O amor e as artes visuais

22/07/2026 às 22:340 visualizações
Alecsandra Matias de Oliveira
Alecsandra Matias de Oliveira
Jornal da USP

Por Alecsandra Matias de Oliveira, professora do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc) da Escola de Comunicações e Artes da USP

 Publicado: 22/07/2026 às 19:34

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“Poesia e pintura são feitas da mesma forma que você faz amor; é uma troca de sangue, um abraço total – sem cautela, sem qualquer pensamento de se proteger.”
Joan Miró.

Adjacente, à leitura de diversos textos sobre artes visuais ou até mesmo durante a visita às exposições, quase sempre paira uma pergunta que parece piegas, mas cabível: qual é o espaço do amor nas produções contemporâneas? Aqui não foco apenas na questão do corpo ou do sexo. Digo sobre o sentimento. Para alguns, ele é paixão e padecimento, para outros é serenidade e companheirismo. Uma subjetividade que se reflete nas emoções: alegria, completude, acolhimento, mas igualmente melancolia, abnegação e transcendência.

No âmago, o amor pode ser visto como uma construção pessoal e coletiva, moldada por quem o vive e pelo contexto em que se insere. E talvez, sua definição seja tão difícil como responder de modo pleno o que, afinal, é arte? Parece complexo percebê-lo nas proposições artísticas atuais. Por que seria mais fácil distinguir as dores, as lutas, as reivindicações e as desigualdades? Por que não o mostrar revolucionário? Às vezes, o abalo nas estruturas não está na agressão, mas sim no afago.

Como disse Joan Miró, “poesia e pintura são feitas da mesma forma que você faz amor”. Para o pintor, a arte é uma entrega tal como o sentimento, ou seja, a ausência de reservas torna-se convergência entre ambos. Criar é despir-se de defesas e permitir que corpo e espírito se fundam em um gesto intenso. Quando se abandona o controle e se abraça o inesperado, o ato criativo torna-se experiência de transcendência. Saber interpretar essa dimensão é o que o contemporâneo nos exige hoje.

Aqui, vale destacar a ideia de que o amor sempre ocupou um lugar na História da arte, seja como tema explícito, seja como agente de mudança. Desde os desenhos rupestres até as experimentações com IA, ele aparece como eixo de ser e estar no mundo, mas também como experiência singular, marcada por contextos culturais, sociais e políticos.

Na tradição ocidental, o sentir amoroso foi retratado em diferentes registros: o idealizado nas pinturas renascentistas, o dramático nas obras barrocas, o íntimo nos pintores impressionistas e o fragmentado nas vanguardas modernas. Cada período traduziu a emoção em formas visuais que dialogavam com sua época, revelando suas dimensões espiritual e corporal.

No Brasil, obras acadêmicas, como Iracema (1884), de José Maria de Medeiros, ou as composições de Almeida Júnior, revelam como o sentimento podia ser representado em chave histórica e alegórica, associando afetos à ideia de pátria, sacrifício e devoção. Artistas modernistas como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti exploraram o amor em suas distintas facetas — ora como celebração da sensualidade, ora como expressão da vida cotidiana.

Mais tarde, o neoconcretismo trouxe o sentir para o campo da experiência sensorial e participativa, como nos Parangolés, de Hélio Oiticica, ou nos “objetos relacionais” que integram o método que Lygia Clark chamou de Estruturação do Self, desenvolvido a partir dos anos 1970. Ambos foram responsáveis por performances que integravam corpo, mente e ambiente. No fundo, as ações que envolviam os Parangolés e a Estruturação do Self convidaram o público a vivenciar o afeto em movimento.

A essas alturas, é evidente que o amor nas artes não se restringe à representação de casais ou à iconografia romântica. Segue mais longe, manifesta-se na relação entre artista e obra, na dedicação ao processo criativo e na busca por conexão com o espectador. Por exemplo, Louise Bourgeois, em suas esculturas, traduz o cuidado em memórias pessoais, transformando experiências subjetivas em formas que tocam o espectador. O sentimento, então, pode ser visto na entrega silenciosa do artista ao seu trabalho e na ponte emocional que se estabelece entre obra e público, revelando que amar, nesse contexto, é criar, compartilhar e provocar sensações que permanecem além da imagem.

Mas, não nos esqueçamos! Estamos tratando de algo que é regulado socialmente; moldado por normas, valores e expectativas que delimitam quem pode amar, como deve amar e quais afetos são considerados legítimos. Em contextos conservadores, por exemplo, ele tende a ser enquadrado dentro de modelos heteronormativos, patriarcais e familiares, reforçando papéis de gênero tradicionais e marginalizando expressões dissidentes, como relações LGBTQIA+, sentires não-monogâmicos ou vínculos que fogem ao ideal da família nuclear.

Essa regulação se dá por meio de instituições — como a religião, o Estado e a escola — e, de modo igual, por práticas sociais cotidianas, que naturalizam comportamentos e estigmatizam outros. Ao mesmo tempo, o amor se torna campo de resistência: artistas, intelectuais e movimentos sociais reivindicam formas de amar que escapam ao controle, mostrando que o afeto pode ser insurgente e libertador. As sociedades conservadoras tentam normatizá-lo, porém, justamente por isso ele se torna um espaço de disputa.

Mais do que nunca, o teor amoroso surge como resistência e afirmação identitária: artistas negros, indígenas e LGBTQIA+ usam a arte para reivindicar o que lhe foi negado, transformando-o em gesto político e estético. A artista Zanele Muholi, fotógrafa sul-africana, por exemplo, retrata pessoas negras LGBTQIA+ em imagens que celebram a dignidade de corpos muitas vezes obliterados, convertendo-os em ferramentas de empoderamento. Já Mickalene Thomas, artista norte-americana, cria colagens e pinturas que exaltam mulheres negras em poses glamorosas, ressignificando o amor-próprio e a autoestima como resistência contra padrões eurocêntricos.

No Brasil, Jaider Esbell, artista macuxi, afirma o amor pela ancestralidade e pela terra. Já o fotógrafo Emerson Rocha (De Saturno) cria imagens que exploram a intimidade, a sexualidade e o pertencimento, utilizando cores intensas para destacar os corpos negros em situações de cuidado. Além deles, Aline Motta emprega a fotografia e o vídeo para abordar ancestralidade e vínculos familiares, revelando o afeto como elo entre gerações e como ferramenta de cura das feridas coloniais. Esses artistas mostram que o sentimento é prática insurgente: amar a si, amar a comunidade e amar a sua história torna-se ato de insubordinação.

Esses exemplos revelam que o amor, nas artes visuais contemporâneas, não se limita ao campo íntimo ou romântico, mas se expande como prática política. Ele se torna um ato de insurgência estética e social, capaz de reconfigurar narrativas e abrir espaço para novas formas de existência. Deve-se reconhecer sua aptidão como linguagem que desestabiliza e, ao mesmo tempo, como expressão singular de cada cultura e indivíduo. Ele é tema, é prática e é experiência — um fio que atravessa séculos e estilos, mantendo-se como uma das forças mais duradouras e transformadoras da criação artística.

Ainda assim, reconhecemos os contrapontos: alguns críticos argumentam que o amor, quando tratado como tema artístico, pode ser banalizado ou reduzido a clichês visuais, perdendo seu impacto político. Outros apontam que a ênfase no afeto pode obscurecer questões estruturais mais urgentes, como desigualdade social e violência, tornando o discurso afetivo insuficiente para enfrentar duras realidades. Há artistas contemporâneos que rejeitam o sentimento como eixo criativo, preferindo explorar o conflito, a ironia ou a crítica direta às instituições. Esses contrapontos não anulam a sua potência, mas lembram que ele é apenas uma das muitas motivações que conectam arte e vida.

E, talvez, observar a acidez dos discursos visuais seja algo mais palatável aos críticos combatentes, porque a denúncia, o choque e a provocação costumam ser reconhecidos como marcas da arte contemporânea. No entanto, o amor se apresenta como impulso, outrossim muitas vezes subestimado. Ele não se impõe pela violência, mas pela sutileza, pela capacidade de criar vínculos e de desestabilizar fundamentos por meio da delicadeza. Se a acidez revela as fraturas sociais, ele expõe as possibilidades de reconstrução; se a crítica aponta o que corrói, o afeto indica o que sustenta.

Nesse sentido, o amor não é menos político do que a denúncia: é insurgente porque insiste em existir onde o conservadorismo tenta normatizar, é radical porque desafia a lógica da indiferença e é estético porque se traduz em formas que tocam, envolvem e transformam. Desse modo, mesmo diante de discursos visuais marcados pela dureza, o afeto se afirma como energia criadora, capaz de mover artistas e espectadores em direção a novas formas de imaginar o mundo. De fato, é salto sem rede de segurança. É entrega do artista e do público.

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