
A derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo encerra um ciclo de expectativas construídas ao longo de anos e deixa muitos torcedores com a sensação de vazio e frustração. Perguntas como “E se o time fosse outro?”, “E se a substituição não tivesse sido feita?” ou “E se o pênalti tivesse sido convertido?” passam a ocupar o pensamento de quem acompanhou a campanha da equipe. Embora o sonho do título tenha sido adiado por mais quatro anos, especialistas destacam que derrotas também ensinam a lidar com perdas e a compreender que, no esporte, os resultados nem sempre são previsíveis.
Além do aspecto esportivo, a prática de atividades físicas ajuda crianças e adolescentes a entenderem que vencer nem sempre é possível. Aprender a conviver com derrotas faz parte do desenvolvimento emocional e contribui para a formação de pessoas mais resilientes. Para muitos brasileiros, no entanto, a eliminação da seleção rompe uma longa construção de expectativas e desperta sentimentos como tristeza, vazio e decepção.
O futebol como parte da identidade brasileira

Independentemente da idade, o futebol ocupa um espaço importante na cultura e na identidade nacional, tornando a derrota especialmente dolorosa. Segundo o psicólogo e psicanalista Christian Dunker, do Instituto de Psicologia da USP, o esporte faz parte da forma como os brasileiros contam sua própria história. “Há muitos motivos pelos quais o brasileiro se frustra particularmente com o futebol. O futebol faz parte da nossa narrativa nacional. Nós recontamos a história do país a partir das Copas de 1950, 1958, 1970 e também das grandes frustrações.”
Para Dunker, a intensidade da reação emocional também está relacionada às características do próprio futebol. “O futebol é um dos poucos esportes em que o mais fraco pode ganhar. Isso simboliza os sonhos daqueles que convivem com vulnerabilidades e improbabilidades.”
O especialista explica que torcer é uma forma de desejar e alimentar esperanças, o que torna a frustração ainda maior quando o objetivo não é alcançado.
“Torcer é um sinônimo de desejar, de querer, de sonhar. O futebol faz parte da política dos sonhos. Sonhamos com o improvável e com o impossível.”
Quando a derrota se transforma em luto coletivo
Em uma Copa do Mundo, a decepção não é apenas individual, mas compartilhada por milhões de pessoas. Quanto maior a expectativa criada em torno da conquista do título, maior tende a ser o impacto emocional provocado pela eliminação.
Segundo Dunker, esse sentimento pode ser comparado a um processo de luto, pois representa o encerramento de um ciclo de esperança, encontros e celebrações. “Não é nenhum exagero falar em luto. A perda representa uma ferida narcísica. O futebol é cheio de futuros possíveis e, justamente por isso, também captura o nosso luto.”
Mesmo diante da frustração, o psicanalista afirma que o desejo de torcer permanece e que as derrotas fazem parte da própria construção dos sonhos.
“As decepções e frustrações não acabam com o desejo. Pelo contrário, elas o alimentam. Nosso desejo também é feito de derrotas e de faltas.”
Para o especialista, aceitar perdas, mudanças e frustrações é um aprendizado que vai muito além do esporte. Esse processo começa ainda na infância, quando crianças aprendem que ouvir um “não” também faz parte da educação. Como conclui Dunker, o verdadeiro cuidado não consiste em atender todos os desejos, mas em ensinar que limites, derrotas e frustrações fazem parte da vida e são fundamentais para o amadurecimento emocional.
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