O Brasil registrou a menor taxa de insegurança alimentar severa desde o início da série histórica da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 (SOFI), divulgado nesta terça-feira (21), o índice caiu para 0,6% da população no triênio 2023–2025, consolidando a saída do país do Mapa da Fome e indicando que cerca de 16,7 milhões de brasileiros deixaram a condição de privação alimentar grave no período.
Segundo o levantamento, o Brasil manteve abaixo de 2,5% a proporção da população sem acesso à quantidade mínima de calorias necessárias para uma vida saudável, patamar utilizado pela FAO para definir quais países integram o Mapa da Fome.
Na avaliação do diretor do Instituto Fome Zero e ex-diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, a melhora dos indicadores é resultado de uma combinação entre recuperação econômica e fortalecimento das políticas públicas de combate à fome.
“Numa fase inicial, em que a fome ainda é um problema massivo, as variáveis fundamentais são as políticas macroeconômicas. A principal delas é o crescimento econômico inclusivo, quer dizer, gerar emprego de qualidade, bem remunerado, estável, o aumento do salário mínimo”, afirmou.
Segundo Graziano, a valorização do salário mínimo amplia a renda, inclusive entre trabalhadores informais. “Você não precisa ter carteira assinada para se beneficiar de um aumento do salário mínimo. Até o flanelinha, o guardador de carro, quando aumenta o salário mínimo, ele cobra mais”, exemplificou.
Para o especialista, porém, quando a fome deixa de atingir grandes parcelas da população, as políticas focalizadas passam a ter papel decisivo na continuidade dos avanços.
“Quando a fome já se reduz, como aconteceu agora nesse último ano, entre 2024 e 2025, as políticas mais importantes são aquelas políticas de segurança alimentar e nutricional”, afirmou. Entre elas, Graziano cita o Bolsa Família, a alimentação escolar e as compras públicas da agricultura familiar. “O Bolsa Família atinge aquele segmento mais pobre da população, a política da merenda escolar atinge predominantemente as crianças mais pobres e a política de compras da agricultura familiar garante uma alimentação de melhor qualidade. Essas são fundamentalmente as políticas de maior impacto no caso brasileiro.”
Os dados divulgados pela FAO também mostram que a insegurança alimentar severa recuou de forma contínua nos últimos anos. O índice era de 6,6% no triênio 2021–2023, caiu para 3,4% em 2022–2024 e chegou a 0,6% no levantamento mais recente.
Apesar do avanço, Graziano alerta que o resultado nacional não significa que a fome tenha sido superada em todo o território brasileiro. Segundo ele, a metodologia utilizada para definir o Mapa da Fome leva em conta a Prevalência de Subnutrição (PoU), um indicador baseado em estimativas da disponibilidade de alimentos e da distribuição de renda, que pode ocultar profundas desigualdades regionais.
“Eu considero muito ruim a estimativa do PoU para países da dimensão do Brasil, que têm uma grande diferença regional na população”, disse.
Na avaliação do ex-diretor da FAO, indicadores baseados na experiência direta das famílias revelam uma realidade mais complexa. “Na média, o Brasil está fora do Mapa da Fome porque tem um PoU muito baixo, menor que 2,5%. Mas, quando você pega os indicadores da insegurança alimentar, daqueles que não têm dinheiro para comprar o alimento que precisam, vai ver que tem uma grande porcentagem de gente ainda, principalmente na região Norte e na região Nordeste, que não consegue comer o mínimo necessário”, afirmou.
Ele acrescenta que, se essas regiões fossem analisadas isoladamente, a situação seria diferente. “Se essas regiões fossem países, elas ainda estariam dentro do Mapa da Fome. Não estão porque, na média, o PoU puxa os indicadores para baixo com base no desempenho melhor que têm as regiões Sul e Sudeste do país”, afirmou.
O relatório também mostra que o acesso à alimentação adequada continua sendo um desafio. Mesmo com a queda da fome extrema, 21,1% dos brasileiros ainda não conseguem pagar por uma alimentação saudável. Segundo a FAO, a melhora dos indicadores foi acompanhada pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), pela redução do desemprego, pelo aumento da renda média da população e pelo controle da inflação dos alimentos ao longo do triênio analisado.
