Desde 1970, indústria tabagista usa estratégias para atrair novos públicos. Dessa vez, jovens e mulheres

Por BdF Entrevista22/07/2026 às 00:550 visualizações
Aumento do número de fumantes entre jovens e mulheres acende alerta
Aumento do número de fumantes entre jovens e mulheres acende alerta
Brasil de Fato

O cenário do tabagismo no Brasil enfrenta um novo e alarmante desafio. Após décadas de queda constante no consumo, dados recentes indicam um retrocesso: o aumento do uso de cigarros e dispositivos eletrônicos, especialmente entre o público jovem e, pela primeira vez, com uma prevalência maior entre as mulheres.

Ao BDF Entrevista, Mariana Pinho, coordenadora da ACT Promoção da Saúde, alertou que a indústria tem se modernizado para atrair novas gerações por meio de canais digitais e produtos altamente viciantes, mas que isso não é exatamente uma novidade. Desde os anos 1970, a indústria do cigarro funciona sob essa perspectiva.

“O que muda são os canais de veiculação. No Brasil, onde a propaganda está proibida, exceto a exposição do maço no ponto de venda, a gente vê formas inovadoras de promover seus produtos. A gente vê nas redes sociais, nas plataformas de streaming, nos games. Há, sim, um forte esforço da indústria em se fazer presente dentro desse universo do jovem, e que é uma estratégia adotada há muitos e muitos anos”, exemplifica.

Os dispositivos eletrônicos para fumar, como o vape, e outras variações de cigarro, por exemplo, os saborizados, vêm sendo muito associados à cultura pop e caíram no gosto dos jovens. Contudo, apesar de parecerem mais inofensivos, são na verdade piores que o cigarro comum, trazendo mais concentração de nicotina. Além disso, muitos desses produtos trazem aditivos, segundo Pinho, para tornar a experiência de fumar mais prazerosa e, como consequência, mais viciante. “Esses produtos funcionam mesmo como um facilitador e muitas vezes um estimulante para as pessoas que estão ainda experimentando”, aponta.

A especialista afirma que o segredo do vício acelerado está no uso do sal de nicotina, que permite um aproveitamento maior da substância pelo organismo. “O impacto em nível cerebral está relacionado à dependência estabelecida de forma mais rápida. A gente tem visto jovens relatando que se viram dependentes, o que a gente não observava há 20, 30 anos atrás”, explica.

Mariana Pinho conta que o uso de aditivos como menta, melancia e canela na fabricação do cigarro está proibido no Brasil desde 2012. Contudo, a regra nunca foi implementada, segundo a especialista, porque a própria indústria do tabaco vem questionando a Anvisa sobre essa medida. “Questionam o poder de regular e o poder de proibir os aditivos de aromas nesses produtos. Por conta disso tudo, essa resolução da Anvisa não é implementada. Então, infelizmente, a gente tem os produtos como narguilé, cigarro convencional, cigarro de palha, tabaquinho, com aditivos de aroma.”

Para reverter o recente aumento de fumantes, que cresceu de 9% para 11% de 2023 para 2024, Mariana Pinho defende um conjunto de medidas urgentes, como a implementação da proibição de sabores nos produtos de tabaco, o aumento de preços e impostos e embalagens padronizadas, que podem ser um caminho para eliminar o design atraente de algumas marcas. “Os números acendem um alerta muito grande. É um retrocesso”, define. “Certamente não é um único fator, não. Mas um ponto que para nós pode estar contribuindo significativamente é a questão do preço dos cigarros. Lá, em 2011, o Brasil implementou uma medida importantíssima sobre essa questão: a definição de um preço mínimo, ou seja, não podia vender um cigarro na época, em 2011, 2012, a menos de R$ 5. A cada ano que passava o cigarro ficava um pouco mais caro e a prevalência de fumantes ficava mais baixa. A gente viu nitidamente as linhas se cruzando. Aumento do preço e redução da prevalência. Só que, depois, o preço mínimo ficou estagnado a R$ 5,50 e ficou oito anos sem nenhum aumento”, relata.

Para ouvir a entrevista completa, acesse o link abaixo:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Fonte
Brasil de Fato
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