UFSM busca protagonismo em pesquisas com cannabis após novo marco regulatório da Anvisa

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22/07/2026 às 11:150 visualizações
Inflorescência feminina de Cannabis sativa: a ausência de fecundação estimula a produção de tricomas ricos em canabinoides e terpenos, foco principal para a padronização de extratos medicinais na UFSM
Inflorescência feminina de Cannabis sativa: a ausência de fecundação estimula a produção de tricomas ricos em canabinoides e terpenos, foco principal para a padronização de extratos medicinais na UFSM
Universidade Federal de Santa Maria

Uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicada no Diário Oficial da União em fevereiro de 2026 abriu um novo cenário para a pesquisa científica com Cannabis sativa no Brasil. A norma estabelece, pela primeira vez, regras específicas para o cultivo da planta exclusivamente para fins de pesquisa científica e tecnológica, criando condições para que as universidades federais e institutos ampliem sua atuação na área.

A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) já busca se posicionar como referência nacional nesse campo. Segundo o professor Dilson Bisognin, do Departamento de Fitotecnia do Centro de Ciências Rurais (CCR), a instituição deu início aos trabalhos para atender às exigências estabelecidas pela nova regulamentação e desenvolver uma estrutura robusta, capaz de sustentar estudos de alto rigor científico.

A RDC nº 1.012/2026 regulamenta toda a cadeia da pesquisa científica com cannabis, abrangendo desde a produção de material de propagação e o cultivo, inclusive in vitro, até a colheita e a obtenção do extrato bruto. Para Bisognin, o novo marco regulatório oferece a segurança jurídica necessária para que instituições públicas desenvolvam pesquisas e tecnologias com rastreabilidade, qualidade e controle, ampliando as possibilidades de inovação em uma área considerada estratégica para a ciência brasileira.

O primeiro passo é obter a autorização especial (AE) da Anvisa, indispensável ao cultivo da planta para fins de pesquisa. Para isso, a UFSM precisa adequar sua infraestrutura às exigências legais, que incluem rígidos protocolos de segurança física, controle de acesso e monitoramento das áreas de cultivo.

“A autorização para o cultivo é o ponto de partida para toda a cadeia de pesquisa. Sem acesso à matéria-prima produzida sob rigor científico e regulatório, não é possível desenvolver desde estudos agronômicos e farmacêuticos até pesquisas clínicas, inovação tecnológica e transferência de conhecimento para a sociedade”, afirma o docente.

Inflorescência feminina de Cannabis sativa: a ausência de fecundação estimula a produção de tricomas ricos em canabinoides e terpenos, foco principal para a padronização de extratos medicinais na UFSM
Inflorescência feminina de Cannabis sativa: a ausência de fecundação estimula a produção de tricomas ricos em canabinoides e terpenos, foco principal para a padronização de extratos medicinais na UFSM
Inflorescência feminina de Cannabis sativa: a ausência de fecundação estimula a produção de tricomas ricos em canabinoides e terpenos, foco principal para a padronização de extratos medicinais na UFSM

Ações previstas após a autorização especial da Anvisa

Entre as primeiras ações previstas pela UFSM está a completa readequação de uma casa de vegetação e outras estruturas de pesquisa, etapa considerada essencial para o início das atividades. Com a autorização especial para o cultivo de plantas para pesquisa e dispondo de estrutura física adequada, será possível desenvolver uma cadeia completa de pesquisa e inovação, envolvendo melhoramento genético, propagação clonal, produção de biomassa padronizada, desenvolvimento de tecnologias de extração e validação de métodos analíticos de alta precisão para a caracterização dos compostos presentes na planta.

Embora as inflorescências femininas não fecundadas (flores) concentrem a maior densidade de compostos (canabinoides e terpenos) para fins farmacêuticos, os pesquisadores da UFSM também visam explorar o aproveitamento integral da planta. Pesquisas futuras buscarão desenvolver tecnologias, processos e produtos a partir de outras frações vegetais (como folhas, caules e raízes), ampliando o leque de aplicações industriais e biotecnológicas.

De acordo com o professor, um dos principais desafios enfrentados atualmente pela comunidade científica é a falta de padronização da matéria-prima utilizada em pesquisas médicas. Variações na concentração de compostos secundários produzidos naturalmente pela planta – que são os canabinoides, como o tetrahidrocanabinol (THC), o canabidiol (CBD) e o canabigerol (CBG), além dos terpenos – entre diferentes cultivos dificultam a reprodução de resultados em estudos pré-clínicos e clínicos, comprometendo a comparação entre experimentos e o desenvolvimento de novas terapias. A produção de clones geneticamente definidos permitirá obter plantas com composição química estável e previsível, reduzindo essas variações e ampliando a confiabilidade das pesquisas.

A iniciativa também contempla o melhoramento genético e o desenvolvimento de práticas de cultivo adaptados às condições climáticas do Rio Grande do Sul, onde fatores como temperatura, fotoperíodo e estresses ambientais podem alterar o perfil químico da planta. Além disso, estão previstos estudos sobre sanidade vegetal e métodos de controle analítico capazes de assegurar a qualidade da biomassa produzida e dos extratos obtidos, bem como o monitoramento rigoroso contra a presença de contaminantes.

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Seminário vai discutir desafios e oportunidades

Para ordenar as ações necessárias ao atendimento das exigências legais da autorização especial de cultivo e aprofundar as discussões internas, o CCR e o Departamento de Fitotecnia da UFSM, por meio de uma comissão organizadora sob coordenação do professor Dilson Bisognin, promoverá o seminário “Desafios e oportunidades do cultivo de cannabis para pesquisa” no dia 13 de agosto.

O evento objetiva promover o debate institucional, científico e tecnológico sobre o cultivo e o uso medicinal de cannabis no Mercosul, posicionando a UFSM como polo de pesquisa, desenvolvimento científico e inovação biofarmacêutica diante do novo marco regulatório nacional.

Durante todo o dia, no Auditório Flávio Miguel Schneider, no Campus Sede, haverá mesa de abertura destacando a importância da universidade pública no desenvolvimento de novas cadeias produtivas e de saúde para o Rio Grande do Sul. A programação contará com palestra dedicada ao novo marco tegulatório; painel sobre o potencial multidisciplinar da UFSM na pesquisa científica e tecnológica; debate sobre avanços científicos e tecnológicos em cannabis na Argentina, Uruguai e Paraguai; análise sobre o ecossistema de negócios e o papel terapêutico das associações de pacientes; e os devidos encaminhamentos institucionais.

Também será realizada, como atividade paralela, a Mostra de Inovação e Tecnologia em Cannabis, com exposição de empresas de tecnologia, prestadores de serviços, indústrias e associações de pacientes, com vistas ao fomento de networking e à desmistificação científica do setor.

Mais informações sobre inscrições pelo email gipcannufsm@gmail.com. 

Foto: Dilson Bisognin/Arquivo pessoal

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