




O estudo é qualitativo e foi realizado entre agosto e dezembro de 2025 e reuniu 15 grupos focais com mais de 140 adultos de 18 a 40 anos, responsáveis pelas compras domésticas em cinco capitais: Belém, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre e São Paulo. Os participantes foram distribuídos por faixa de renda. A coleta de dados combinou quatro instrumentos: questionário sobre hábitos alimentares baseado nos protocolos de aplicação do Guia Alimentar para a População Brasileira, desenvolvido pelo Ministério da Saúde em parceria com o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP; simulações de compra com orçamentos pré-definidos; exercícios de leitura de rótulos e testes de mensagens sobre alimentação saudável.
Por se tratar de pesquisa qualitativa e exploratória, os resultados não permitem estimar prevalências e incidências nacionais e não se pretendem ser estatisticamente significantes. O estudo é uma porta de entrada para pesquisas aplicadas ainda mais aprofundadas e com foco na infância. Sobretudo, ele busca as vozes das populações alvos não somente como consumidores, mas como comensais. Neste sentido, a família e o indivíduo são observados para além da compra e do consumo mercadológico: olha-se para as pessoas enquanto seres que se alimentam, ou seja, enquanto sujeitos que participam do ato de comer — seja à mesa, junto de outras pessoas, seja em sentido mais amplo, próprio da nutrição e da saúde coletiva, como qualquer indivíduo que se alimenta no contexto de uma alimentação coletiva ou institucional (escolas, empresas, restaurantes populares).
A análise identificou seis padrões. O primeiro é o peso do “custo total” da alimentação, que inclui não apenas o preço dos alimentos, mas o tempo e o esforço mental exigidos para planejar, comprar e preparar as refeições — tarefa concentrada majoritariamente entre as mulheres. O segundo é a percepção de baixa saciedade associada a alimentos saudáveis, o que os torna menos competitivos frente a opções ultraprocessadas. O terceiro descreve estratégias domésticas de gestão do orçamento, como compra em promoção, congelamento e porcionamento de alimentos.
O quarto resultado aponta diferenças por faixa de renda: famílias de renda mais alta leem rótulos com mais frequência, mas recorrem mais a serviços de entrega; famílias de renda intermediária fazem substituições de produtos; famílias de renda mais baixa priorizam preço e saciedade nas decisões de compra. O quinto resultado trata da alimentação infantil: segundo o questionário aplicado, entre crianças de domicílios com renda de até um salário-mínimo, 45% consomem frutas frescas diariamente e 27% consomem verduras e legumes, enquanto o consumo de guloseimas e ultraprocessados aparece em todas as faixas de renda. O sexto resultado indica que a rotulagem frontal de advertência é reconhecida pelos participantes, mas tem influência limitada diante de termos como “fit” ou “natural” nas embalagens.
Segundo os pesquisadores, os dados indicam que a alimentação saudável não depende apenas de decisões individuais informadas, mas de condições estruturais como renda, tempo disponível e organização da rotina familiar. A alimentação escolar aparece como fator relevante: quando estruturada, tende a compensar lacunas na dieta domiciliar; quando insuficiente, pode reforçar o consumo de ultraprocessados entre crianças. O estudo conclui que políticas voltadas à promoção da alimentação saudável precisam atuar sobre o ambiente alimentar — custo, tempo, acesso e oferta —, e não apenas sobre a informação disponível aos consumidores.
Os autores listam seis linhas de ação: reduzir o custo social da alimentação, por meio de agricultura familiar, feiras e capacitação para o preparo de alimentos; associar mensagens de saúde a atributos de sabor e saciedade; fortalecer a alimentação escolar e regulamentar cantinas privadas; ampliar e simplificar a rotulagem nutricional; apoiar estruturalmente quem cozinha, inclusive em ambientes de trabalho; e integrar políticas de saúde, produção local e sustentabilidade.
Os resultados subsidiam políticas de prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, com ênfase na alimentação escolar e na primeira infância. Ao demonstrar que fatores estruturais — e não apenas comportamentais — influenciam o consumo de ultraprocessados, o estudo reforça a necessidade de ações integradas entre vigilância nutricional, acesso a alimentos frescos e regulação da publicidade de alimentos voltada ao público infantil.
O primeiro relatório completo da pesquisa pode ser encontrado aqui.
Os pesquisadores principais deste inquérito do Pensi são discentes e alumni da Universidade de São Paulo (USP): Claudia Cheron König (doutora pela FEA-USP), Bruna Liria Avelhan (doutora pela FEA-USP), Bruno Valim Magalhães (doutorando em Saúde Coletiva pela FMUSP) e Renan Rosolem Machado (mestrando em Gestão e Inovação pela FZEA-USP).
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