Tarifa adicional de 25% dos EUA contra produtos brasileiros passa a valer nesta quarta (22)

22/07/2026 às 12:300 visualizações
Produtos como açúcar, etanol, tabaco, madeira e calçados passam a ser atingidos pela nova taxação
Produtos como açúcar, etanol, tabaco, madeira e calçados passam a ser atingidos pela nova taxação
Brasil de Fato

A tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros exportados ao país entra em vigor nesta quarta-feira (22). A medida foi anunciada após uma investigação do governo Donald Trump indicar que o Brasil supostamente adotaria práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os Estados Unidos. O governo brasileiro contesta as justificativas e considera que a decisão tem motivação política.

A cobrança será aplicada sobre cerca de três mil produtos brasileiros no momento da entrada nos Estados Unidos. Na prática, a tarifa aumenta o custo das importações para empresas estadunidenses e pode reduzir a compra de produtos brasileiros. Ao mesmo tempo, mais de dois mil itens ficaram fora da medida por serem considerados estratégicos para a economia estadunidense ou porque os Estados Unidos não produzem quantidade suficiente desses produtos.

Entre os principais produtos isentos estão petróleo bruto, café em grão, aeronaves, carne bovina, celulose, suco de laranja, ferro gusa e ferro nióbio. Já máquinas industriais, máquinas agrícolas, pneus, açúcar, etanol, tabaco, madeira, calçados, papel e parte dos produtos de alumínio passam a ser atingidos pela nova tarifa.

A investigação

A decisão é resultado de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (em inglês Office of the United States Trade Representative, USTR) com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O mecanismo permite ao governo estadunidense investigar práticas de outros países consideradas prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.

No relatório, o órgão afirma que políticas brasileiras seriam “irracionais” ou “restritivas” e poderiam “onerar ou restringir” o comércio com os Estados Unidos. Entre os pontos citados estão o sistema de pagamentos por PIX, a regulação de plataformas digitais, tarifas comerciais concedidas pelo Brasil a parceiros como México e Índia, o mercado de etanol, o combate à corrupção, a proteção da propriedade intelectual, o combate à pirataria, a demora na análise de patentes e o desmatamento ilegal.

A cobrança passou a valer mesmo após audiências públicas em que representantes da sociedade civil dos Estados Unidos e do Brasil se manifestaram contra a medida.

Durante as negociações, representantes do governo dos Estados Unidos demonstraram insatisfação com o andamento das conversas. Do lado brasileiro, negociadores classificaram as exigências estadunidenses como “muito ruim e desvantajosa” para a indústria e a agricultura brasileiras e relataram dificuldades para avançar nas negociações diante da falta de clareza sobre as demandas dos Estados Unidos.

O governo brasileiro classificou a decisão como um “marco lastimável” na relação entre os dois países. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) afirmou que a medida é “injusta e descabida” e declarou que o Brasil “não saiu da mesa de negociação”. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que “não cabe falar em retaliação” e disse que o Brasil seguirá “protegendo a nossa soberania geológica sem ‘viralatice’” e “a nossa democracia contra a interferência internacional indevida”.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a tarifa atingirá 18% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, considerando os dados de 2024. O percentual corresponde a US$ 7,4 bilhões. Considerando os dados de 2025, a participação cai para 15%, o equivalente a US$ 5,8 bilhões. O ministério afirma ainda que 57% dos produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos permanecerão sem tarifa.

No agronegócio, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil estima impacto anual de R$ 4,6 bilhões, valor correspondente a 36,5% das exportações do setor para os Estados Unidos. Dario Durigan afirmou que, apesar dos setores atingidos, a medida não terá impacto sobre “a economia do país como um todo”.

Reciprocidade

Após a confirmação da tarifa, o Palácio do Planalto informou que iniciou os trâmites para acionar a Lei da Reciprocidade Econômica. A legislação, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Lula (PT) em 2025, permite ao governo adotar medidas contra países que imponham barreiras comerciais, legais ou políticas ao Brasil.

Apesar disso, o governo ainda não anunciou medidas concretas com base na lei. A avaliação é que uma resposta imediata pode provocar nova reação dos Estados Unidos e ampliar as tarifas, como ocorreu na disputa comercial entre Estados Unidos e China.

Segundo integrantes do governo, a estratégia é manter o diálogo técnico e diplomático enquanto prepara medidas para reduzir os efeitos da tarifa sobre os setores atingidos.

Entre as ações em estudo estão linhas de crédito para empresas afetadas pelo tarifaço, financiamento para empresas misturadoras de fertilizantes, investimentos por meio do Plano Brasil Soberano e apoio à manutenção de empregos. Paralelamente, a ApexBrasil prepara um programa de diversificação de mercados com investimento de R$ 130 milhões para ampliar destinos das exportações brasileiras e aproveitar oportunidades do acordo entre Mercosul e União Europeia.

O governo brasileiro também acompanha uma nova investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos sobre supostas falhas na fiscalização de produtos produzidos com trabalho forçado. A medida pode resultar em uma tarifa adicional de 12,5%. Ainda não há definição se a cobrança será somada aos 25% que entram em vigor nesta quarta-feira. Caso as duas tarifas sejam acumuladas, parte dos produtos brasileiros poderá enfrentar sobretaxa de 37,5%. A decisão poderá ser anunciada nos próximos dias.

Fonte
Brasil de Fato
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