Marisa Monte, embaixadora do programa USP Diversa, é homenageada na Faculdade de Direito

Por Adriana Cruz22/07/2026 às 17:222 visualizações
Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Foto: cica@usp.br / Jornal da USP

Marisa Monte, embaixadora do programa USP Diversa, é homenageada na Faculdade de Direito

Artista, que recebeu o título de Doutor Honoris Causa da USP, participou de um debate sobre a relação entre arte, direito e cultura, que marcou o lançamento das comemorações do bicentenário da Faculdade

 Publicado: 22/07/2026 às 14:22

Texto: Adriana Cruz

Arte: Heloisa Falaschi*

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Marisa Monte, embaixadora do programa USP Diversa, é homenageada na Faculdade de Direito

Artista, que é Doutora Honoris Causa da USP, participou de um debate sobre a relação entre arte, direito e cultura; evento marcou o lançamento das comemorações do bicentenário da Faculdade

 Publicado: 22/07/2026 às 14:22

Texto: Adriana Cruz

Arte: Heloisa Falaschi*

A cantora Marisa Monte na cerimônia na Faculdade de Direito da USP  – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Em um evento que lotou o Salão Nobre, realizado no dia 21 de julho, a cantora e compositora Marisa Monte recebeu uma homenagem na Faculdade de Direito (FD) da USP. O encontro, que teve como tema “Arte, Direito e Cultura: reflexão, desafios e perspectivas” marcou a abertura das atividades para as comemorações do Bicentenário da Faculdade e contou com a participação do reitor da USP, Aluisio Segurado; da diretora da FD, Ana Elisa Bechara; do superintendente de Relações Institucionais da USP e professor da Faculdade, Heleno Torres; e da professora da Faculdade de Medicina (FM), Ludhmila Hajjar.

Com uma relação muito especial com a USP, Marisa é, desde 2022, embaixadora do USP Diversa, programa de doações voltado para o financiamento de bolsas de permanência estudantil para estudantes em condições de vulnerabilidade socioeconômica. Além disso, em julho de 2023, criou o Espaço Imaginário Marisa Monte, no Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas, onde estão disponíveis instrumentos musicais, uma televisão, materiais para desenho e livros doados por diversas editoras para oferecer aos pacientes conforto emocional durante os períodos de internação no hospital.  Em dezembro de 2023, o Conselho Universitário aprovou a outorga do título de Doutora Honoris Causa à artista. Em 2024, em comemoração aos 90 anos da USP, Marisa fez um show na Praça do Relógio, no campus da USP em São Paulo, que reuniu quase 60 mil pessoas.

“Ao dar início às celebrações dos 200 anos do curso de direito no Brasil, dialogando justamente com Marisa Monte, reafirmamos uma convicção que acompanha a história das Arcadas. O direito jamais alcança plenamente sua vocação quando se distancia da cultura. De fato, se o direito organiza a vida em sociedade, é a cultura que lhe oferece horizontes. Se o direito protege os direitos e liberdades, a arte nos lembra porque esses valores importam. Finalmente, se o direito estabelece limites ao poder, é a cultura que preserva aquilo que impede que o poder deixe de enxergar a humanidade das pessoas sobre as quais ele atua. Por isso, não existe ciência sem cultura. E não existe cultura verdadeiramente livre onde a democracia é ameaçada”, afirmou a diretora da FD, na abertura do evento.

Ana Elisa destacou que “a Faculdade de Direito sempre compreendeu que a formação jurídica não pode se limitar à técnica. O direito quando perde contato com a literatura, com a filosofia, com a música, com a arte, com todos os palcos de criação humana, ele corre o risco de esquecer aquilo que lhe dá sentido. Se a técnica organiza, a cultura humaniza. E o Direito precisa das duas, técnica e cultura. Por isso, a essência da formação jurídica deve ser humanista. E esse talvez seja um dos maiores desafios das Faculdades de Direito da nossa sociedade no século 21”.

“Vivemos uma época de extraordinário desenvolvimento tecnológico, temos acesso a uma quantidade imensa de informações, de dados, de instrumentos jurídicos, mas ao mesmo tempo nós continuamos convivendo com desigualdades profundas, com violência, com intolerância e com exclusão. E isso nos impõe, então, uma autocrítica fundamental. Nenhum processo é só processo. Antes de chegar aos autos, cada causa, cada conflito é a experiência da vida de alguém. E compreender isso é uma das primeiras condições para que o direito permaneça fiel à sua vocação humanista. Justamente por isso nós estamos aqui hoje nesse Salão Nobre. Não só para homenagear uma artista tão extraordinária, mas para afirmar uma determinada ideia de universidade. Uma universidade em que a ciência e a cultura caminham juntas, em que conhecimento e sensibilidade não são opostos, em que formar profissionais significa também e, sobretudo, formar cidadãos. Ao iniciar o bicentenário por meio da arte, reafirmamos nosso compromisso com o terceiro século das Arcadas, marcado pela formação de mulheres e homens tecnicamente preparados, intelectualmente livres e humanamente sensíveis. Porque é dessa combinação que nascem instituições capazes de servir verdadeiramente à democracia”, considerou.

Fonte de inspiração

O reitor Aluísio Segurado ressaltou que celebrar o bicentenário da Faculdade é honrar as origens da própria Universidade. “Ouso pedir que possamos tomar emprestado o laço de seus 200 anos para honrar plenamente a missão da USP junto à sociedade paulista e brasileira. A USP de pouco mais de 90 anos, uma jovem, que traz consigo a herança e a promessa de uma história bicentenária desta casa. Instituição basilar na formação jurídica e política da nação, a velha e sempre nova Academia do Largo de São Francisco é reconhecidamente um pilar estruturante do Estado Democrático de Direito Brasileiro. Desde sempre destinada a confundir-se com a história de São Paulo e do Brasil, sua relevância no cenário nacional não se limita à importante missão de de formar bacharéis altamente qualificados para a prática jurídica no país. Cabe merecidamente o reconhecimento de representar um celeiro de juristas e personalidades públicas comprometidas com a defesa e preservação da democracia e com o desenvolvimento social do Brasil”, disse.

“Expoente da música brasileira de reconhecimento nacional e internacional, Marisa é uma fonte de inspiração na promoção da essência da cultura brasileira, ao pesquisar as nossas tradições e raízes, e de modo inclusivo, dar-lhe novos matizes e nuances de uma sonoridade contemporânea. Parabéns pela qualidade de sua arte que nos ilumina e aquece nossos corações. Devo, em nome da Universidade, expressar uma vez mais nossa imensa gratidão por sua incansável e generosa atuação como embaixadora do programa USP Diversa, desenvolvido com a participação de nosso fundo patrimonial. A iniciativa vem, de forma muito exitosa, contribuindo para o necessário apoio à permanência estudantil e, consequentemente, para o sucesso da trajetória de formação de uma geração de nossos estudantes”, disse o reitor. 

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Cecília Bastos/USP Imagens
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O superintendente de Relações Institucionais da USP, Heleno Torres, também falou sobre a importância do trabalho de Marisa à frente do USP Diversa. “Sempre foi um objetivo para nós reverenciar sua presença dentro da Universidade, dando tantos espaços para que, com sua liderança, possamos alcançar financiadores, empresas e também difundir, ao máximo, esse programa e seus propósitos”, considerou.

Torres mencionou a ação conjunta com a cantora junto aos órgãos governamentais: “Juntamente com a Marisa, temos que falar a respeito de diversas ocasiões sobre o nosso papel junto ao Congresso Nacional, junto ao Supremo Tribunal Federal e a outras instituições de como garantir a proteção do artista brasileiro, a proteção da música brasileira, mas também a proteção de todo tipo de manifestação cultural”.

A professora Ludhmila Hajjar, por sua vez, fez um paralelo entre a área de saúde e o direito: “Direito, cultura, arte e ciência são dimensões de uma única responsabilidade cívica: construir uma sociedade que proteja a vida e reconheça a dignidade das pessoas”.

Ludhmila falou da parceria com a Marisa para o projeto de criação do “primeiro hospital inteligente do SUS [Sistema Único de Saúde], um hospital público que vai ser capaz de usar dados, inteligência artificial, ter saúde, interoperabilidade e gestão em tempo real para salvar mais vidas, para fazer o paciente certo, chegar no momento certo, no hospital certo e receber o melhor tratamento. Marisa me ajudou na concepção, a pensar o modelo jurídico, apresentou pessoas, abriu portas”.

Em seguida, Marisa foi homenageada com a apresentação de um vídeo que celebrou sua trajetória e recebeu a comenda “Amigos 200 anos”, entregue pela vice-presidente da Associação dos Antigos Alunos da FD,  Andréa Maria Mustafá Moysese, e um buquê de flores das mãos da presidente da Casa dos Estudantes da Faculdade, Maria Vitória dos Santos Barboza.

Políticas públicas

Em seu pronunciamento, a artista falou sobre seu papel como embaixadora do USP Diversa, que permitiu “transformar uma política universitária de inclusão em uma verdadeira política de Estado, destinada a garantir condições de permanência estudantil nas universidades públicas e privadas”, referindo-se à sua atuação junto ao poder Legislativo para a elaboração do projeto de lei nº 3118/24, altera as regras do Fundo Social para incluir as políticas de assistência estudantil no ensino superior e na educação profissional pública federal.

O projeto está, atualmente, em fase de implementação. “Essa nova lei garante condições para que os estudantes possam concluir sua graduação com dignidade, promovendo inclusão em sua dimensão mais profunda, duradoura e transformadora que só a educação que pode nos proporcionar”, afirmou.

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Marisa destacou, também, a vulnerabilidade de músicos e compositores que ainda vivem à margem dos mecanismos formais de proteção e enfatizou que a Lei de Direitos Autorais cumpriu seu papel na época em que foi criada, mas hoje precisa de adaptações estruturais. “A lei precisa responder a essa nova realidade. Precisa reconhecer com clareza as atribuições, as responsabilidades das plataformas digitais e das fintechs. E exigir transparência, assegurar a remuneração justa, reconhecimento para as criadoras e impedir que a inovação seja construída às custas da injustiça e da exclusão”, afirmou.

Ao final da cerimônia, Marisa cantou as músicas Carinhoso e Vilarejo, acompanhada pela Camerata Phonica, com a regência do maestro André Bachur. 

Assista, a seguir, à íntegra do evento.


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