Em junho, alertei aqui que as condições de El Niño já estavam presentes no oceano Pacífico e que o estado de Pernambuco não poderia tratar como surpresa o que os dados já anunciavam. Um mês se passou. O risco já estava dado. A pergunta que interessa agora é outra: onde está o plano?
Falar em planejamento climático não pode ser um gesto retórico repetido a cada boletim técnico. Prevenção existe quando vira plano de ação com prazo, responsável e orçamento, não quando fica apenas registrada em ata de audiência pública. Presidi, na frente parlamentar do meio ambiente da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), uma audiência pública, em junho, na qual o governo do estado informou ter constituído um grupo de trabalho com cerca de 40 agentes públicos para tratar do tema.
O Projeto de Lei nº 4204/2026, que apresentei em junho e que tramita agora na Alepe, institui a Política Estadual de Prevenção e Enfrentamento aos Impactos Ambientais e Sociais Adversos Originados da Incidência de Eventos Climáticos Extremos.
O texto amplia o escopo para oito categorias de eventos extremos, entre elas as ondas de calor, com o objetivo declarado de fortalecer a capacidade de prevenção, adaptação e resposta do Estado e dos municípios. A própria justificativa do projeto cita como referência o programa Guarda-Chuva, que coordenei à frente da Prefeitura do Recife, entre 2001 e 2008, para reduzir risco em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos.
O alerta que fiz em junho não ficou isolado no tempo. Nas semanas seguintes, a Europa viveu o mês de junho mais quente já registrado, com recordes de temperatura em pelo menos 14 países. Na França, o serviço oficial de meteorologia declarou 23 de junho o dia mais quente desde o início das medições, em 1947, com 44,3°C.
Levantamentos divulgados nesta semana apontam mais de 10 mil mortes a mais na Europa só durante as ondas de calor do mês passado, cifra que supera em muito a estimativa inicial de 1,3 mil óbitos feita pela OMS. Na Bélgica, país com o quadro mais grave, foram quase 1.750 mortes a mais do que o esperado para o período.
Não é preciso forçar uma ligação direta entre o El Niño no Pacífico e as ondas de calor europeias para tirar a lição que interessa. Em praticamente todos os continentes, 2026 está mostrando o preço de tratar o calor extremo como evento pontual e não como risco recorrente que exige plano permanente. Onde havia sistema de alerta, prevenção e resposta rápida, mortes foram evitadas. Onde não havia, o resultado foi tragédia em massa, inclusive em países ricos, com estrutura de saúde robusta. Pernambuco não pode se dar ao luxo de repetir esse erro.
Não faltam modelos prontos para servir de referência aqui. Existe hoje, disponível para qualquer gestor público, um guia de 12 passos para a elaboração de um Protocolo Municipal de Enfrentamento ao Calor Extremo (o Promece), elaborado pela organização Clima de Política com subsídio técnico de uma epidemiologista da UFMG. É um roteiro objetivo e prático, que vai da identificação de grupos vulneráveis até a definição de quem aciona o protocolo em cada onda de calor.
Se o instrumento existe e é gratuito, cabe fazer uma pergunta simples: quantos municípios pernambucanos têm o seu plano?
A resposta importa porque o custo do atraso é concreto. Em janeiro deste ano, o Governo Federal já havia reconhecido situação de emergência em 112 municípios de Pernambuco. Só nas três primeiras semanas daquele mês, a Operação Carro-Pipa levou água a cerca de 500 mil pessoas. São números que descrevem o que já aconteceu, há poucos meses, no mesmo estado que agora recebe um novo alerta, no mesmo ano em que o mundo já contou milhares de mortos por calor.
A desigualdade climática não escolhe adversário à toa. Quem tem reservatório próprio, casa bem construída e renda para se recompor de uma safra perdida sente o El Niño como manchete. Quem depende de chuva regular para plantar, de carro-pipa para beber água e de teto seguro para não ser atingido por deslizamento, esses sentem o fenômeno como ameaça concreta à sobrevivência. Por isso, planejamento público é o que separa proteger essas famílias antes da crise de socorrê-las depois, quando o custo humano e financeiro já é maior.
Essa desigualdade não é abstrata para mim. Vivi na UR-6, bairro do Ibura, região metropolitana do Recife, nas décadas de 1980 e 1990, uma época em que racionamento de água era rotina: dias com água, dias sem, dependência de cacimba, gente com lata d’água na cabeça para garantir o que faltava em casa. Décadas depois, o carro-pipa segue sendo resposta de emergência para um risco que o poder público já consegue prever com meses de antecedência.
É por isso que a cobrança agora precisa ser específica. Não basta o município dizer que está atento. É hora de cada prefeitura apresentar, publicamente, seu protocolo de contingência para calor extremo e seca, com critérios de acionamento, orçamento e prazo definidos.
Essa cobrança parte do reconhecimento de que o poder público brasileiro tem, historicamente, memória curta diante de secas recorrentes. Reage à emergência, esquece na estiagem seguinte, e volta a ser pego de surpresa quando o próximo El Niño se anuncia. O verão europeu de 2026 mostrou o que acontece quando esse ciclo não é interrompido a tempo, mesmo em lugares com muito mais recursos do que os nossos municípios.
Volto a dizer o que escrevi em junho, porque continua verdadeiro: a crise climática não pede licença na divisa do município. Ela não respeita a fronteira administrativa entre uma prefeitura e outra, nem o calendário eleitoral, nem a paciência de quem espera um plano prometido. O que muda, um mês depois, é que o alerta já não basta, e o mundo inteiro está mostrando o custo de ignorá-lo. Chegou a hora de o plano sair do papel e de mostrar a quem vive na ponta, dia a dia, que ele existe de verdade.
