A universidade no divã

22/07/2026 às 22:500 visualizações
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Jornal da USP

Por João Francisco Justo Filho, professor da Escola Politécnica da USP

 Publicado: 22/07/2026 às 19:50
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Em seu livro Os usos da universidade (1963), Clark Kerr (1911–2003), um dos mais importantes estudiosos da educação superior e das políticas universitárias, analisou o papel dessa instituição na sociedade moderna. Ele observou que um grupo restrito, com apenas 85 instituições do mundo ocidental, conseguiu, de forma ininterrupta ao longo dos últimos cinco séculos, funcionar e preservar sua identidade, apesar das profundas transformações sociais, econômicas, políticas e culturais que marcaram esse período. Esse grupo incluía 70 universidades, além do Parlamento Britânico e das Igrejas Católica e Luterana.

Enquanto nações, impérios, dinastias, corporações e sistemas políticos se desintegraram nesse período, a universidade manteve a sua essência e missão praticamente intactas. Por outro lado, seria ingenuidade interpretar essa resiliência institucional como um sinal de infalibilidade. A universidade atravessou os séculos principalmente porque conseguiu se reinventar continuamente.

A universidade passou por uma transformação decisiva com o modelo humboldtiano, pioneiro em integrar ensino e pesquisa como atividades indissociáveis. Concebido por Wilhelm von Humboldt (1767–1835) e implementado na Universidade de Berlim em 1810, esse modelo difundiu-se mundialmente, consolidando a universidade como o principal palco da construção, reflexão, preservação e transmissão dos conhecimentos científicos, tecnológicos e culturais.

Kerr reformulou esse modelo, ao estabelecer o conceito de multiversidade: uma universidade que transcendia a concepção tradicional de uma comunidade isolada de professores e pesquisadores, dando lugar a uma nova estrutura de produção do conhecimento, mais complexa e multidimensional, articulada com os diversos setores da sociedade e atuando como força impulsionadora da economia de uma nação.

Nos anos 1990, Loet Leydesdorff (1948–2023) e Henry Etzkowitz (1940-) formalizaram o modelo da Hélice Tríplice, um sistema de inovação que converge com a perspectiva da multiversidade. Nesse modelo, a universidade, o setor produtivo e o governo atuam de forma cooperativa e, em certa medida, intercambiável para promover a inovação e converter o conhecimento científico e tecnológico em desenvolvimento econômico.

Sob o modelo humboldtiano, a universidade teve legitimado o seu protagonismo na sociedade moderna. Por outro lado, o processo de consolidação da multiversidade tem gerado grandes tensões internas e externas, compelindo a universidade a abordar novas questões, associadas à sua identidade, legitimidade, governança e financiamento.

As duas primeiras questões se referem a uma autoavaliação da sua missão como produtora de conhecimento e seu relacionamento com a sociedade. As duas últimas se referem à gestão de suas atividades e ao financiamento com recursos públicos ou privados.

Gradualmente, as universidades passaram a se organizar em institutos e departamentos, impulsionando um processo de hiperespecialização que compartimentalizou o conhecimento. Como consequência, cada área desenvolveu suas próprias linguagens, métodos e referenciais, erguendo, ainda que involuntariamente, barreiras que dificultam o diálogo e a colaboração entre diferentes campos do saber. O resultado é paradoxal: ao mesmo tempo em que essa estrutura possibilitou extraordinários avanços em áreas específicas, reduziu a capacidade de compreender e enfrentar os grandes desafios contemporâneos, cuja natureza transcende as fronteiras disciplinares.

Questões como sustentabilidade global, energia e inteligência artificial envolvem intrinsecamente múltiplas dimensões temáticas.

Edgar Morin (1921–2026), um dos pensadores mais influentes do último século, apresentou uma crítica contundente em relação às formas como o conhecimento foi construído nesse período, particularmente dentro das estruturas administrativas departamentalizadas da universidade. Sua reflexão não se restringiu a uma crítica institucional, mas se baseou numa perspectiva muito mais ampla da natureza, do conhecimento global e da condição humana. Morin, celebrado como o filósofo da complexidade, criticava a crescente fragmentação do conhecimento, que dificultava compreender e abordar os grandes desafios contemporâneos. Assim, para Morin, o principal desafio da universidade contemporânea não deveria ser somente produzir novos conhecimentos, mas reconectar os conhecimentos que foram excessivamente fragmentados ao longo do tempo.

A crítica de Morin está diretamente alinhada à sua filosofia, ao vislumbrar que os fenômenos naturais, assim como os desafios contemporâneos, são muito mais complexos do que os modelos e métodos usados correntemente para descrevê-los. No contexto das áreas isoladas do conhecimento, Morin identificou o que chamava de “paradigma da simplificação”, associado à metodologia clássica da exploração científica, compreendendo as atividades sequenciais de separar, reduzir e isolar para somente então modelar. Embora essa metodologia tenha sido extremamente eficiente no desenvolvimento das ciências modernas, ela falha quando aborda problemas e fenômenos mais complexos, como temas transdisciplinares.

Morin não rejeitava a metodologia científica tradicional, mas propunha processos mais sofisticados de reflexão e ação para tratar problemas complexos e estabelecer modelos e soluções que pudessem distinguir sem separar, integrar sem reduzir, conectar sem isolar e modelar sem singularizar. Para Morin, incorporar a complexidade não significava complicar, mas perceber que a natureza compreende eventos não lineares, padrões multidimensionais, sistemas auto-organizados, mecanismos retroalimentados e correlações em diferentes escalas e níveis de granularidade.

Morin propunha que a universidade passasse por uma profunda transformação epistemológica, não somente administrativa. Não bastaria criar novos cursos ou novos conhecimentos; seria necessário integrá-los, algo que está aderente à própria essência da universidade. Para isso, seria fundamental organizar o conhecimento sob uma nova perspectiva, valorizando o diálogo interdisciplinar, criando espaços de intermediação do conhecimento, oferecendo uma formação humanística aos cientistas e promovendo uma imersão continuada no contexto dos grandes desafios da humanidade.

Enfrentar esses desafios transdisciplinares exige uma universidade que estimule intensivamente a inovação e a criatividade. Afinal, as ideias mais transformadoras costumam emergir nas fronteiras entre as diferentes áreas, e a universidade continua sendo um dos poucos espaços onde esses encontros podem ocorrer de forma sistemática. No entanto, para alcançar esses objetivos, é necessário não somente mudar as estruturas da universidade, mas também aprimorar os processos de construção do conhecimento além das metodologias clássicas. Não basta reunir pesquisadores de diferentes áreas em um mesmo espaço físico se eles continuarem operando sob as mesmas metodologias e linguagens segregantes. É indispensável estabelecer e cultivar novos processos que fomentem a complexidade, a contextualização global e a integração sistêmica dos saberes. A produção de conhecimentos fragmentados, por si só, já não é suficiente; o avanço do conhecimento depende inevitavelmente de criar novas conexões entre eles.

Assim, a questão que se coloca é como estabelecer essas conexões e desenvolver novos processos cognitivos e metodologias de construção do conhecimento que fomentem a inovação. Gilles Deleuze (1925–1995), um dos filósofos mais influentes do século 20, apresenta uma alternativa metodológica. Deleuze, que revolucionou as formas de construção do conhecimento ao desafiar os processos cognitivos tradicionais, advogava por uma proximidade maior entre a ciência, a filosofia e a arte. Para ele, a inovação, a criatividade e a inventividade transcendem as áreas e suas compartimentalizações e metodologias singulares. A criatividade deveria ser conceituada como um processo cognitivo universal, que poderia ser canalizada para qualquer vertente do conhecimento. Há tanto potencial criativo em uma pintura ou composição musical quanto em um projeto de engenharia ou equação matemática.

Deleuze defendia uma liberdade radical para conceitualizar o mundo e desenvolver um processo cognitivo em constante mutação, o que seria impossível dentro das rígidas estruturas metodológicas. A originalidade no pensamento de Deleuze reside na experimentação de novas formas de formular questões, conceber problemas e criar conceitos para compreender o mundo, rompendo com as metodologias tradicionais. Situado entre os principais representantes do pós-estruturalismo, ele defendia a desconstrução das estruturas rígidas de pensamento, que tinham se estabelecido por milênios, para abrir espaço a novos modos de pensar, conceituar e produzir conhecimento. Segundo ele, as estruturas clássicas restringiam a criatividade e a inovação e, por isso, propunha formas de pensamento mais fluidas, abertas à experimentação e em permanente transformação.

O método científico tradicional constitui um conjunto de procedimentos racionais destinados à investigação de fenômenos e à produção de conhecimento, estruturado em etapas como observação, formulação de hipóteses, experimentação, análise e conclusão. Embora o método tenha sido decisivo para os extraordinários avanços da ciência e da tecnologia, a inovação não decorre automaticamente da aplicação rigorosa de suas etapas. A inovação frequentemente resulta de associações inesperadas, experimentações improvisadas e conexões improváveis, escapando, em certa medida, às estruturas lineares e hierarquizadas da metodologia clássica.

Assim, torna-se indispensável ultrapassar, ainda que momentaneamente, os limites impostos pela sequência rígida do método, abrindo espaço para a criatividade e inovação. Isso não significa abandonar a metodologia clássica, mas torná-la mais flexível, sofisticada e capaz de incorporar novas rotas de produção do conhecimento.

Isso permitiria redesenhar os processos de construção do conhecimento, explorando não apenas os caminhos estruturados do pensamento racional, mas também as conexões inesperadas que frequentemente dão origem às ideias mais inovadoras. Somente assim será possível entender as intricadas conexões da natureza, dentro do contexto da complexidade de Morin. Desta forma, um novo processo de construção do conhecimento poderia, de certa forma, reconciliar e reaproximar os processos cognitivos de cientistas, filósofos e artistas.

Dentro dos desafios da universidade, ao colocar a inovação como ponto focal desse processo de evolução institucional, é possível estabelecer uma complementaridade entre as ideias de Morin e de Deleuze. Morin buscava uma integração das diversas dimensões do mundo real em uma teoria da complexidade, como uma teoria unificadora da natureza. Já Deleuze era muito mais cético quanto a qualquer tentativa de síntese totalizante ou de uma estrutura unificadora. Enquanto Morin falava em rearticulação entre os conhecimentos fragmentados, Deleuze focava nas oportunidades infinitas e nas multiplicidades do pensamento não hierarquizado. A chave para estabelecer uma nova forma de construção do conhecimento é combinar o método de Morin (de tentar unificar conhecimentos desarticulados, através de uma linguagem unificadora) com o de Deleuze (de se desconectar das linguagens isoladas e buscar construir o conhecimento num ambiente sem as amarras repressoras). A inovação em qualquer área do conhecimento é a síntese ordenada proveniente do caos. Ou seja, a ordem racional pode emergir a partir de eventos caóticos, totalmente aderente às ideias de complexidade de Morin.

Embora tenham partido de tradições filosóficas distintas, tanto Morin como Deleuze criticavam a fragmentação do conhecimento, a burocratização da pesquisa científica e a hipervalorização das métricas produtivistas da universidade. Morin ofereceu a ideia de reconexão dos vínculos entre os diferentes saberes, enquanto que Deleuze ofereceu a ideia de novos modos de pensar para estabelecer conexões não hierarquizadas. Em conjunto, suas perspectivas permitem pensar uma universidade mais inventiva, capaz de gerar novos campos do conhecimento, enfrentar os desafios globais e reafirmar seu papel civilizacional ao longo dos séculos.

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