões em tempo real, exigindo alta flexibilidade tática e uma leitura de jogo que permita antecipações, por este motivo tirar conclusões sobre o desempenho destes esportes envolve a análise de muitas variáveis, além do risco de serem realizadas sobre um forte sentimento passional que, geralmente, envolve tudo que diz respeito ao futebol em nosso país. Por isso tudo, quero focar apenas na análise de nossas categorias de base, responsáveis por formar nossos jogadores de futebol profissional.

Desde o momento que uma criança inicia um programa de atividades físicas com o intuito de enriquecer seu repertório motor ou atingir melhoras em seu rendimento esportivo, é interessante organizar um planejamento destas atividades em longo prazo, que denominamos, tecnicamente, de formação esportiva em longo prazo.

Uma das principais contribuições dos modelos de desenvolvimento em longo prazo para os jovens praticantes diz respeito à aderência ao programa de exercícios e treinamentos voltados para crianças e adolescentes, que por sua vez está relacionada, em grande parte, à alfabetização motora – a aquisição de sua biblioteca motora.

A importância desses modelos se evidencia não só na necessidade do desempenho esportivo para competir em nível profissional, mas, principalmente, para oferecer suporte para que as crianças tenham a capacidade de realizar exercícios físicos de maneira natural no presente e no futuro, ajudando assim a transformar o exercício em uma atividade relacionada ao prazer e a auto competência, o que certamente ajudará muitas das crianças a se tornarem adultos com um estilo de vida ativo.

Durante a infância, em consequência do rápido desenvolvimento do sistema nervoso central é necessário que ocorra uma ampla e adequada variação de estímulos ambientais que favoreçam assim o desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo-social. Nesta fase, crianças precisam ser expostas as mais variadas experiências motoras que lhes permitam enriquecer o seu repertório motor, a formação de sua biblioteca motora. Quanto maior o repertório motor, maior será a capacidade de aprender e executar novos padrões de movimento – mais preparada a criança ficará nas fases seguintes (adolescência e fase adulta) para aprender movimentos mais complexos e realizados com maior precisão, fato que no caso da formação de atletas aumentará as chances de obtenção do alto rendimento.

O grande desafio na formação esportiva a longo prazo é que se colocada em prática, dificilmente formará campeões infantis, pois o processo de aquisição de repertório motor envolve a participação em diferentes experiências motoras e não só em apenas um esporte.

Em um ambiente esportivo que transformou nossas crianças em “produto” e passou a exigir alto desempenho desde muito cedo, abandona-se o processo ideal de formação esportiva em favor de um modelo acelerado, voltado a preparar atletas para serem “negociados” o quanto antes no mercado europeu de futebol. Essa lógica atual fica evidente quando observamos que muitos brasileiros sequer conhecem a maior parte dos jogadores da seleção atual, a menos que acompanhem competições europeias, como a Champions League, o campeonato inglês ou o alemão.

Até pouco tempo atrás, nossos jogadores se destacavam nos campeonatos brasileiros antes de serem negociados com clubes europeus. Hoje, muitos deixam o país ainda na adolescência, antes mesmo de se afirmarem como profissionais. Isso ajuda a explicar a menor identificação do público com as seleções brasileiras recentes: grande parte da população sequer conhece a maioria dos convocados, causando uma certa falta de empatia com o nosso time canarinho.

A iniciação precoce voltada ao alto rendimento tende a aumentar o abandono da prática esportiva ao longo do tempo. Além disso, nas chamadas peneiras, muitos atletas são selecionados por estarem em estágio maturacional mais avançado, o que lhes garante maior força e velocidade naquele momento. Essa vantagem física pode deixar de fora jovens que, embora ainda menos desenvolvidos fisicamente, poderiam ter maior habilidade técnica e potencial para o futebol.

Em um importante estudo publicado pela Science no final de 2025 foi demonstrado que os prodígios juvenis raramente alcançam o alto rendimento como atletas adultos, sugerindo que o sucesso extraordinário depende de uma formação multidisciplinar em vez de uma especialização precoce. Neste artigo intitulado Recent discoveries on the acquisition of the highest levels of human performance, os dados trazem uma estatística alarmante – apenas 12% das crianças e adolescentes que se destacam no esporte em idades precoces conseguem chegar ao alto nível como atletas, enquanto 88% das crianças e adolescentes que não tiveram destaque na infância e adolescência, por experimentaram múltiplas experiências motoras nesta fase, alcançam o alto nível esportivo na fase adulta.

Enfim, enquanto o futebol brasileiro continuar a encarar nossas crianças como mercadoria para serem vendidas para o mercado internacional do futebol ao invés de oferecer uma formação esportiva adequada não só para o desempenho esportivo, mas também para a vida, continuaremos assistindo finais de Copa do Mundo apenas para “secar” outros times.

Fomos cinco vezes campeões do mundo e o errado não pode dar certo sempre…

Com relação ao desempenho do time argentino que foi a final das duas últimas copas (2022 e 2026), prefiro deixar a análise para os meus colegas da Filosofia, Sociologia, Antropologia ou quem sabe para os deuses do futebol que tem como um de seus maiores prodígios um monstro chamado Messi alçado ao olimpo junto com o nosso Pelé e o artista Maradona que até gol com a mão de Deus já conseguiu fazer…

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