No último domingo, Belo Horizonte voltou a ocupar as ruas com a 27ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+, que neste ano trouxe um tema profundamente conectado ao momento político que vivemos: “Democracia: nosso voto, nossas vidas”. A escolha não poderia ser mais necessária. Em tempos em que discursos de ódio voltam a ganhar espaço e direitos historicamente conquistados são colocados em disputa, ocupar as ruas também é defender a democracia.
A pesquisa realizada pela UFMG durante a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ revelou um dado importante sobre quem ocupa esse espaço. Quase 60% do público é formado por pessoas negras — 40,4% pardas e 19,3% pretas. A maioria vive com renda de até cinco salários mínimos, estudou em escola pública e mora em Belo Horizonte ou na Região Metropolitana. Mais do que um retrato estatístico, esses dados revelam uma mobilização cada vez mais enraizada entre a população trabalhadora, nas periferias e entre a juventude negra.
Esses números desmontam a narrativa de quem insiste em reduzir a Parada a uma festa. Ela é, antes de tudo, um espaço de mobilização política e um retrato das desigualdades que atravessam a população LGBTQIAPN+ brasileira. É o encontro de pessoas que enfrentam diariamente o racismo, a LGBTfobia, a violência, a exclusão do mercado de trabalho e a ausência de políticas públicas.
Ao mesmo tempo, a Parada vive um importante processo de renovação. É possível perceber um esforço para fortalecer seu caráter popular, ampliando o protagonismo da juventude negra, das periferias, das favelas e dos movimentos sociais. Também há uma preocupação em não reduzir esse encontro a um grande festival cultural, mas reafirmá-lo como um espaço de organização política, formação cidadã e defesa de direitos.
Esse movimento dialoga com experiências de outras capitais brasileiras e fortalece a articulação entre as paradas do país. Em Minas Gerais, também aponta para a interiorização do movimento, aproximando a luta de cidades que historicamente tiveram pouca visibilidade. Em um ano eleitoral, o tema “Democracia: nosso voto, nossas vidas” reforça que defender direitos também passa pela participação política, pela valorização do voto e pela ampliação da representação LGBTQIAPN+ nos espaços de decisão.
Quando uma jovem negra e lésbica da periferia ocupa o centro da cidade, ela afirma seu direito de viver. Quando uma mulher trans preta sobe em um trio elétrico, desafia uma sociedade que insiste em negar sua existência. Quando milhares de pessoas caminham juntas, demonstram que a democracia só faz sentido se garantir dignidade para todas as vidas.
Como deputada estadual, mulher preta, periférica e defensora dos direitos humanos, sempre compreendi que não existe combate ao racismo sem enfrentar a LGBTfobia. Também não existe justiça social enquanto pessoas negras LGBTQIAPN+ continuarem sendo as mais atingidas pela violência, pelo desemprego e pela exclusão.
Políticas públicas
Por isso, nossa mandata fez uma escolha política: fortalecer quem organiza essa luta nos territórios. Destinamos emendas parlamentares para apoiar as Paradas do Orgulho LGBTQIAPN+ de Belo Horizonte, Ribeirão das Neves, Santa Luzia, Sete Lagoas, Uberlândia e outras iniciativas da Região Metropolitana. Também garantimos recursos para qualificação profissional de pessoas LGBTQIA+ privadas de liberdade e para ações de formação, acolhimento e fortalecimento de organizações que atuam diariamente na defesa dessa população.
Entendemos que políticas públicas precisam existir durante todo o ano, fortalecendo a cultura, a saúde, a convivência comunitária e garantindo que a população LGBTQIAPN+ tenha acesso aos seus direitos antes que a violência aconteça.
Um exemplo importante desse caminho é a decisão da Unimontes de ampliar o acesso de pessoas trans ao ensino superior. Essa iniciativa é resultado de um diálogo iniciado a partir de uma provocação da nossa mandata para que a universidade avançasse na construção de políticas de inclusão. Como resultado, a Unimontes passou a reservar vagas para pessoas trans em programas de pós-graduação, garante o uso do nome social em seus registros acadêmicos e desenvolve iniciativas como o projeto de extensão “(In)Serto”, que prioriza bolsas para estudantes LGBTQIAPN+.
Infelizmente, ainda vivemos em um país onde ser uma pessoa LGBT, especialmente negra e periférica, significa enfrentar barreiras na escola, no mercado de trabalho, nos serviços de saúde e, muitas vezes, dentro da própria família. A pesquisa da UFMG revela que 45,2% das pessoas entrevistadas já sofreram violência no ambiente familiar por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero, e mais da metade relata ter sofrido violência durante a vida escolar.
Defender a Parada é defender o direito de existir. É afirmar que ninguém deve ser perseguido por amar quem ama ou por ser quem é.
No último domingo, milhares de pessoas ocuparam as ruas de Belo Horizonte. Muitas vieram das vilas, das favelas, das periferias e das cidades da Região Metropolitana. São trabalhadores e trabalhadoras, estudantes, mães, pais, jovens e pessoas idosas que transformam a Parada em um dos maiores atos populares de Minas Gerais.
A democracia não se fortalece apenas nas urnas. Ela também se constrói quando todas as pessoas podem ocupar as ruas, viver sem medo e ter seus direitos respeitados. Enquanto houver quem tente apagar essas vidas, seguiremos garantindo visibilidade, construindo políticas públicas e ocupando todos os espaços de poder.
Andreia de Jesus (PT) é educadora popular, advogada, mãe solo e deputada estadual em Minas Gerais
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Leia outros artigos de Andreia de Jesus em sua coluna no Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato
