

O ponto de partida vinha de pesquisas sobre as Copas da África do Sul, do Brasil, da Rússia e do Catar. Em todas elas, o futebol permaneceu no centro do espetáculo, mas parte decisiva das discussões aconteceu fora dos gramados. Apartheid, desigualdade, protestos, autoritarismo, direitos humanos, migrações e geopolítica passaram a dividir a atenção com os jogos.
Cada país tenta transformar a Copa em uma vitrine, mas nenhum controla inteiramente o modo como será visto. Quanto maior a exposição, maior também o escrutínio. Governos contam uma história sobre si mesmos, enquanto jornalistas, movimentos sociais, pesquisadores e torcedores produzem outras versões. O Mundial tornou-se uma arena global de interpretação: já não se disputa apenas quem vence em campo, mas quem consegue definir o significado do torneio.
Em 2026, essa disputa ocorreu em um ambiente transformado por plataformas digitais, algoritmos e inteligência artificial. Governos, jornalistas, atletas, influenciadores e torcedores falavam ao mesmo tempo, enquanto os sistemas de recomendação ajudavam a decidir quais histórias alcançariam maior projeção.
O goleiro cabo-verdiano Vozinha foi um dos personagens mais reveladores desse cenário. Conhecido por públicos restritos, tornou-se uma celebridade acompanhada por milhões de pessoas. Uma trajetória improvável e a identificação com uma seleção periférica encontraram a força de amplificação das plataformas. A Copa continua produzindo heróis inesperados; a novidade é que os algoritmos também participam da fabricação de sua visibilidade.
Essa circulação obedece à economia da atenção. Nem sempre alcança mais gente aquilo que é mais importante ou consistente; frequentemente, ganha espaço o que provoca emoção, controvérsia e engajamento. Donald Trump compreendeu essa lógica como poucos. Embora a Copa tenha sido organizada por Estados Unidos, Canadá e México, o presidente norte-americano tornou-se uma de suas principais chaves de interpretação.
A contradição estava inscrita no próprio projeto United 2026: a candidatura prometia integração continental, mas a competição ocorreu em meio ao endurecimento das fronteiras. Quando Trump afirmou que o governo garantiria a entrada das “pessoas certas”, resumiu uma das tensões centrais do Mundial. Antes de disputar a bola, muitos torcedores, jornalistas e integrantes de delegações precisaram disputar o direito de atravessar a alfândega estadunidense para poder assistir aos jogos ou realizar seu trabalho.
Vista a partir da imprensa do mundo islâmico, essa contradição apareceu ainda mais claramente. O crescimento de seleções árabes, africanas e de países de maioria muçulmana foi celebrado como expressão de orgulho e reconhecimento. Ao mesmo tempo, jornalistas e torcedores enfrentaram recusas de visto. O futebol continuou a se apresentar como linguagem universal, mas o direito de participar dela permaneceu desigual.
A migração também entrou em campo. Quase um quarto dos jogadores nasceu fora do país que representou. As seleções continuaram nacionais, mas as histórias de seus atletas tornaram-se transnacionais. A camisa passou a carregar não apenas o lugar de nascimento, mas memórias familiares, experiências de diáspora e escolhas de pertencimento.
Enquanto parte da política ainda imagina nações fechadas e homogêneas, o futebol mostra sociedades formadas por identidades múltiplas. Essa transformação, porém, não garante reconhecimento igual. O confronto entre França e Marrocos expôs esse limite.
A disputa sobre quem pode pertencer ao futebol chegou também às arquibancadas. Cânticos homofóbicos, racistas e xenofóbicos, durante muito tempo tratados como “folclore”, passaram a ser questionados por seus efeitos sociais. Entre o canto e a ofensa, define-se quem pode participar do espetáculo sem ser transformado em alvo de humilhação. As punições estabelecem limites necessários, mas não modificam sozinhas culturas construídas ao longo de décadas. Nem toda tradição merece ser preservada.
A Copa de 2026 se transformou em uma grande arena de apostas revelando outra face do torneio: cada lance, dado e emoção pode ser convertido em bens comercializáveis. O Mundial tornou ainda mais visível as empresas que procuram extrair valor dessa experiência coletiva.
Até a suposta objetividade tecnológica revelou-se uma questão política. A passagem da La mano de Dios ao olho eletrônico poderia sugerir que o futebol ingressou em uma era de precisão incontestável. O VAR, entretanto, não eliminou a interpretação; apenas mudou seu lugar e redistribuiu a autoridade de decidir. Câmeras e sensores ampliam o que pode ser visto, mas alguém ainda escolhe os ângulos, determina o início da jogada e atribui sentido às imagens. A tecnologia não fala sozinha.
Ao longo da série, a Copa serviu como lente para perguntas ligadas por um mesmo problema: quem pode atravessar uma fronteira, pertencer a uma nação, ocupar uma arquibancada sem ser ofendido, dizer o que aconteceu em um lance, controlar as narrativas e transformar o jogo em mercado?
A oportunidade oferecida pelo Jornal da USP permitiu acompanhar essas questões entre uma partida e outra e mostrou que a universidade pode participar da conversa pública sem abandonar o rigor. A Copa do Mundo Feminina, que o Brasil receberá em 2027, colocará diante de nós um novo desafio: transformar a visibilidade do torneio em estrutura, investimento, reconhecimento e igualdade para o futebol das mulheres. E nós estaremos por aqui, acompanhando os acontecimentos e construindo coletivamente interpretações capazes de manter o futebol aberto ao debate público, à crítica e à transformação social.
Quero agradecer a Marcia Blasques, coordenadora editorial do Jornal da USP, e a toda a equipe do jornal pela oportunidade de acompanhar o torneio por meio desta série de textos. O espaço aberto durante a competição permitiu ir além dos resultados e tomar o futebol como ponto de partida para refletir sobre algumas das grandes questões políticas, sociais e culturais de nosso tempo.
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