Estudo premiado avalia eficiência dos sistemas de saúde de 23 países da América Latina e Caribe

Por Igor Peres, Professor do Departamento de Engenharia Industrial, PUC-Rio21/07/2026 às 12:300 visualizações
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil

Quais países da América Latina possuem um sistema de saúde eficiente? Quais fatores mais contribuem para que esses países sejam considerados eficientes? Houve mudanças significativas na eficiência desses países ao longo de 10 anos?

Para responder a essas perguntas, nós do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS)Departamento Engenharia Industrial da PUC-Rio fizemos uma análise comparativa da eficiência dos sistemas de saúde de 23 países da América Latina.

Os resultados mostraram que 13 dos 23 países analisados foram classificados como eficientes. Dez deles mantiveram esse desempenho durante todo o período de 10 anos da análise temporal.

Entre os países considerados eficientes, Belize, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Guatemala, Honduras, Jamaica, México e Peru. Em contrapartida, quatro países nunca atingiram o grau de eficiência definido pela pesquisa ao longo desses dez anos. São eles: Barbados, Nicarágua, Uruguai e… Brasil.

Por que o Brasil foi considerado ineficiente?

Importante destacar que o Brasil figurou de forma consistente entre os países menos eficientes da América Latina ao longo dos anos analisados. Esse resultado não significa que o sistema de saúde brasileiro seja ineficaz ou apresente maus resultados absolutos. O estudo mostrou que, em comparação com outros países da região, o país utiliza um volume relativamente maior de recursos como gastos em saúde. Isso inclui número de leitos hospitalares, médicos e enfermeiros para alcançar níveis semelhantes de expectativa de vida e mortalidade infantil. O principal desafio brasileiro está na eficiência da utilização dos recursos disponíveis, e não necessariamente na insuficiência de investimentos.

Nossos dados não identificaram uma variável isolada capaz de explicar estatisticamente essa ineficiência. Ela decorre de uma combinação de fatores relacionados à organização e à gestão do sistema de saúde.

Vale destacar que a metodologia empregada só considerou um conjunto limitado de indicadores.

Não incorporamos nas análises, por exemplo, aspectos como desigualdades regionais, dimensão territorial, perfil epidemiológico e características do sistema de saúde brasileiro, fatores que também podem influenciar esse desempenho.

Os resultados ainda mostraram que o Brasil foi o único a figurar entre os três menos eficientes em três anos analisados.

Ao longo de um período de 10 anos, observamos que quatro países melhoraram sua eficiência, seis apresentaram piora e treze permaneceram sem alterações.

Premiação e impacto internacional

Os resultados do nosso estudo acabam de ser premiados. Fomos os vencedores do prêmio de artigo do ano da revista Value in Health Regional Issues, em 2026.

A premiação aconteceu em um evento na Filadélfia, nos Estados Unidos, e reconheceu trabalhos com impacto relevante na área da saúde. Estivemos ao lado dos demais vencedores nas áreas de liderança e excelência científica deste ano.

A metodologia utilizada foi híbrida, combinando Análise Envoltória de Dados com Regressão Tobit.

A Análise Envoltória de Dados (DEA, da sigla em inglês) é uma técnica de programação matemática não-paramétrica que mede a eficiência relativa de unidades produtivas (conhecidas como DMUs) para avaliar a eficiência dos sistemas de saúde. A Regressão Tobit foi utilizada para medir as variáveis relacionadas com o score de eficiência.

Neste estudo, os países latino-americanos foram considerados como unidades produtivas. A análise incluiu como variáveis os gastos com saúde; os números de leitos hospitalares por mil habitantes; médicos por mil habitantes e o número de enfermeiros por mil habitantes. Outras variáveis utilizadas foram a expectativa de vida ao nascer e a taxa de mortalidade infantil.

O estudo compreendeu uma análise temporal da eficiência para identificar tendências e padrões na amostra. E para elaborar os cálculos, utilizamos os dados mais recentes disponíveis (2017) do Banco Mundial.

Não basta investir, é preciso investir bem

Os serviços de saúde constituem parte fundamental do funcionamento da sociedade. Ao longo dos anos, recebem investimentos significativos para ampliar a incorporação de tecnologias, modernizar equipamentos e medicamentos e melhorar o acesso da população.

Em 2020, segundo dados do Banco Mundial, o investimento mundial em saúde ultrapassou 9 trilhões de dólares, correspondendo a cerca de 11% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Embora esse valor tenha sofrido uma variação expressiva em decorrência da pandemia de Covid-19, os gastos per capita com saúde aumentaram cerca de 70% entre o início da década de 1990 e 2010.

No entanto, investir mais não significa necessariamente obter melhores resultados. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirma que ainda há espaço para aumentar a eficiência dos gastos em saúde.

Segundo a organização, ganhos de eficiência poderiam elevar a expectativa de vida ao nascer em até dois anos.

A eficiência é determinada pela capacidade de alcançar melhores resultados utilizando os recursos disponíveis da forma mais adequada ou, alternativamente, alcançar os mesmos resultados com menor utilização de recursos.

Por isso, formuladores de políticas públicas, tanto em países de alta renda quanto em países de baixa e média renda, precisam monitorar continuamente a eficiência de seus sistemas de saúde para otimizar resultados e promover a sustentabilidade financeira rumo à cobertura universal.

O acompanhamento da eficiência por meio de indicadores de desempenho tornou-se, portanto, uma dimensão essencial da avaliação dos sistemas de saúde. Para comparar diferentes países, é necessário definir quais variáveis serão utilizadas e qual método será empregado para medir essa eficiência.

Foi nesse contexto que desenvolvemos este estudo, que analisou a eficiência dos sistemas de saúde de 23 países da América Latina e do Caribe.

A pesquisa fornece evidências que podem contribuir para uma gestão mais eficiente dos recursos públicos e para a oferta de serviços de saúde de maior qualidade e equidade, mesmo em cenários de restrição econômica.

Além disso, o estudo buscou preencher lacunas importantes da literatura. A primeira foi realizar uma análise comparativa envolvendo 23 países da região, enquanto a maioria das pesquisas anteriores se concentrava em apenas um país.

A segunda foi incluir praticamente todos os países latino-americanos e caribenhos, inclusive alguns que raramente aparecem em estudos comparativos, como a Venezuela.

Por fim, o trabalho se diferencia pela utilização de uma abordagem metodológica híbrida, combinando a Análise Envoltória de Dados (DEA) com modelos de regressão.

Os resultados mostraram-se consistentes com estudos anteriores sobre eficiência dos sistemas de saúde na América Latina, ao mesmo tempo em que ampliam o conhecimento disponível ao incluir um conjunto mais abrangente de países.


Esta pesquisa contou com o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação Carlos Chagas Filho para o Amparo da Pesquisa (Faperj) e da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Imagem do artigo

Igor Peres recebe financiamento da CNPq, Faperj e Capes.

Fonte
The Conversation Brasil
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