

Neste ano, o edifício Copan completa 60 anos. O monumento nasceu com a proposta de repensar a vida urbana e se tornou um símbolo da maior cidade do País. Além de seu caráter físico marcante, espaços históricos como o Copan se conectam não só com a cidade, mas com os próprios paulistanos. Eles atravessam tempos históricos, se adaptam ao mundo contemporâneo, contam histórias e levam os moradores da cidade ao pensamento crítico e à revisão da história de São Paulo. Em meio à importância dos objetos históricos, entretanto, a capital paulista tem restringido o acesso aos moradores da cidade, o que compromete o pensamento crítico e a revisitação histórica. Fraya Frehse, professora associada do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, comenta que a situação tem piorado nos últimos anos, devido à postura do governo municipal. “O que está acontecendo agora é que o consumo da cidade virou política pública. Mas é o consumo da cidade para alguns apenas.”
O que é um monumento?
A definição de monumento varia de acordo com cada autor. Na era pré-moderna, os objetos tinham como característica marcante a celebração de um fato histórico ou personagem de relevância. No mundo contemporâneo, essa noção foi alterada, segundo a professora. Para o pensador francês Henri Lefebvre, monumentos são obras do poder, produzidas por quem tem poder político.
Mesmo construídos em um cenário desigual, os monumentos estão no dia a dia de todos e despertam reações nos espectadores. “Mesmo representando essas relações de poder, eles chamam a atenção. Nós as estranhamos, são diferentes do que estamos acostumados. É justamente nesse momento, segundo Lefebvre, que existe uma centelha de possibilidade crítica importante.”
Segundo a Prefeitura de São Paulo, a cidade possui cerca de 400 monumentos e obras de arte catalogadas em logradouros públicos. Muitos desses objetos foram erguidos em séculos passados e carregam histórias de outros tempos, que permitem a revisitação histórica e pensamento crítico no presente. A escultura Mãe Preta, produzida por Júlio Guerra em 1955 e localizada no Largo do Paiçandu, por exemplo, comove os moradores da região e nos lembram do passado escravista do País, causando uma mudança de postura e pensamento dos espectadores.

Pensamento crítico e ativismos
Para Fraya, as contradições que rodeiam os objetos históricos do município suscitam o questionamento dos moradores locais. “Se eu trago os alunos para a Vila e para o centro da cidade, todos ficam impressionados com os monumentos. Eles fazem questionamentos do tipo ‘onde eu moro não tem isso’, ‘porque o monumento está aqui e não em outro lugar?’.”
Perguntas como essas fomentam movimentos que colocam a presença dos monumentos em dúvida. Grupos ativistas antirracistas têm aflorado ao redor do mundo e questionado figuras escravocratas presentes em monumentos e estátuas. Em julho de 2021, um homem incendiou a estátua de Borba Gato, ex-bandeirante, localizada no bairro de Santo Amaro. Em uma cidade extensa como São Paulo e rica culturalmente, alguns monumentos causam mais incômodo e reação nos paulistanos do que outros.

Muitos dos grupos ativistas acreditam que objetos que fazem alusão a figuras heroicizadas, como os bandeirantes, devem ser derrubados. Em contrapartida, a professora concorda com as causas que os movimentos defendem, mas discorda da atitude tomada por eles. “Derrubar esses objetos acaba contribuindo para o apagamento histórico intensificado pelo governo da cidade. Nós temos que fazer uma crítica ao que ele representa e à sua história.”
Os espaços públicos e seus elementos, como os monumentos, possuem um caráter emancipatório e educador em relação aos habitantes da cidade. Para a docente, eles são os ambientes de tensão e conflito das diferenças, que justamente geram mudanças. Contudo, os espaços públicos são alvo de uma história de apagamentos sucessivos dos marcos espaciais mínimos.
O presídio do Carandiru é um exemplo desse contexto. Construído em 1920, o espaço foi alvo de um dos massacres marcantes da história brasileira, em 1992, o qual 111 pessoas foram assassinadas. Dez anos depois, o espaço foi demolido e deu lugar ao atual Parque da Juventude, sem qualquer resquício do acontecido anteriormente.
Privatização e tecnologia nos espaços públicos
Em meio ao afastamento dos espaços públicos e, consequentemente, dos monumentos dos paulistanos, diversos espaços receberam apoio da iniciativa privada. Com isso, para Fraya, cada vez mais os espaços têm se tornado “shopping centers”. “Os nossos parques, que são monumentos da cidade, estão sendo transformados em espaços de consumo para alguns grupos, apenas aqueles que têm dinheiro. São dez anos ininterruptos de dilapidação do potencial de convivência pública e urbana dos nossos espaços públicos.”
A modernização das infraestruturas e o alto valor nesse processo são alguns dos argumentos utilizados para privatizar os espaços. Nesse sentido, a tecnologia pode auxiliar nessa função, sem necessariamente precisar de instituições privadas. Novos produtos e métodos desenvolvidos na ciência podem ajudar desde a tintura desses objetos até a utilização de totens informativos.
Entretanto, o uso de mecanismos dessa natureza deve ser observado e controlado para não tirar a autenticidade e o potencial crítico dos monumentos. “Tudo que a tecnologia puder fazer, como instrumento para valorizar e potencializar esse papel pedagógico e potencialmente emancipatório dos monumentos, é bem-vindo. Mas tudo depende de uma concepção de fundo do poder público”, afirma Fraya.





