Pressão por produtividade e falta de treinamento favorecem crescimento do mercado de periódicos predatórios

23/07/2026 às 12:130 visualizações
Imagem aproximada de teclado de computador, com corpo e teclas de cor cinza
Imagem aproximada de teclado de computador, com corpo e teclas de cor cinza
Foto: Foto:Marcos Santos/Jornal da USP / Jornal da USP

Pressão por produtividade e falta de treinamento favorecem crescimento do mercado de periódicos predatórios

Levantamento mapeia o avanço no Brasil dos periódicos predatórios, que publicam artigos científicos sem fazer revisão por pares

 Publicado: 23/07/2026 às 9:13

Texto: Gabriele Maciel*

Arte: Livia Bortoletto**

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Segundo o estudo, aumento de publicações predatórias nos últimos seis anos é resultado da cultura do meio acadêmico, onde há muita pressão para a comunidade publicar, seja para ascender profissionalmente, permitir defesa de tese ou pontuar em concursos – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“Seu artigo foi selecionado”, “Publicação em 48 horas”, “Submeta agora”. Se você é pesquisador, sua caixa de e-mails provavelmente está inundada por convites insistentes como esses. O que parece um reconhecimento do seu trabalho, no entanto, costuma ser o primeiro contato com um mercado em franca expansão: o dos periódicos predatórios, ou seja, aqueles que não realizam a devida revisão por pares dos artigos científicos. O fenômeno foi detalhado no mapeamento publicado em artigo no periódico internacional Scientometrics, e coincide com a chegada do engenheiro de computação Fábio Manoel França Lobato ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos.

A ideia de investigar o ecossistema das revistas predatórias nasceu da experiência do professor Lobato. Quando ainda estava no mestrado, na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém, ele acabou, por desconhecimento do problema, publicando em uma dessas revistas predatórias. Anos depois, quando já era professor na mesma universidade, percebeu, ao assumir a Coordenação de Projetos de Pesquisa, que o problema não era isolado e que muitos colegas estavam caindo na mesma armadilha. “A gente se perguntou: ‘Como está isso no Brasil todo?’”, lembra.

A resposta veio sendo construída nos últimos seis anos, época em que o País registrou um aumento vertiginoso nesse tipo de publicação. Para o docente, isso ocorre como resultado da cultura conhecida no meio acadêmico. “Existe uma pressão muito grande para a comunidade publicar, seja para ascender profissionalmente, permitir a defesa de uma tese ou pontuar em concursos”, explica o professor.

Fábio Manoel França Lobato -
Fábio Manoel França Lobato - — ICMC-USP
Fábio Manoel França Lobato - Foto: ICMC-USP

Se por um lado há cientistas desavisados, por outro existe quem use o artifício deliberadamente para “inflar” o Currículo Lattes. Segundo Lobato, o preço é alto. “Para a ciência, o prejuízo é ter comunicações sem rigor científico ou com falhas metodológicas graves sendo publicadas. Para o pesquisador, o preço é a reputação. A ciência vive de confiabilidade”, ressalta.

Quantidade e não qualidade

Para desenvolver o diagnóstico, os autores automatizaram o disparo de questionários para secretarias de pós-graduação de todo o País e cruzaram as respostas com os IDs do Lattes dos participantes. Ao analisar os dados das respostas de mais de 3 mil pesquisadores brasileiros, a equipe esbarrou em um resultado contraintuitivo. Ao contrário do que pensavam os autores, não foram os jovens pesquisadores, em início de carreira, os mais suscetíveis ou preocupados com os custos e impactos dessas publicações, mas sim os mais seniores. Uma das hipóteses para esse comportamento, e para a maior vulnerabilidade detectada em instituições federais, reside nos critérios de progressão de carreira no Brasil, que muitas vezes priorizam o volume quantitativo de artigos em detrimento de uma avaliação qualitativa do impacto real da pesquisa.

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Pesquisadores mais experientes são mais suscetíveis a impactos de publicações, possivelmente devido a critérios de progressão de carreira, que muitas vezes priorizam volume quantitativo de artigos em detrimento de avaliação qualitativa do impacto real da pesquisa – Foto: Extraída do Artigo

O estudo aponta ainda para uma assimetria regional e estrutural. Programas de pós-graduação menores e fora dos grandes centros de excelência sofrem com a sobrecarga de trabalho dos docentes, o que sufoca o debate sobre a integridade científica. “Nós não podemos cobrar se não ensinamos. É preciso uma campanha nacional de sensibilização, envolvendo as agências de fomento”, defende o professor do ICMC, que contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

O artigo apresenta algumas dicas para evitar cair em periódicos predatórios. O primeiro alerta é que esses periódicos costumam reproduzir em seus sites uma suposta política editorial robusta e afirmam estar indexados em diversas bases de dados. No entanto, muitas dessas indexações são inexistentes ou até mesmo falsas. Em alguns casos, elas realmente existem, mas isso não garante a sua credibilidade. Já houve situações, por exemplo, de periódicos predatórios que estavam indexados no Directory of Open Access Journals, o que demonstra que a presença em uma base de indexação, por si só, não é um critério suficiente para atestar a credibilidade do periódico.

Outro indício é a promessa de publicação rápida, geralmente associada à cobrança de uma taxa de processamento do artigo. Essas taxas costumam ser inferiores às praticadas por editoras internacionais. No Brasil, por exemplo, é comum encontrar valores entre R$ 400 e R$ 500. Por fim, outro comportamento característico é o envio frequente de convites para publicação. Após a divulgação de um artigo, é comum que esses periódicos passem a enviar e-mails insistentes convidando o pesquisador a submeter novos trabalhos ou versões de pesquisas, muitas vezes de forma excessiva e sem qualquer relação com sua área de atuação.

Novos desafios

As respostas dos pesquisadores de todo o Brasil foram recebidas entre 2021 e 2022, ou seja, antes da explosão das ferramentas generativas, como o ChatGPT. Segundo Lobato, o avanço da tecnologia traz uma nova camada de complexidade ao problema. “Ficou muito mais fácil escrever um artigo e simular uma pesquisa. Com a inteligência artificial (IA) generativa, pessoas conseguem fazer ideação e construir textos bem estruturados, mas sem necessariamente ter o domínio do rigor científico, útil para a sociedade”, ressalta.

Recém-contratado, o professor conta que a pesquisa foi desenvolvida em parceria com a professora Solange Rezende, também do ICMC, além de outros pesquisadores. “A pesquisa coroa uma parceria de longa data. A professora ajudou bastante na Universidade Federal do Oeste do Pará [Ufopa] e também para o concurso”, afirma. “Nós conduzimos o estudo dentro de uma lógica slow science, amadurecendo a ideia desde 2020, passando por aprovação em Comitê de Ética, curadoria, análise dos dados e a publicação.”

Lobato, que construiu sua trajetória acadêmica pesquisando justamente IA e Sistemas de Informação, será integrado ao Laboratório de Inteligência Computacional (Labic). Ele pretende usar o peso institucional da USP para transformar as discussões sobre revistas predatórias em um projeto de extensão. “Quero levar essa discussão adiante. Já que o ICMC é um centro de excelência que tem voz, quem sabe a gente consiga fazer esse trabalho de alertar a comunidade acadêmica”, finaliza. 

O artigo Predatory publishing in the academic landscape: researchers’ awareness and vulnerabilities pode ser acessado on-line. Mais informações sobre o Labic podem ser obtidas no site, neste link.

* Da Assessoria de Comunicação do ICMC. Adaptado para o Jornal da USP


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