Os ataques dos Estados Unidos contra o Irã chegam ao décimo dia e o país persa segue resistindo e respondendo às agressões, atacando embarcações no Estreito de Ormuz e infraestrutura de países aliados do governo de Donald Trump. Nesta terça-feira (21), o governo iraniano afirmou ter atacado a central de dados da estadunidense Amazon, no Bahrein.
Além disso, uma nova frente na guerra, que já atinge diversas partes do Oriente Médio, pode aumentar a tensão no corredor estratégico para escoamento do petróleo. Os Houthis, grupo xiita apoiado pelo Irã, declararam bloqueio naval à Arábia Saudita, como resposta ao cerco ao Iêmen. O bloqueio em questão atinge o Estreito de Bab el-Mandeb.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o analista internacional Rodrigo Mac Niven, pesquisador em Segurança Internacional pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), afirma que a complexidade do conflito se dá pelo envolvimento de diversos países do Oriente Médio, que, com o passar do tempo, têm se implicado cada vez mais. Para ele, a movimentação do Iêmen certamente trará novos elementos para a escalada da guerra.
“O Iêmen entrou nessa contenda regional e o bloqueio do estreito anunciado por eles vai comprometer em torno de 7% a 10% da oferta de petróleo no mundo. Estamos vivendo uma convulsão global. Neste momento é difícil saber para onde isso vai”, avalia.
O pesquisador também destaca que os EUA não têm conseguido entregar o que prometeram para seus aliados da região, que é alguma segurança.
“O Irã já tinha um diálogo com os Houthis, mas agora o grupo declarou explicitamente participar desta guerra, ainda que indiretamente, acusando a Arábia Saudita de fazer um bloqueio histórico. Eles vão bloquear o bloqueio, eles estão atacando o ataque, usando uma lógica de olho por olho. E, obviamente, a Arábia Saudita está negando, mas a relação da Arábia Saudita ali é histórica, de ocupações e de guerras. Eles estão numa contenda bilateral, mas dentro de um contexto regional muito maior”, explica.
Para Mac Niven, Trump não irá recuar porque tem preocupação com sua imagem global. “O Trump não vai aceitar uma derrota, ainda que eu ache que a derrota já tenha de certa forma acontecido”, sentencia.
Há pouco mais de um mês, destaca o analista internacional, houve o memorando de entendimento que abria caminho para um acordo de paz e que foi descumprido justamente pelos EUA. “Acho que tem uma coisa de os EUA quererem manter o domínio na região e uma clara tentativa de desestabilizar o Irã, como uma potência regional, que acontece há algum tempo, desde 2025, quando teve a Guerra dos 12 dias, iniciada por Israel”, ressalta.
Mac Niven defende que todas as movimentações feitas por Trump mostram que, muito além da questão energética, existe uma disputa discursiva. “Os EUA sempre tentaram dizer que tinham desestabilizado o governo iraniano, enfraquecido o poder militar da Guarda Revolucionária, mas a guerra continua. Existe uma guerra de narrativas e uma guerra de fato. E as declarações de Trump não se encaixam na realidade”, afirma.
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