Encontro em Brasília pressiona por criação da Comissão Nacional Indígena da Verdade

Por Isegun Oliveira22/07/2026 às 17:000 visualizações
Mulheres indígenas na linha de frente da marcha pela demarcação de terras no ATL 2026
Mulheres indígenas na linha de frente da marcha pela demarcação de terras no ATL 2026
Brasil de Fato

Lideranças indígenas de diferentes regiões do país defenderam na terça-feira (21), em Brasília, a criação de uma Comissão Nacional Indígena da Verdade e denunciaram que a violência contra os povos originários, praticada com especial crueldade durante a ditadura militar, permanece presente sob novas formas. O debate marcou a abertura do Encontro de Lideranças da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), que segue até quinta-feira (23) com representantes de organizações indígenas para discutir memória, justiça de transição e reparação histórica.

A APIB apresentou uma metodologia de pesquisa conduzida exclusivamente por pesquisadores indígenas para documentar violações de direitos humanos sofridas por diferentes povos. O trabalho, construído a partir de mais de 70 horas de formação, prioriza a escuta ancestral, respeitando as línguas originárias, os tempos e os modos próprios de cada comunidade. A iniciativa resultou em oito estudos de caso inéditos que registram práticas como tortura, trabalho forçado, remoções compulsórias, sequestro de crianças e outras práticas que arriscaram exterminar povos indígenas durante a ditadura. Todo o material produzido será devolvido às comunidades participantes.

Segundo os organizadores, o principal objetivo é reunir elementos técnicos e ampliar a pressão política para que o governo federal institua, por decreto, uma Comissão Nacional Indígena da Verdade. A proposta atende a uma recomendação da Comissão Nacional da Verdade de 2014, cujo relatório estimou que ao menos 8.350 indígenas foram mortos durante a ditadura militar. A minuta do decreto já foi entregue ao Executivo e recebeu apoio de dezenas de instituições e pareceres jurídicos favoráveis.

Ao final do primeiro dia do encontro, as lideranças aprovaram por unanimidade a realização, em 2027, de um Seminário Internacional sobre Direitos Indígenas e Justiça, que reunirá representantes de comissões da verdade e delegações de diversos países. Também foi confirmada a continuidade do Mapa Interativo: Povos Indígenas, Memória, Verdade e Justiça, plataforma que reunirá mais de 90 casos documentados de violência e deverá servir como instrumento de incidência política.

Para Paulino Montejo, a reivindicação vai além da criação de uma comissão. “Nossa luta não é apenas por uma Comissão da Verdade. Nossa luta é para reescrever a história mentirosa e falsa que foi contada sobre o Brasil”, afirmou. Segundo ele, o protagonismo indígena na produção das pesquisas representa uma ruptura com modelos tradicionais de investigação conduzidos por agentes externos às comunidades.

A violência denunciada

Após uma provocação do articulador político da APIB, Paulino Montejo — que perguntou quantos dos presentes haviam vivenciado a violência da ditadura —, o encontro foi tomado por relatos de perseguições, remoções forçadas, torturas, destruição cultural e ataques aos territórios indígenas. Lideranças lembraram abusos cometidos ainda na época do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), órgão criado em 1910 e substituído pela Funai em 1967, e afirmaram que a violência estatal e a pressão sobre os territórios continuam até os dias atuais.

Entre os depoimentos, Sinhozinho Tupiniquim afirmou que o processo de violência buscou eliminar a existência dos povos indígenas. “Acabaram com a gente. Não teve morte matada com armas em todos os lugares, mas mataram a nossa cultura, mataram o nosso povo e quiseram acabar com a nossa existência”, relatou, acrescentando que a resistência permitiu a reconstrução das aldeias.

O cacique Tenon recordou histórias transmitidas por sua mãe sobre a atuação do SPI. Segundo ele, indígenas eram submetidos a torturas, estupros, trabalho forçado e escravidão. Já o cacique Toninho relembrou a remoção compulsória de seu povo durante a ditadura para uma fazenda que, segundo descreveu, funcionava como uma prisão, onde tentaram apagar a cultura e a língua materna das comunidades.

As denúncias também abordaram a continuidade da violência. A professora e liderança indígena Renata Castelão, de Mato Grosso do Sul, afirmou que fazendeiros organizaram milícias rurais contra comunidades indígenas e criticou a impunidade dos responsáveis. “A gente precisa olhar para o que aconteceu para saber como agir daqui para a frente”, declarou.

Fonte
Brasil de Fato
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