
La Cuarta Estrella, como foi nomeada a composição cantada por multidões que se negavam a sair de imediato dos estádios nos quais a seleção argentina realizava seus jogos, é uma síntese de versões da história argentina e de seu futebol. E como em uma milonga de Gardel e Le Pera, apresenta com paixão as dores de um amor incondicional pelo esporte bretão. A letra faz referência a uma vingança por uma taça roubada, pelas Malvinas, por Diego, faltando apenas o som de um bandoneon, e “una pareja” trajada para dançar o tango e fazer o espetáculo.
Paralelamente, em grupos de WhatsApp discuto com minhas sobrinhas e alguns amigos sobre quem será merecedor de minha torcida. Na verdade, essa discussão se arrasta desde o resultado das semifinais quando foram definidas as seleções que fariam o último jogo. Era de se esperar que a racionalidade passaria ao largo dessa discussão. Alegando rivalidade histórica com os “hermanos” grande parte de minhas e de meus camaradas declarou sua torcida à Fúria, alcunha do time espanhol. Sendo brasileira em idade que permite ter lembranças vivas de futebol desde a Copa de 1970 entendo tanto a racionalidade quanto a irracionalidade dessa escolha. (Nesse momento, solto um suspiro e deixo ser invadida pela beleza daquele futebol que agora só vive em minha memória, mas rapidamente volto para o texto.)
E, enquanto construo meus argumentos, sou invadida por uma mensagem que afirma a necessidade de refletir sobre tudo isso. O vídeo protagonizado por um “torcedor raiz”, para defender sua torcida pela Espanha, e seu ataque a quem torcerá pela Argentina, dispara seu raciocínio colérico ao que ele denomina “torcidinha intelectual” e na sequência justifica sua ira a quem mistura futebol e xenofobia, política, racismo, colonialismo, reparação histórica e outros conceitos caros às epistemologias do sul e ao decolonialismo. E nesse momento fui obrigada a alterar o curso de minhas ideias para seguir escrevendo.
Ainda lembrando da Copa de 1970, quando a canção Pra frente Brasil era entoada como o hino do tricampeonato e todos vestiam com orgulho a camisa da seleção brasileira, feita ainda em fio de algodão e não dry fit, o futebol como ópio do povo era discutido nos círculos de enfrentamento à ditadura, mas não havia quem questionasse o quão fundo aquele jogo estava entranhado na alma brasileira. O mesmo acontecia no Uruguai, na Argentina e um pouco menos no Chile, sede da Copa de 1962, países dominados por ditaduras sanguinárias, que em quadriênios desfrutavam da fantasia de torcer por uma nação suspensa de todos os horrores do autoritarismo.
No Brasil, em quase meio século, a relação com a seleção de futebol sofreu uma grande transformação. A camisa amarela foi ressignificada não com o sucesso de um futebol arte, mas com um pseudonacionalismo que se aproxima mais do entreguismo do que do pertencimento. Jogadores repatriados em busca de mercados de trabalho rentosos não são promotores de identidade e subjetividade relacionada à bola, mas aos valores secundários proporcionados com ela como número de seguidores, tatuagens, carros e outros “troféus” indicadores de prestígio.
Enquanto isso, ao longo dessas semanas, a arquirrival fez exibições de fazer o coração sair pela boca, com jogos decididos nos acréscimos dos tempos regulamentares ou nas prorrogações. Liderados por dois Lios, um leão fora e outro dentro de campo, passionais e apaixonados pelo jogo e pelo que o jogo representa para si e para os demais, a seleção argentina faz brotar em muitos brasileiros o sentimento capaz de provocar o drama e a tragédia: o ciúme e a inveja. O ciúme de uma torcida genuinamente apaixonada por seu time, que os brasileiros só experimentam pagando; ciúme de uma alegria infantil que os brasileiros perderam ao terem suas almas vendidas ao mercado pelos agentes da bola; ciúme de jogar como crianças que brincam. E inveja de um futebol que já não mais jogamos; inveja de uma relação com as raízes culturais que os nossos já perderam; inveja da qualidade de vínculo que um grupo desacreditado no princípio chega agora à disputa de um bicampeonato consecutivo, que o Brasil não experimenta há três décadas. E sabe-se lá quando voltará a experimentar.
E aqui volto ao vídeo que queria destituir essa final de seu contexto social e histórico. Sempre que vejo ou ouço pessoas querendo reduzir o esporte apenas a uma competição percebo a dificuldade e o esforço que é trazer essa questão para dentro da universidade e tratá-la como um tema de pesquisa e produção acadêmica prestigiados. Sensível e popular como é, facilmente é capturado pela banalidade, resignando-o àqueles momentos da realização dos grandes eventos, reduzindo os atletas a meros bonecos executores de altas habilidades motoras, impedindo-os de serem porta-vozes de temas de interesse global, como foi Maradona, um dos ídolos dessa seleção argentina que joga não apenas para ser a melhor, mas para dizer ao mundo que gracias a la vida, el canto de ustedes que es el mismo canto, y el canto de todos que es mi propio canto.
Terminado o jogo, a Espanha tornou-se bicampeã mundial. Coube à seleção argentina a medalha de prata, tão desprezada por carregar o peso de uma derrota.
E passado o efeito inebriante de uma quase vitória, e lembrando a afirmação do uruguaio Eduardo Galeano “o futebol é a única religião que não tem ateus”, é preciso aproveitar esse momento para discutir questões fundamentais observadas nesse campeonato, mas são a continuidade de ações passadas que turvam a beleza das manifestações das últimas semanas. O racismo e a xenofobia evidentes nas arquibancadas e nas ruas frequentadas pela apaixonada torcida argentina precisam ser expostos e combatidos com a mesma paixão com que se torce pela seleção. A inegável força que esses torcedores têm para empurrar a seleção para vitórias improváveis poderia ser usada para reduzir e eliminar a desumanização que acontece ao seu redor.
Ainda é tempo. Quem sabe em 2030 o espetáculo da torcida hermana possa ser ainda melhor.
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