Racismo, xenofobia e intolerância religiosa: como pastor brasileiro difunde preconceito contra africanos

Por África & Diáspora22/07/2026 às 17:080 visualizações
ilustrar artigo
ilustrar artigo
Brasil de Fato

Por Elisabete Vitorino*

Nas últimas semanas, tem sido exibido nas redes sociais o vídeo de um pastor em um podcast. A entrevista do missionário mostra como mais um líder religioso brasileiro volta a chamar a atenção devido às suas declarações sobre aquilo que considera ser a realidade africana. No vídeo, o pastor afirma que “africanos são preguiçosos” e que lá existem “demônios”. As declarações do religioso chamaram a atenção de órgãos brasileiros para o caráter discriminatório, racista e xenofóbico.

As excursões religiosas ao continente africano não são recentes. Durante o período de avanço do capitalismo e do escravismo existiram inúmeras expedições ao continente africano. Essas ações se justificam pelo apoio e incentivo da Igreja Católica que afirmava que africanos não tinham alma e poderiam ser escravizados.   

O relato bíblico de Gênesis sobre a maldição lançada por Noé sobre seu neto, Canaã (filho de Cam), foi distorcido para rotular os descendentes de Cam como africanos e justificar a escravização de pessoas negras. A teologia cristã e missões coloniais europeias utilizaram essa interpretação para impor um sistema de dominação global, associando a cor da pele escura à inferioridade e à maldição. 

O racismo justificado pela religião se utilizou de dogmas e escrituras sagradas para legitimar a superioridade de um grupo sobre outro. Historicamente, religiões foram instrumentalizadas para justificar a escravidão, como no uso da “Maldição de Cam” no cristianismo e, mais recentemente, no crescente racismo religioso contra religiões de matriz africana. 

Quando o missionário vai até um podcast e afirma que na África existem “demônios de verdade”, ele propaga discurso de ódio, xenofobia e preconceito contra populações africanas. O entrevistado afirma que “o africano é meio preguiçoso” e “não gosta muito de trabalho”, generalizando de forma discriminatória. Também faz alegações desumanizantes, como dizer que crianças “comem barro achando que é chocolate”, e comentários depreciativos sobre higiene, reforçando estereótipos racistas.

Segundo o pastor, atuar no continente exige “muito amor” e “muito estômago”. Ao descrever a rotina no terreno, afirmou: “O africano, o nativo, tudo neles é muito difícil, eles não se adaptam às facilidades.” Como exemplo, o pastor contou que, numa das missões, comprou um fogão para uma comunidade, mas as mulheres continuaram a cozinhar no chão.

No Brasil, o racismo religioso se manifesta de forma evidente na discriminação contra as religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Esse preconceito é alimentado por uma construção teológica e cultural que associa a ancestralidade e as divindades africanas a imagens demoníacas. O racismo religioso engloba a violência física, o apedrejamento de terreiros e o desrespeito a símbolos e vestimentas sagradas. 

No âmbito jurídico, o racismo religioso é crime e está enquadrado na Lei 7.716/1989, que foi reforçada pela Lei 14.532/2023, a qual equipara a injúria racial ao racismo e prevê punições rigorosas para quem discrimina crenças. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de religião, raça ou cor é crime inafiançável e imprescritível. 

As declarações do pastor geraram críticas nas redes sociais, nas quais muitos internautas as classificaram como generalizações e estereótipos sobre os povos africanos. Os comentários reacenderam o debate sobre a diversidade do continente, com vários utilizadores a salientarem que África é composta por 54 países, com diferentes culturas, tradições e níveis de desenvolvimento, não sendo possível caracterizar essa realidade com base em experiências pontuais.

*Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.