Qualificados mas desempregados, jovens protestam na Índia com mistura de sátira e revolta

Por André Lucena21/07/2026 às 19:350 visualizações
País governado por Narendra Modi enfrenta problemas de inserção de jovens no mercado de trabalho.
País governado por Narendra Modi enfrenta problemas de inserção de jovens no mercado de trabalho.
Brasil de Fato

Um insulto de um magistrado era o que faltava para dar nome à maior mobilização estudantil já enfrentada pelo governo Narendra Modi, na Índia. Ainda em maio, durante uma audiência sobre diplomas falsos, o presidente da Suprema Corte do país, Surya Kant, definiu como “baratas” e “parasitas” os jovens indianos sem empregos.

Eles são muitos. Segundo dados do governo, o desemprego entre pessoas de 15 a 29 anos ficou em 9,9% em 2025. Se o recorte for feito apenas em áreas urbanas, o percentual sobe para 13,6%. Mesmo com diploma, a significativa maioria trabalha na informalidade. 

Vista apenas do ponto de vista institucional, a Índia possui um ambiente universitário consolidado e em expansão. Em 2026, o país apresentou o maior crescimento no ranking global anual de avaliação e classificação por áreas de conhecimento, o QS World University Ranking by Subject. São 99 instituições universitárias indianas entre as 599 melhores do mundo.

As contradições já eram marcantes. Mas, em maio, o vazamento das provas de um vestibular para medicina (conhecido como NEET-UG) levou os estudantes às ruas. A prova, altamente concorrida, mobiliza a vida das famílias dos estudantes que pleiteiam uma vaga. Estima-se que mais de dois milhões de candidatos tenham tentado a aprovação.

Diante da frustração, alguns estudantes não tiveram outra escolha, senão o suicídio. Membros do Partido Popular das Baratas, movimento nomeado em uma irônica referência à fala do magistrado, apontam que ao menos vinte jovens tiraram a própria vida. 

Esse não é o primeiro caso de alegado vazamento. Em 2024, estudantes também denunciaram o vazamento de provas do NEET-UG, apontando fraudes e irregularidades. 

A natureza dos protestos

O Partido Popular Barata levou milhares de pessoas às ruas nesta semana. Os jovens pedem a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, entre outras demandas. Em Nova Déli, a marcha dirigia-se ao Parlamento indiano, mas foi reprimida pela polícia.

Esse poderia ser mais um caso típico de protestos do que se intitula como “Geração Z”, a exemplo dos que tomaram países como Peru, Paraguai, Quênia, Marrocos e Nepal, em 2025. Mas o caso indiano é mais profundo e exige a superação de rótulos.

A nomenclatura Geração Z “é uma categoria de marketing disfarçada de sociologia”, aponta Vijay Prashad, historiador e jornalista indiano, e diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Agrupa a filha de um trabalhador rural e o filho de um bilionário simplesmente por terem nascido no mesmo período.” 

O historiador acredita que as reivindicações expõem uma crise social na Índia. “Para milhões de famílias da classe trabalhadora, a prova representa anos de economias, sacrifícios, estudos e esperança. Quando essa prova vaza ou o exame é cancelado, o frágil planejamento financeiro de toda uma família é destruído.” 

O movimento cresceu nas redes sociais, lançando mão dos memes, da paródia e do humor autodepreciativo. Mas, até agora, ganhou fôlego nas ruas por meio de Abhjeet Dipke, um estudante da Universidade de Boston. Foi dele a ideia de convidar interessados que preenchessem os seguintes requisitos: desempregados, preguiçosos, “cronicamente online” e capazes de “reclamar profissionalmente”, segundo descrição na plataforma da sigla. Só no Instagram, o partido acumula mais de 24 milhões de seguidores. 

Debate entre o presente e o futuro

O rebuliço do incômodo também tem a ver com questões políticas internas. Muitos dos jovens cresceram e rumam à difícil vida profissional de uma Índia governada por Narendra Modi, que está no poder desde 2014.

O país está a caminho de se tornar a terceira economia do mundo, com o Produto Interno Bruto (PIB) em expansão: o crescimento foi de 7,5% no ano passado, e a projeção para 2026 é de uma subida de 6,4%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

No dia a dia de jovens indianos recém-formados, esses dados parecem distantes. “O capitalismo não consegue integrá-los a uma vida econômica digna. A educação expandiu as aspirações e capacidades dos jovens indianos, mas a economia não ampliou o número de empregos decentes disponíveis para eles”, explica Prashad.

Nas ruas, as forças policiais reagiram com gás lacrimogêneo e cassetetes. As autoridades também retiraram à força o ativista Sonam Wangchuk das ruas e internaram-no. Ele tinha aderido ao protesto e iniciado greve de fome. O movimento pede a libertação de Wangchuck. 

As próximas semanas deverão dizer se a espontaneidade do movimento será transformada em poder político consolidado. O tom despojado, por si só, “não poderá superar o poder estabelecido”, alerta Prashad. Para ele, a força duradoura “dependerá da capacidade de vincular a reforma do sistema de exames à luta por emprego, educação pública, direitos trabalhistas e redistribuição econômica”.

Fonte
Brasil de Fato
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