Os colonos alemães e a agricultura familiar

Por Vicente Rauber23/07/2026 às 14:330 visualizações

* Colaboração de Decio Aloisio Schauren

No dia 25 de julho comemoramos o dia do colono. Refere-se à chegada dos imigrantes alemães, decisivos na implantação da agricultura familiar, do cooperativismo e contribuições no ensino, indústria, gastronomia e cultura.

O Brasil é grande não só pela sua dimensão geográfica e pelos seus recursos naturais, mas também pela riqueza da sua diversidade cultural. Povos originários, africanos escravizados e inúmeras etnias europeias e asiáticas, todas a seu modo, apesar das tentativas de exclusão da sua herança cultural, contribuíram de forma decisiva para a construção da nação brasileira.

Neste artigo vamos falar de uma das etnias, a dos imigrantes alemães, que aqui constituíram-se como colonos, cuja data comemoramos em 25 de julho.

Expulsos da Alemanha pela guerra e crise econômica, o Império os mandou para florestas, sem apoio e tendo que jogar-se contra os indígenas

Os imigrantes alemães do primeiro período (1824–1830) chegaram ao Brasil como soldados e colonos, convidados pelo Império brasileiro, para defender nossa independência e para defender e fortalecer nossas fronteiras no Sul contra o avanço dos países de língua espanhola. Chegaram aqui, praticamente expulsos da Alemanha pelas guerras e pela grave crise econômica, com o objetivo de construir vida nova no Novo Mundo. Desenvolveram no Brasil um novo modelo de produção em contraposição ao sistema escravista, qual seja, a produção familiar, no que foram acompanhados, mais tarde, por imigrantes de outras etnias.

A agricultura familiar brasileira é a oitava maior produção de alimentos do mundo. Em apenas 23%das áreas agrícolas, atua em 77% das propriedades e coloca mais de 70% dos alimentos na mesa dos brasileiros

A agricultura familiar ocupa somente 23% das áreas agrícolas do país, mas é realizada em 77% das propriedades rurais e coloca mais de 70% de toda a comida na mesa dos brasileiros. A agricultura familiar brasileira é a oitava maior produção de alimentos no mundo. Não por acaso a FAO, órgão da ONU para Alimentação e Agricultura, em 2014, reconheceu o 25 de julho como dia da agricultura familiar. A Lei nº 5.496, de 5 de setembro de 1968 instituiu o dia 25 de julho como Dia do Colono.

O sistema cooperativo representa 8% do PIB nacional. No RS, em 2025, movimentaram mais de R$ 100 bilhões e envolveram 4,4 milhões de pessoas

Devemos aos colonos alemães o início do sistema de crédito cooperativo. As cooperativas, que atuam principalmente nas áreas de produção agrícola e agroindústria, crédito, indústrias e trabalho representam mais de 8% do PIB brasileiro. Só no RS, em 2025, movimentaram mais de R$ 100 bilhões, envolvendo 4,4 milhões de pessoas, quase um terço da população gaúcha. Tudo começou em Nova Petrópolis, com as “caixas rurais”, incentivadas pelo padre Theodor Amstad.

Os imigrantes alemães, com suas escolas comunitárias e com sua dedicação ao ensino, desde o início, aliaram-se às igrejas Católica e Evangélica Luterana e hoje constituem grande parte do ensino privado – escolas e universidades confessionais – no Brasil, em especial no RS.

A partir da iniciativa dos artesãos alemães, desenvolveram-se grandes centros industriais, contribuindo de modo significativo para a industrialização do Brasil. Mais tarde, vieram da Alemanha importantes profissionais. Entre outros, destacaram-se arquitetos, que projetaram e construíram os principais prédios históricos de Porto Alegre e outras cidades. O principal deles foi Theo Wiederspahn.

As novas tecnologias, incluindo a IA, são fundamentais em nossa época. Podem e devem auxiliar os colonos e sua agricultura familiar, mas não os substituirão. Os colonos são e serão estratégicos, garantindo alimentos saudáveis em nossas mesas.

Como tudo começou e transcorreu: vide a seguir o artigo de Décio Schauren, historiador e pesquisador de História da Imigração Alemã no Brasil.

“No dia 25 de julho comemoramos o Dia do Colono. Também é o Dia da Imigração Alemã no Brasil. Neste dia, em 1824, chegava a São Leopoldo a primeira leva de 39 colonos de uma imigração sistemática que trouxe cerca de 300 mil alemães para o nosso país. Não eram somente agricultores. Vieram muitos artesãos, técnicos das mais variadas profissões.

Segundo o historiador Carlos Henrique Hunsche, os imigrantes alemães, ao lado dos italianos e de outras etnias, introduziram na sociedade brasileira mudanças radicais sobre a concepção de trabalho, de propriedade e sobre a relação entre proprietário e trabalhador. Até a chegada dos alemães, tudo o que existia no Brasil, em termos de produção e prestação de serviços, era resultado da mão de obra dos negros escravos. Entre as elites e autoridades brasileiras havia uma concepção arraigada de que o trabalho é uma desonra para os homens livres, de que trabalho braçal é coisa de escravo. Os colonos alemães trouxeram um sistema de trabalho e de produção radicalmente diferente. Com seu trabalho e geração de progresso enquanto homens livres, aos poucos, foram mudando a visão que se tinha no Brasil acerca do trabalho.

Os imigrantes revolucionaram o método de trabalho com a agricultura familiar na pequena propriedade, superando a escravatura

Os colonos alemães produziram uma verdadeira revolução nos métodos de trabalho vigentes no país. Em contraposição ao latifúndio e à monocultura sustentada por escravos, os colonos alemães trouxeram um novo modelo econômico, baseado no trabalho do agricultor livre, na igualdade social e na pequena propriedade de cultura diversificada e criação de animais domésticos. Este modelo contribuiu de forma decisiva para abastecer a população. Na medida da diversificação de produtos agrícolas e da multiplicidade de profissões, cada comunidade garante sua autossuficiência e autossustentabilidade. O excedente de produção garante o abastecimento das cidades e chega até Porto Alegre pelas vias fluviais. Assim, os colonos alemães, também começam a influenciar e mudar o panorama exclusivamente pastoril do sul do país.

Os colonos alemães contribuíram decisivamente para a formação do atual sistema de agricultura familiar e cooperativa, responsável por grande parte dos alimentos na mesa dos brasileiros. Na época do I Império, no entanto, esse modelo concorrente teve forte oposição no parlamento brasileiro, amplamente dominado pela oligarquia do latifúndio. A resistência dos latifundiários se deveu, principalmente, por enxergarem na política de colonização alemã um prenúncio da abolição da escravatura. Em reação, o parlamento do I Império proibiu todo e qualquer gasto com imigração e colonização estrangeira a partir da Lei do Orçamento de 1830.

Na verdade, D. Pedro I estava interessado em soldados para defender sua frágil independência. Por isso, não existiu planejamento para assentar os colonos. O governo brasileiro não ofereceu a mínima infraestrutura e jogou-os no meio da selva, no habitat dos povos originários, convenientemente deixando os conflitos por conta dos recém chegados. Apesar de todas as adversidades, eles abriram clareiras na mata, construíram choupanas de paus com cobertura de capim, iniciaram suas plantações, criaram animais. Com o seu espírito laborioso e comunitário, contribuíram de forma significativa para o desenvolvimento da nossa economia, fazendo surgir por toda parte as mais variadas atividades agrícolas, comerciais e industriais. Fundaram comunidades, construíram igrejas e escolas.

Esforço dos imigrantes alemães no ensino |
Esforço dos imigrantes alemães no ensino | — Colégio Anchieta
Esforço dos imigrantes alemães no ensino | Crédito: Colégio Anchieta

Contribuíram na implantação do ensino, do cooperativismo, da indústria, da gastronomia e da cultura

Quando os alemães chegaram em 1824, havia apenas uma escola sustentada pelo governo em toda a província de São Pedro do Rio Grande. Os colonos alemães tinham uma preocupação especial com a escolaridade, construíram centenas de escolas comunitárias e garantiram a manutenção dos professores, mesmo sem nenhum apoio do governo. Antes da Campanha de Nacionalização do Estado Novo, em 1937, havia 1.500 escolas teuto-brasileiras. Elas cumpriram um papel fundamental na história da educação no Brasil.

Na falta de apoio governamental, na década de 1890, os colonos alemães começam a criar organizações autônomas para evoluir no desenvolvimento da Colônia. Sob a liderança do jesuíta suíço Padre Theodor Amstad, foi criada em 1899 a Associação dos Agricultores e em 1912, a Sociedade União Popular (Volksverein), com o lema “tudo para todos”. O Volksverein foi o grande marco do desenvolvimento da Colônia Alemã, na medida em que mobilizou as comunidades e estabeleceu metas a serem alcançadas. Para isso, fomentou o cooperativismo de crédito, com as “caixas rurais” do sistema Raiffeisen, que ofereciam crédito barato, sem agiotagem, aos agricultores. Com a Reforma do Sistema Financeiro, em 1964, as caixas rurais passaram pela tumultuada “Era do não pode”, com a obrigação de se adaptar às regras do mercado financeiro nacional. Os atuais Bancos do Sistema Cooperativo Sicredi e Sicoob podem ser considerados, de certa forma, sucessores das caixas rurais. O Volksverein também fomentou a educação, a difusão cultural, a formação de professores, a assistência médica e social. Organizou a Associação de Professores e criou a Escola de Formação de Professores, com um sistema escolar e seu material didático.

Contribuição dos imigrantes alemães na indústria |
Contribuição dos imigrantes alemães na indústria | — Reprodução
Contribuição dos imigrantes alemães na indústria | Crédito: Reprodução

Ao mesmo tempo, os artesãos, a partir da sua estrutura familiar, foram responsáveis por grande parte do processo de industrialização nos estados do Sul. Muitos sobrenomes do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina têm sua origem nos artesãos alemães: Schmidt (ferreiro), Schneider/Schröder (alfaiate), Weber (tecelão), Müller (moleiro), Wagner (fabricante de carroças), Schreiner (marceneiro); Zimmermann/Zimmer (carpinteiro), Schumacher/Schuster (fabricante de sapatos/sapateiro), Dreher (torneiro), Maurer (pedreiro), Brauer (cervejeiro); Becker/Backes (padeiro). No início, era tudo feito à mão.

Milhares de pequenas empresas familiares foram transformando o Vale dos Sinos e o Vale do Itajaí em extraordinárias concentrações industriais. No final do século XX havia mais de 1.200 empresas de origem alemã no Brasil. São Paulo hoje é a maior cidade industrial alemã do mundo inteiro, se levarmos em conta o número de empresas alemãs ali estabelecidas. Muitas empresas de teuto brasileiros conquistaram não só o mercado brasileiro, mas também mercados mundiais: Gerdau (aço); Fundição Tupy (metalurgia); Hering (têxteis); Renner (vestuário); Neugebauer e Garoto (chocolates e confeitos); Fruki (bebidas); Imperial e Brahma (cerveja); Melhoramentos (fabricação de papel); Faber-Castell (material escolar); Odebrecht (construção); Stihl (ferramentas); VARIG (aviação); Schmidt (porcelana).

Oktoberfest – contribuição cultural/gastronômica germânica |
Oktoberfest – contribuição cultural/gastronômica germânica | — Divulgação
Oktoberfest – contribuição cultural/gastronômica germânica | Crédito: Divulgação

Também é forte a influência germânica na gastronomia, na arquitetura, nas tradições e nos eventos culturais. Cuca, lingüiça e carne defumada, Eisbein, salada de batata, chucrute, Bretzel e Apfelstrudel (torta folhada de maçã) são típicos da culinária da Colônia alemã. Os alemães popularizaram a cerveja e o chopp e criaram festas populares como Kerb e Oktoberfest. A Oktoberfest de Blumenau hoje é a segunda maior do mundo.

Os traços do legado dos colonos alemães hoje são visíveis por toda parte no Brasil, com mais destaque no Sul e Sudeste, onde as manifestações da cultura germânica fazem parte do calendário de eventos de muitas cidades e estão integradas às manifestações culturais dos diversos grupos étnicos que construíram a nação brasileira. O amplo leque cultural faz do Brasil um país democrático, onde convivem as diferenças de todas as etnias, tornando-o um país de todas as cores, belo e vibrante.”

* Décio Aloisio Schauren, pesquisador de História da Imigração Alemã e membro do Instituto Histórico de São Leopoldo.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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