Professoras da UFC integraram comissão de jurados do Festival de Parintins e destacam potência da cultura popular amazônica

Por Geovanni Carvalho23/07/2026 às 14:310 visualizações

Considerado a maior ópera a céu aberto da América Latina, o 59º Festival de Parintins reuniu milhares de pessoas entre os dias 26 e 28 de junho, no Bumbódromo, no Amazonas, para mais uma disputa entre os bois Caprichoso e Garantido. Nesta edição, o Instituto de Cultura e Arte (ICA) da Universidade Federal do Ceará (UFC) esteve representado na comissão de jurados do evento pelas professoras Ana Mundim, do curso de Dança, e Renata Kelly, do curso de Teatro, responsáveis pela avaliação do Bloco B – Cênico/Coreográfico.

Ana Mundim explica que o convite para contribuir com julgamento no festival surgiu após a UFC indicar nomes para compor um banco de avaliadores do evento, seguido de um processo de seleção e da aprovação pelos presidentes dos dois bois, sendo os jurados titulares definidos por sorteio. Para Mundim, a participação no festival representa muito mais do que um reconhecimento profissional e significa a realização de um sonho que cultivava há anos. “Além de ser considerado a maior ópera a céu aberto da América Latina e de toda a excelência profissional que o festival apresenta em termos visuais, coreográficos e musicais, ele ainda conta uma parte da história do nosso país que tentou ser usurpada de nós”, afirma. A jurada destaca ainda que a festa representa um marco histórico, cultural e econômico para o Brasil que celebra especialmente a região Norte e a ancestralidade indígena do povo brasileiro.

Já a professora Renata Kelly destaca o caráter singular da experiência. Para a docente, acompanhar as apresentações dos dois bois durante os três dias de festival permitiu conhecer um Brasil que ainda permanece distante da realidade de muitas pessoas. “Vivenciar os três dias de espetáculo, a presença das galeras, dos itens e de cada apresentação foi uma experiência cheia de paradoxos, cheia de alegria e de novos conhecimentos. É difícil até elaborar o quanto essa experiência é grandiosa, porque de tudo que já vivi e participei, essa foi uma experiência única, porque o Festival de Parintins também é único no país, e revela um Brasil que poucas pessoas conhecem”, disse.

No Bloco B – Cênico/Coreográfico, Mundim e Kelly foram responsáveis enquanto juradas, por avaliar sete itens do festival, como Porta-Estandarte, Sinhazinha da Fazenda, Rainha do Folclore, Cunhã-Poranga, Pajé, Evolução do Boi-Bumbá e Coreografia. Os critérios envolvem aspectos como domínio corporal, composição cênica, interpretação, expressão, ocupação do espaço, sincronia, performance e adequação à temática apresentada. Segundo Mundim, o processo de julgamento é altamente técnico, construído a partir de critérios específicos para cada personagem e apresentação. “Avaliam-se aspectos como dança e performance, domínio corporal, consciência dos movimentos, composição da personagem, percepção do espaço cênico, interação com o boi-bumbá, coerência das coreografias e das indumentárias com a temática de cada noite”, apontou a multiartista.

Para Kelly, entretanto, a análise técnica não pode ser dissociada dos saberes construídos pelas comunidades que mantêm viva a tradição do boi-bumbá. “O bloco está muito pautado no conhecimento das expressões corporais, no domínio dos gestos e na relação desses movimentos com os temas apresentados. Mas também precisamos considerar a experiência corpórea do brincante, de quem vive essa manifestação desde criança”, explicou. A professora destacou ainda que o domínio técnico pertence àquele território, àquela cultura e àquela forma de brincar. “É muito interessante perceber como tradição e técnica caminham juntas”, afirma.

Um diálogo direto com a universidade

A experiência vivida em Parintins também reforça pesquisas e metodologias já desenvolvidas pelas docentes no cotidiano do Instituto de Cultura e Arte da universidade cearense. Mundim, que atua como bailarina, coreógrafa, artista visual e pesquisadora, explica que sua trajetória acadêmica dialoga diretamente com o universo do festival.

“Minha atuação na UFC acontece principalmente nas áreas de composição coreográfica, processos criativos, improvisação e técnica. Também coordeno o grupo de pesquisa Dramaturgia do Corpo-espaço e projetos de extensão que trabalham metodologias construídas em diálogo com comunidades locais e regionais. Além disso, há muitos anos sou brincante em eventos populares, por isso, a experiência do festival conversa diretamente com a minha atuação como docente, pesquisadora e artista”, destaca.

No caso de Kelly, a aproximação acontece por meio das pesquisas sobre teatro, corpo e cultura popular. “Sou atriz, diretora e pesquisadora da preparação corporal de atrizes e atores. Trabalho há mais de vinte anos com teatro de rua e com matrizes populares brasileiras, e na universidade, desenvolvo pesquisas e disciplinas voltadas para essas corporeidades, para as danças populares, as máscaras e os modos de criação da cena. Julgar o Festival de Parintins foi um cruzamento muito forte entre aquilo que pesquiso e aquilo que vive”, ponderou a docente.

Ao retornarem à UFC, as professoras afirmam que trouxeram consigo novos conhecimentos que irão repercutir no ensino, na pesquisa e nas ações de extensão dentro da universidade. Kelly afirma que o maior aprendizado foi perceber a força transformadora da cultura popular. “Saí do Festival de Parintins tomada por esse corpo que se chama povo. Existe uma paixão revolucionária que atravessa aquela manifestação e quero afirmar ainda mais, junto aos meus estudantes, o lugar do brincante e do popular na cena”, destaca. A docente também aponta outro aspecto que pretende compartilhar com seus alunos, sobre a capacidade da arte de transformar uma cidade inteira. “Parintins é um ateliê e uma sala de ensaio a céu aberto, e ver uma cidade completamente mobilizada pela dimensão artístico-cultural foi uma das maiores lições que essa experiência me trouxe”, encerra.

Por outro lado, Mundim destaca que a experiência amplia sua compreensão sobre processos coletivos de criação e fortalece pesquisas já desenvolvidas sobre a cultura amazônica. “Os conhecimentos históricos, culturais e artísticos ancestrais preservados pelo festival são extremamente valiosos para as pesquisas e metodologias que desenvolvemos dentro e fora da sala de aula. Além disso, o festival nos mostrou o poder da festa como campo de resistência política e potência coletiva”, assegura a professora.

Ao integrar a comissão de jurados do Festival de Parintins, Ana Mundim e Renata Kelly reforçam a presença da UFC em um dos mais importantes eventos culturais do país e evidenciam como o diálogo entre universidade e cultura popular amplia os processos de formação, pesquisa e produção artística, fortalecendo a valorização dos saberes ancestrais e das manifestações culturais brasileiras. Na edição deste ano, a cor azul tomou conta do Bumbódromo e emocionou os jurados e toda a Ilha Tupinambarana, o que concedeu ao Boi Caprichoso a conquista do 27º título da história da agremiação. Com o tema “Brinquedo que Canta seu Chão”, o Touro Negro contagiou a torcida e foi consagrado campeão desta edição com 1.259 pontos, contra 1.258 pontos do Garantido.

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Brasil de Fato
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