Amamentação tem papel importante na formação bucal do bebê

Por Joyce Pezzato*23/07/2026 às 12:300 visualizações
Embora o Agosto Dourado seja conhecido por incentivar a amamentação, especialistas ressaltam que esse processo começa antes do nascimento - Foto: freepic.diller/Magnific
Embora o Agosto Dourado seja conhecido por incentivar a amamentação, especialistas ressaltam que esse processo começa antes do nascimento - Foto: freepic.diller/Magnific
Jornal da USP
🎙 Joyce Pezzato* · Jornal da USP

Acompanhamento odontológico durante a gestação favorece o aleitamento materno e contribui para o desenvolvimento da criança

 Publicado: 23/07/2026 às 9:30
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Embora o Agosto Dourado seja conhecido por incentivar a amamentação, especialistas ressaltam que esse processo começa antes do nascimento – Foto: freepic.diller/Magnific
Embora o Agosto Dourado seja conhecido por incentivar a amamentação, especialistas ressaltam que esse processo começa antes do nascimento – Foto: freepic.diller/Magnific
Embora o Agosto Dourado seja conhecido por incentivar a amamentação, especialistas ressaltam que esse processo começa antes do nascimento – Foto: freepic.diller/Magnific
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Muito antes do nascimento dos primeiros dentes, a saúde bucal já exerce um papel importante no desenvolvimento do bebê. O que muitos não sabem é que a amamentação vai além da nutrição, ela é fundamental para a formação da face, da mastigação, da respiração e da fala da criança. Esse processo começa ainda na gestação, com um cuidado que costuma passar despercebido, o pré-natal odontológico.

No Agosto Dourado, campanha dedicada à promoção do aleitamento materno, especialistas destacam que o acompanhamento com o cirurgião-dentista ajuda a preparar a gestante para a amamentação, previne complicações e contribui para o desenvolvimento saudável da criança. 

Segundo o professor da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp) da USP Francisco Wanderley Garcia de Paula Silva, esse cuidado representa uma importante estratégia de prevenção e educação em saúde. “O leite materno representa uma transferência contínua de anticorpos, especialmente a imunoglobulina A, além de outras substâncias que reduzem significativamente as infecções gastrointestinais e respiratórias.” 

Estudos recentes também mostram que a amamentação influencia a expressão de genes relacionados à prevenção de obesidade e diabetes tipo 2. “Sob a perspectiva da saúde da mulher, os efeitos também são importantes. No pós-parto, a sucção do bebê estimula a liberação de ocitocina, hormônio que ajuda o útero a retornar ao tamanho normal e reduz o risco de hemorragias. A longo prazo, a amamentação também está associada à redução do risco de câncer de mama e de ovário”, afirma o pesquisador.

O especialista destaca ainda que a amamentação funciona como um verdadeiro exercício para o bebê. “Ao contrário do fluxo passivo da mamadeira, o bebê precisa realizar movimentos coordenados da mandíbula e da língua para retirar o leite do peito. Esse estímulo é fundamental para o crescimento harmonioso da maxila, da mandíbula e da face”, explica. Esse processo também favorece o desenvolvimento da mastigação, da fala e do padrão adequado de respiração nasal.

Leite materno também molda o desenvolvimento da boca 

A relação entre amamentação e saúde bucal é outro ponto importante. De acordo com o professor, o aleitamento materno exclusivo por pelo menos seis meses reduz a ocorrência de problemas como mordida aberta, mordida cruzada e apinhamento dentário. “Quando esse estímulo natural é substituído precocemente por chupetas e mamadeiras, aumenta a chance de alterações no formato do céu da boca e de desequilíbrios musculares que podem exigir tratamento ortodôntico no futuro.”

Embora a campanha Agosto Dourado seja associada ao incentivo à amamentação, o pesquisador chama a atenção para um cuidado que começa antes mesmo do nascimento, o pré-natal odontológico. “O papel do dentista durante a gestação vai além do tratamento de dentes. O pré-natal odontológico é uma estratégia preventiva e educativa, em que orientamos sobre amamentação, saúde bucal da gestante e desenvolvimento infantil”, comenta.

Segundo Paula Silva, há evidências de que doenças periodontais não tratadas podem aumentar o risco de parto prematuro e baixo peso ao nascer. Além disso, o acompanhamento odontológico permite identificar precocemente alterações que podem dificultar a amamentação, como a anquiloglossia, conhecida como língua presa.

Desafios para manter o aleitamento materno 

Francisco Wanderley Garcia de Paula Silva –
Francisco Wanderley Garcia de Paula Silva – — Forp USP
Francisco Wanderley Garcia de Paula Silva – Foto: Forp USP

O professor ressalta que o sucesso da amamentação depende também de fatores sociais e institucionais. “A curta duração da licença-maternidade, a publicidade de fórmulas infantis e a falta de preparo de algumas equipes de saúde para lidar com dificuldades iniciais da amamentação ainda são barreiras importantes.”

Nesse contexto, Paula Silva destaca iniciativas desenvolvidas em Ribeirão Preto, como o uso de laserterapia de baixa potência na rede pública para tratar fissuras mamilares. “A fotobiomodulação acelera a cicatrização e reduz a dor, ajudando a evitar o desmame precoce.”

Outro ponto é a importância da rede de apoio. Segundo o pesquisador, a amamentação não deve ser vista como uma responsabilidade exclusiva da mulher; o suporte da família, o acompanhamento nas consultas e a redução do estresse materno são fundamentais para que a mãe se sinta segura e consiga manter a lactação.

Projeto da USP sobre pré-natal odontológico

Para ampliar o acesso a informações de qualidade, a Forp coordena um projeto de pesquisa e extensão voltado à qualificação de cirurgiões-dentistas da rede pública para o atendimento de gestantes. A iniciativa, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) do Ministério da Saúde, deu origem ao curso Atualização em Pré-Natal Odontológico

Segundo Paula Silva, o objetivo é combater mitos que ainda afastam muitas gestantes do atendimento odontológico, como o receio do uso de anestésicos locais ou da realização de exames radiográficos durante a gravidez, oferecendo aos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) informações baseadas em evidências científicas para uma atuação mais segura.

Além disso, as ações do Agosto Dourado em 2026 estão articuladas ao projeto Amamenta – Aleitamento Materno, Ações Multidimensionais de Aconchego e Empatia, coordenado pela professora Kândia Dias Serrano, da Forp, em parceria com o Comitê Municipal de Aleitamento Materno e Alimentação Complementar Saudável de Ribeirão Preto (COMAMACS). O objetivo é ampliar a divulgação de evidências científicas sobre a relação entre amamentação, saúde bucal e desenvolvimento infantil, fortalecendo o cuidado materno-infantil desde a gestação, de acordo com o pesquisador.

*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


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